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Estudo revela desafios e expectativas dos jovens no mundo do trabalho

Levantamento foi apresentado durante o evento ‘Trampos do Futuro’ em São Paulo

Loren Beatriz Sousa
Por
Apresentação da pesquisa ‘Juventudes e o Mundo do Trabalho’
Apresentação da pesquisa ‘Juventudes e o Mundo do Trabalho’ - Foto: Agência Ophelia

O debate sobre a educação profissional e tecnológica (EPT) tem ganhado cada vez mais espaço nas discussões sobre o futuro da juventude brasileira. Mas, enquanto o país amplia a oferta de vagas e busca garantir mais qualidade na formação, surge um desafio que vai além do acesso à educação: aproximar os estudantes do mundo do trabalho, oferecendo experiências práticas, contato com diferentes profissões e conexões que possam ajudá-los a construir seus caminhos profissionais ainda durante a educação básica.

Essa foi uma das questões discutidas na segunda edição do Trampos do Futuro, iniciativa do Itaú Educação e Trabalho (IET), da Fundação Itaú, realizada nos dias 20 e 21 de agosto, na Fundação Bienal, em São Paulo.

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A proposta ganhou ainda mais força diante dos resultados da pesquisa ‘Juventudes e o Mundo do Trabalho’. Divulgado nesta sexta-feira, 21, o levantamento, que ouviu 1.816 jovens de 16 a 29 anos em uma amostra nacional representativa, identificou a experiência prática como um dos principais elementos para entrada no mercado de trabalho.

Para 49% dos entrevistados, a falta de experiência é a principal dificuldade para conseguir um emprego. Ao mesmo tempo, 55% consideram a experiência prática um dos principais fatores para conquistar um bom trabalho. Nove em cada dez jovens afirmam que a prática ensina mais do que os estudos, enquanto 60% defendem que programas de apoio à inserção profissional deveriam oferecer cursos práticos, e não apenas conteúdos teóricos.

A importância de aproximar a formação da realidade profissional também aparece na experiência do estudante Andrew Souza Castro, de 20 anos, que cursa o 2º semestre de Letras, com habilitação em Português e Inglês. Para ele, embora a graduação ofereça uma base importante em conteúdos como Língua Portuguesa e Literatura, a formação ainda precisa preparar melhor os estudantes para situações que podem surgir no exercício da profissão.

Andrew contou que essa percepção se tornou ainda mais evidente após uma amiga vivenciar uma situação delicada dentro da sala de aula.

“Eu defendo muito a questão da prática no meu curso porque sinto que, apesar de ter aprendido muito, por exemplo, sobre Língua Portuguesa e Literatura, não estou sendo preparado para o mercado de trabalho como professor, que é a carreira que pretendo seguir. Essa situação que a minha amiga vivenciou me afeta muito porque eu não saberia como reagir, assim como ela não soube reagir à situação. Ela foi agredida fisicamente em sala de aula e a gente não teve a quem recorrer ou a quem perguntar”, afirmou.

A influência da família e a falta de referências

Um outro dado que chama atenção é a decisão sobre qual caminho seguir depois do ensino fundamental ou durante o ensino médio. Para muitos jovens, escolher um itinerário técnico significa optar por uma profissão sobre a qual eles ainda têm poucas referências. Em entrevista à reportagem de A TARDE, a atual superintendente do IET, Silvana Oliveira, destacou que a influência familiar aparece como um elemento importante nessa escolha.

“As famílias têm grande influência na decisão de buscar uma oportunidade de trabalho. Quando já tem um pai ou uma mãe que fez uma educação em curso técnico, a tendência desses estudantes escolherem o itinerário técnico é maior. Temos uma rede que faz algo que é muito interessante, que é, para além de falar com os estudantes, falar com os representantes legais. Isso coaduna muito com a nossa pesquisa, porque já vimos que os familiares influenciam no processo de decisão”, explicou Silvana.

Já os jovens que vivem em contextos de vulnerabilidade e que não têm, no círculo familiar ou social, referências de determinadas profissões, o desafio é ainda maior. “Como ele vai sonhar em trabalhar com agronegócio se ele não tem nenhuma referência e se ele não sabe o que exatamente esse curso entrega para ele? Então, eu acho que existe um trabalho também de informar”, acrescentou.

