Busca interna do iBahia
HOME > ECONOMIA

ECONOMIA

Seis em cada 10 brasileiros têm atividade para obter renda extra

Dinheiro a mais é estratégico para complementar o salário e conseguir pagar as contas

Fábio Bittencourt
Por Fábio Bittencourt
Carla Cristiane Monteiro, de 50 anos
Carla Cristiane Monteiro, de 50 anos - Foto: CLARA PESSOA/AG. A TARDE

O orçamento apertado tem levado brasileiros a buscar alternativas para complementar o salário e conseguir pagar as contas no fim do mês. Pesquisa da Serasa, realizada pelo Instituto Opinion Box, revela que seis em cada dez entrevistados afirmam realizar alguma atividade para obter renda extra.

Para 39%, a dupla jornada é uma prática regular, enquanto 21% recorrem a ela ocasionalmente. Entre as pessoas que fazem renda extra, 28% afirmam recorrer à atividade para quitar débitos, outros 17% veem nos ganhos adicionais uma forma de realizar sonhos, enquanto 13% consideram essa uma porta de entrada para empreender.

Tudo sobre Economia em primeira mão! Compartilhar no Whatsapp Entre no canal do WhatsApp.

O levantamento também aponta que 59% dos que buscam uma segunda fonte de receita consideram o trabalho permanente em suas vidas. A percepção de que esse movimento tende a se ampliar é compartilhada por sete em cada dez entrevistados, que concordam que depender de um segundo expediente está cada vez mais comum no Brasil.

O desafio, porém, está em transformar o esforço adicional em resultado efetivo. Entre os entrevistados que realizam essas atividades, 58% recebem até R$ 1 mil por mês, enquanto 20% ganham mais de R$ 2 mil. Para 58,5%, os valores obtidos estão dentro das expectativas.

Na avaliação do especialista em educação financeira da Serasa, Renan Maximiano, o aumento do custo de vida tem pressionado o orçamento doméstico.

“Do aluguel ao empréstimo bancário, até mesmo o cafezinho na padaria, está tudo muito caro. É aquele ditado: sobra mês, falta salário”, diz.

A experiência da economista Carla Cristiane Monteiro, de 50 anos, mostra que a busca por uma segunda fonte de renda nem sempre resulta em maior tranquilidade financeira. Há 18 anos trabalhando em uma empresa de economia mista, ela decidiu, há cerca de quatro anos, abrir uma franquia de produtos naturais com o marido, que é engenheiro. A expectativa era ampliar os ganhos da família. Na prática, porém, o negócio passou a exigir mais trabalho do casal e, até o momento, trouxe pouco retorno financeiro.

A loja funciona no shopping Boulevard Conceito, no bairro do Stiep, em Salvador. Além do emprego principal, Carla costuma trabalhar diariamente no estabelecimento do fim da tarde até as 21h e, aos sábados, até as 20h.

Uma funcionária atende os clientes no período da manhã. Mesmo com a dedicação, as receitas nem sempre são suficientes para cobrir todas as despesas. Em algumas ocasiões, Carla precisa recorrer ao próprio salário para manter o negócio em funcionamento.

“É muito trabalho tocar um negócio, e pouco retorno”, resume.

Para o especialista em educação financeira da Serasa, a experiência evidencia a importância de avaliar as exigências de uma atividade complementar antes de investir tempo e dinheiro.

“É um xadrez difícil de ser jogado, achar tempo em um dia a dia corrido”, afirma.

Ele ressalta que, embora a renda adicional seja importante para cobrir despesas e enfrentar imprevistos, a organização financeira continua sendo fundamental. Ainda segundo Maximiano, a formação de uma reserva de emergência, sempre que possível, ajuda a reduzir a dependência de ganhos extras em situações inesperadas.

Para o vice-presidente financeiro da Associação Brasileira de Recursos Humanos na Bahia (ABRH-BA), Paulo Neto, a renda extra tem sido cada vez mais uma necessidade do que uma escolha. O aumento do custo de vida e a insuficiência dos salários para manter o padrão de consumo ajudam a explicar a procura por novas fontes de receita.

“Empreender, nesse cenário, muitas vezes é uma alternativa de sobrevivência financeira”, afirma.

Neto chama a atenção, entretanto, para o desgaste físico e mental provocado pela dupla jornada.

“Trabalhar mais significa, em muitos casos, reduzir o tempo disponível para descansar, estudar e conviver com a família. Assim, o aumento da renda pode vir acompanhado de perda de qualidade de vida”.

Os efeitos também podem chegar ao ambiente profissional, com reflexos sobre a produtividade e a qualidade do trabalho. Para o especialista, a adoção da escala 5x2, por si só, não garante mais descanso se os dias livres forem utilizados para atividades remuneradas adicionais.

“Para as empresas, isso representa maior risco de queda de produtividade, erros e afastamentos. O desafio não é apenas reduzir a jornada, mas garantir que o trabalhador tenha condições financeiras para descansar de verdade”, avalia.

Planejamento

O conselheiro do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP) e presidente do Sindicato dos Economistas no Estado de São Paulo, Carlos Eduardo Oliveira Júnior, avalia que os dados apontam dificuldades de uma parcela significativa das famílias brasileiras para equilibrar o orçamento apenas com a renda principal.

Para ele, a busca por fontes complementares de receita indica que o salário nem sempre é suficiente para cobrir todas as despesas, recuperar perdas de poder de compra ou alcançar objetivos financeiros. O fato de 28% dos entrevistados que fazem renda extra utilizarem os ganhos para sair das dívidas reforça o papel dessa estratégia na recuperação do orçamento doméstico.

O economista alerta, no entanto, que a decisão de iniciar uma atividade complementar deve considerar os custos envolvidos, como transporte, equipamentos, matéria-prima, taxas e tributos, além do tempo necessário para executar o serviço.

A análise, segundo ele, precisa levar em conta o ganho líquido, e não apenas o faturamento. Também é recomendável estabelecer objetivos para o dinheiro recebido e manter um controle separado das receitas e despesas da atividade, de modo a avaliar se o esforço compensa.

“Uma atividade complementar tende a ser vantajosa quando oferece retorno compatível com o tempo investido e contribui para os objetivos financeiros de maneira sustentável”, afirma.

Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia. Google Noticias Siga o A TARDE no Google Noticias

Compartilhe essa notícia com seus amigos

Compartilhar no Whatsapp Compartilhar no Facebook Compartilhar no Email

Tags

economia Finanças

Relacionadas

Mais lidas