EDUCAÇÃO
O papel dos professores nos bastidores do Concurso Cultural Jovem Jornalista
Orientação e incentivo fazem diferença na trajetória dos estudantes premiados


Antes de um estudante ocupar o centro de uma conquista, existe muitas vezes alguém que acompanhou o caminho de perto. Professores que incentivam uma ideia, apontam possibilidades, fazem correções, ajudam a superar inseguranças e mostram que um projeto pode ir além da sala de aula.
No Concurso Cultural Jovem Jornalista, esse acompanhamento aparece como parte importante da trajetória dos estudantes. O protagonismo, embora seja construído por quem coloca a ‘mão na massa’, também passa pelas pessoas que ajudam a dar direção ao percurso.
Ao longo desse percurso, cada professor encontra uma forma própria de orientar. Há quem comece pela habilidade do estudante, quem trabalhe a escrita, ou quem simplesmente ofereça confiança para que o aluno avance.
Orientar sem tirar o protagonismo
Em Dias d’Ávila, o professor Miguel de Jesus Junior, orientador de vídeorreportagem, conta que a produção foi construída em conjunto com a aluna.
“Um projeto que eu convidei a Luísa para participar comigo e nós juntos construímos esse trabalho. O professor é um mediador importantíssimo nesse processo. O aluno sozinho pode dar conta, mas com a orientação do professor as coisas funcionam muito melhor.”

Em Seabra, a professora Déborah Cristina, orientadora de vídeorreportagem, também entende que seu papel é oferecer suporte para que o estudante assuma a autoria.
“Eu acho que o professor entra como um coadjuvante nessa etapa, porque o trabalho fica com o protagonismo do aluno. A gente tenta colocar ele justamente como protagonista.”
Segundo ela, a orientação partiu do reconhecimento do potencial da estudante. “Jailza tem muita dedicação, é uma menina que sabe o que quer, então foi bem fácil colocar ela nessa posição de protagonista. Eu acreditei e acredito muito nela.”
Em Brumado, a professora Suze da Silva, orientadora de tirinhas, partiu da facilidade do aluno com o desenho e procurou aproximar a produção de sua realidade.
“Quando resolvi criar o projeto, fui pensando na habilidade que ele já tinha, que é desenhar. E trazer a realidade dele. É muito fácil uma criança falar da vida dele, falar da realidade dele.”
Para Suze, preservar a identidade do estudante foi essencial. “Eu acho que é o cuidado em trazer a essência do aluno. Esse foi o meu maior objetivo, trazer a essência dele. Essa essência traz uma riqueza e uma bagagem muito grande que ele oferece na escola.”

Em Catu, a professora Geisiane Silva, também orientadora de tirinhas, começou a trabalhar a proposta a partir de uma formação. O incentivo veio antes mesmo de saber quem chegaria à etapa final.
“Eu falei com meus alunos: eu não quero nem saber quem vai comigo, eu sei que alguém vai comigo. Então, a gente vai estar lá naquele palco. Vocês vão fechar os olhos e imaginar que são campeões, independente da colocação.”

Em Ourolândia, a professora Eriene Rodrigues Alves dos Santos, orientadora de tirinhas, também destaca o reconhecimento proporcionado pela iniciativa. “É a importância de um único aluno que vai representar o nosso município. É orgulho, gratidão. Quero agradecer esse projeto, porque essa comunidade está nos nossos alunos jovens.”
Dar espaço para histórias
Em outras produções, a própria trajetória do estudante se torna matéria-prima. Em Catu, a professora Jeane Rios, orientadora de artigo de opinião, acompanhou um aluno que escreveu sobre a própria vida.
“O período mais marcante foram as horas finais, porque ele se empolgou com o texto. E aí a gente teve que resumir por conta da quantidade de linhas. A gente pensava: ‘Poxa, a gente vai tirar o quê?’, porque achava todos os trechos importantes, porque é a história real da vida dele.”