Silvana Oliveira é a nova superintendente do IET
Silvana Oliveira é a nova superintendente do IET - Foto: Divulgação/Letícia Vieira

Tecnologia e mercado de trabalho

No que diz respeito às percepções em relação às tecnologias, ainda que 97% dos jovens usem a inteligência artificial e a internet para aprender e crescer profissionalmente, há uma preocupação com o futuro do mercado de trabalho: 90% acreditam que a IA vai poder eliminar muitas vagas de trabalho e metade (50%) tem medo de perder espaço por conta dos avanços tecnológicos.

“Esse jovem já sabe que existe um cenário de mudança das profissões. Ele entende que as tecnologias oportunizam para ele maior aprendizado e também geram oportunidades de inserção no mercado de trabalho. Então, ele está muito consciente sobre uma mudança dessas profissões. Nesse contexto, é fundamental que nós tenhamos momentos como este, eventos como este, e que a gente fomente reflexões sobre o futuro das profissões. Porque esse é um espaço de informar”, ressaltou a superintendente.

Entre as áreas em que as juventudes gostariam de trabalhar futuramente, Saúde aparece em primeiro lugar, com 25%, seguida por Tecnologia, com 22%. Comércio e Trabalho Administrativo aparecem com 19% cada, seguidos por Educação (16%), Beleza e Estética (14%) e Comunicação e Redes Sociais (13%).

Preocupações e tensões

Ao lado das expectativas sobre o futuro, o levantamento registra preocupações relacionadas à entrada e à permanência no mundo do trabalho. Para 49% dos jovens, a falta de experiência é a principal dificuldade para conseguir um emprego, seguido da quantidade de pessoas que disputam uma mesma vaga (39%).

Diante desse cenário, indicações e conexões são percebidas como decisivas para concorrer a uma vaga de trabalho: 96% dos jovens acreditam que conhecer alguém em uma empresa ou ser indicado por familiares ou amigos é fator decisivo para conseguir um emprego atualmente, e 77% conseguiram seu emprego atual por meio de uma indicação.

No que se refere às questões financeiras, 61% têm receio de não conseguir pagar as contas e ter uma vida tranquila no futuro, apesar de a maioria (91%) achar que sua situação financeira estará melhor daqui a cinco anos.

Trampos do Futuro quer expandir alcance até 2027

2ª edição do Trampos do Futuro é realizada em São Paulo
2ª edição do Trampos do Futuro é realizada em São Paulo - Foto: Agência Ophelia

Em sua segunda edição, o Trampos do Futuro reuniu jovens e educadores para discutir a educação profissional e tecnológica. Nos dois dias, a edição de 2026 contou com a presença de mais de cinco mil jovens e 40 parceiros.

A programação foi contemplada com palestras de especialistas e jovens que já vivenciaram o mundo do trabalho, além de oficinas interativas conectadas às economias do futuro, mostras e um espaço dedicado a carreiras.

O encontro também incluiu um espaço voltado aos docentes, com oportunidades de formação para educadores que acompanharam os estudantes durante o evento. Entre os principais temas abordados estiveram:

  • Os desafios da saúde mental na era contemporânea;
  • Competição de Ponte de Papelão: Design Thinking para Professores;
  • Percurso nas artes para professores: a música e seus desdobramentos;
  • Metodologias Ativas com IA.

Segundo a superintendente Silvana Oliveira, a intenção do Itaú Educação e Trabalho para as próximas edições é ampliar o alcance do Trampos do Futuro e criar mais oportunidades de participação até 2027. Entre as possibilidades estão o aumento do número de dias do evento e da capacidade de receber estudantes de municípios mais distantes, reduzindo barreiras relacionadas ao deslocamento.

A expansão também deve buscar maior representatividade territorial. A proposta da Fundação Itaú é lançar um edital voltado a boas práticas e projetos inovadores, capaz de ampliar a participação de estudantes e professores de outros estados.

*Repórter viajou a São Paulo a convite do Itaú Educação e Trabalho.

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