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IA democratizou acesso aos jingles, mas prejudicou pequenos produtores
MERCADO POLÍTICO

IA barateia produção de jingles, mas grandes produtores cobram mais

Tecnologia reduz custo de entrada, enquanto profissionais consolidados aumentaram seus ganhos

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Leo Almeida
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A inteligência artificial reduziu o custo e o tempo necessários para produzir um jingle eleitoral, mas a mudança não atingiu de forma uniforme o mercado. Enquanto ferramentas de IA permitem criar músicas por mensalidades que começam na faixa de R$ 40 e há serviços que oferecem jingles por cerca de R$ 100, produtores tradicionais afirmam que mantiveram ou até elevaram seus preços nos últimos anos.

Na avaliação de profissionais baianos ouvidos pelo portal A TARDE, a tecnologia abriu espaço para campanhas menores, mas também aumentou a pressão sobre músicos e produtores que atuam fora do circuito das grandes campanhas.

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A diferença de preços expõe uma transformação no mercado: a tecnologia tornou a produção musical acessível a praticamente qualquer candidatura, mas os profissionais que construíram reputação no segmento passaram a concentrar sua atuação em campanhas com maior capacidade de investimento.

Diferenças de custo

No passado, o mercado de jingles, que envolvia equipes maiores, músicos, estúdios e arranjadores, passou por uma redução nos custos de produção antes mesmo da chegada da IA. Por volta dos anos 2000, os estúdios de jingles em Salvador chegavam a registrar o dobro de solicitações em períodos eleitorais.

Naquele momento, os candidatos pagavam entre R$ 3 mil e R$ 30 mil por jingle. Os valores eram associados a um processo de produção que envolvia equipes maiores, contando com músicos, bandas, arranjadores, integrantes da produção e estruturas de gravação diferentes das disponíveis atualmente.

Hoje, a estrutura foi reduzida de maneira significativa. Em determinados casos, um único profissional consegue realizar etapas que anteriormente dependiam de uma equipe, criando efeitos sonoros eletronicamente, ainda sem o uso da IA. O efeito foi uma compressão dos preços na base do mercado.

Profissionais do setor relatam que um jingle que há poucos anos poderia custar entre R$ 15 mil e R$ 20 mil passou a ser encontrado por cerca de R$ 800. Ao mesmo tempo, há trabalhos de produtores consolidados que chegam a R$ 7 mil, R$ 8 mil ou R$ 10 mil.

Em campanha neste ano, dos profissionais de comunicação política consultados pela reportagem afirmou ter pago R$ 4,8 mil por três jingles.

Tratando sobre as IAs, existem produtoras especializadas que vendem os jingles de campanha por R$ 100. No entanto, o portal A TARDE encontrou ferramentas que realizam as vendas de duas canções por R$ 20 e até sites como o “Suno AI Music Generator”, que possui certas modalidades gratuitas.

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Quanto tempo se gasta?

A reportagem do portal A TARDE utilizou a plataforma para produzir um jingle para um candidato fictício. Utilizando o ChatGPT para montar a letra da música, o jingle demorou cerca de três minutos para ter quatro versões produzidas no SunoAI, sendo duas delas pagas.

Confira:

Ouça o áudio

Jingle para candidato fictício

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Jingle para candidato fictício

Os prompts utlizados para a elaboração da letra e produção do jingle na reprotagem foram:

"Quero que você faça um jingle político para o candidato Moreira da Madereira a deputado estadual na Bahia no ritmo de piseiro. Ele nasceu em São Sebastião de Passé e tem como características a humildade e o combate à corrupção. O número de urna dele é 6767".

Campanhas menores

Entre as possibilidades no uso da IA está a utilização de uma música de referência para gerar outra composição com características melódicas semelhantes. O recurso reduz etapas que anteriormente exigiam a participação de compositores, músicos, arranjadores e profissionais de estúdio.

A consequência é uma queda significativa na barreira de entrada. Se antes uma candidatura precisava reservar uma parcela maior do orçamento para contratar uma estrutura de produção musical, atualmente é possível criar uma peça com recursos tecnológicos disponíveis a preços relativamente baixos.