O processo também permitiu uma nova leitura da própria trajetória. “Foi muito bom para ele também, porque ele fez uma leitura da própria vida, só que agora de uma outra perspectiva”.
Em Salvador, o professor Conrado dos Santos, orientador de artigo de opinião, também estimulou os estudantes a partir de suas próprias experiências. “Uma das partes mais importantes foi que eles pudessem falar da vida deles. E aí eu cheguei para ele e falei: por que você não traz a história dos seus? Traga a história deles para as pessoas conhecerem.”
O trabalho que acontece nos bastidores
Em Salvador, a professora Jaqueline Santos de Souza, orientadora de vídeorreportagem, lembrou de trabalhos anteriores do estudante para identificar nele o perfil para a categoria.
“Sou professora de língua inglesa e vi que grande parte dos trabalhos apresentados por ele eram de vídeos. Quando surgiu a oportunidade do concurso nessa categoria, pensei logo nele.”
A professora conta que precisou conciliar a orientação com as aulas. “O processo foi muito trabalhoso porque eu só tenho duas horas-aula com ele e precisava me dividir entre lecionar a matéria e orientá-lo. Nem sempre temos uma carga horária extensa fora de sala para fazer isso.”

Em Candeias, a professora Marinalva de Souza, orientadora de crônica, destaca a oportunidade de dar voz a estudantes que precisaram interromper os estudos.
“Esse projeto é uma oportunidade que os estudantes têm de colocar suas reflexões, suas vivências, suas experiências do cotidiano através da escrita. É essa oportunidade de valorizar esse potencial criativo que cada um dos estudantes possui.”
Na EJA, segundo Marinalva, muitos precisam conciliar estudo, trabalho e família. “Eles têm um potencial incrível, mas em algum momento da vida foram obrigados a deixar os estudos de lado em prol da família, do cuidado com a família, do cuidado com o trabalho. Mas nunca é tarde para que haja esse resgate.”

Incentivo que reconstrói possibilidades
Em Lauro de Freitas, a professora Najla Meiruce, orientadora de crônica, relaciona o trabalho de mediação à retomada da confiança dos estudantes da EJA.
“Esse tipo de projeto fortalece a questão do professor ser aquele ícone na vida do aluno em relação a reconstruir os sonhos, principalmente na EJA. No retorno a esse estudo, eles conseguem se reconstituir, entender os processos como cidadãos e, principalmente, reconstruir os sonhos.”
Em Salvador, a professora Cátia Valentina, orientadora de crônica, acompanhou uma estudante que escolheu abordar em sua produção a realidade de jovens negros e periféricos. Antes da escrita, houve um trabalho de aproximação com o gênero.
“Fomos fazendo leituras de textos de autores consagrados da literatura nacional para poder se familiarizar com o gênero textual. E aí ela escolheu um tema relacionado à realidade dela.”

Da sala de aula para a autoria
Em Salvador, a professora Camila dos Santos Reis, orientadora de artigo de opinião, precisou adaptar o acompanhamento para que a estudante dominasse um gênero textual diferente daquele trabalhado regularmente em sala.
“O artigo de opinião é um gênero bem diferente do texto dissertativo. Então, acho que foi essa a maior dificuldade, o meu maior desafio de passar esse gênero para ela. Eu tive que fazer um material separado.”
Depois dessa adaptação, a estudante conseguiu desenvolver o texto a partir da própria experiência. “Ela dominou, porque é a história dela, o tema era ela que ia se apropriar e falar da vivência dela, e aí foi realmente a autoria dela.”
Para a professora, o resultado também reafirma o sentido do trabalho docente. “A gente sabe da dificuldade da sala de aula, sobretudo na escola pública, mas eu sempre falo: se a gente faz a diferença na vida de uma pessoa, de um aluno que seja, nosso trabalho já vale toda a pena.”
Por trás de cada projeto apresentado, há, portanto, uma história que também pertence aos professores. São profissionais que conciliam a rotina escolar com a orientação dos trabalhos e que, muitas vezes, precisam abrir mão de tempo pessoal para acompanhar seus alunos.
Valorizar esse papel é reconhecer que o protagonismo juvenil não nasce sozinho. Ele é construído a partir de oportunidades, mas também de relações. E, nesse processo, professores que escolhem incentivar seus estudantes ajudam a transformar uma ideia em experiência, e uma experiência em possibilidade de futuro.