Ao A TARDE, Paulo Maneira estrategista de marketing político com mais de 20 anos de atuação, avaliou que a mudança democratizou o acesso aos jingles. Segundo ele, a tecnologia colocou candidatos de diferentes estruturas dentro do mercado de produção de jingles.

"A campanha ficou mais barata, mas ela ficou mais volumosa. A IA é útil, é maravilhosa. Antigamente não eram todos os candidatos que podiam fazer jingles, hoje em dia todos podem fazer. A vantagem é que nenhum candidato pode dizer hoje que não tem um jingle. Botou todo mundo dentro do jogo", comentou.

Estrategista eleitoral, Paulo Maneira
Estrategista eleitoral, Paulo Maneira - Foto: Divulgação

Nova concorrência

A mesma democratização que ampliou o acesso ao produto, porém, também criou uma nova concorrência para profissionais que dependem da produção de jingles como fonte de renda.

Com a possibilidade de o próprio candidato, assessor ou equipe de comunicação gerar uma música por meio de uma plataforma, produtores menores passaram a competir não apenas entre si, mas com uma tecnologia capaz de entregar uma produção por uma fração do preço cobrado por um estúdio tradicional.

O cenário é diferente para profissionais que já possuem nome consolidado no segmento. Segundo Paulo Maneira, os grandes produtores passaram a concentrar sua atuação nas campanhas que conseguem investir mais na comunicação.

Na avaliação dele, a redução dos preços ocorreu principalmente nos trabalhos de menor escala, enquanto os profissionais mais reconhecidos passaram a selecionar melhor os clientes.

"Hoje só as grandes campanhas estão usando os artistas. Vale mais a pena você escolher o seu cliente e cobrar um preço mais justo. Quem busca esses grandes profissionais está disposto a pagar mais", afirma.

Identidade

Daniel Borges, conhecido como Dan Hills, tem 36 anos e é proprietário da Hill Produções. A produtora foi aberta em 2016, mas o músico iniciou sua carreira no setor musical aos 13 anos. Atualmente ele é reconhecido como um dos maiores nomes do segmento no Brasil, produzindo jingles para campanhas presidenciais e candidatos de outros estados.

Renomado, Daniel afirmou para a reportagem que a chegada da inteligência artificial não provocou redução nos preços cobrados pela empresa. Além disso, criticou as produções eleitorais utilizando a tecnologia.

“Nosso preço, ao invés de diminuir, aumentou porque nosso trabalho já é validado. É realmente algo muito diferente. A IA ainda não consegue produzir um som com a linguagem das ruas”, contou à reportagem.

Outro nome de grande relevância no setor é o do cantor e compositor baiano, Júlio Hermínio Luz, conhecido como Juliano Maderada. Conhecido pelo jingle "Tá Na Hora do Já Ir Embora", o artista avaliou que a IA "pode atrapalhar" o trabalho manual em algum momento, mas destacou que a busca por nomes consolidados no mercado segue em alta.

"O político quer que escreva a história dele, que passe a emoção. O cantor também sabe a hora que entona a voz, que hora ele fala com o coração. A IA não consegue substituir ainda. Acredito que o' jingle feito' a gente consegue colocar a ideia no momento certo. A gente consegue o chiclete por entender qual a hora que vai explodir, qual a hora do refrão", avaliou Maderada.

A diferença apontada pelo produtor está justamente no trabalho desenvolvido para além da geração de uma música. Em uma campanha eleitoral, o jingle precisa dialogar com o território, o candidato e o público ao qual a comunicação é direcionada.

Ambiente mediano

Para Paulo Maneira, o problema não está apenas na qualidade técnica do áudio produzido por inteligência artificial, mas na possibilidade de as campanhas passarem a utilizar peças semelhantes.

"Você tem uma fotografia do candidato que se repete muito e tem os jingles, que é o que fica na cabeça das pessoas. Hoje está banalizado, todo mundo canta a mesma coisa, todo candidato tem as mesmas músicas", afirma.

Segundo o estrategista, o jingle perdeu parte da função narrativa que exercia em campanhas anteriores. Além disso, Maneira classificou o uso indiscriminado da tecnologia como um impacto “mediano” na campanha, não sendo o suficiente para o êxito eleitoral.

"Os jingles antigamente contavam uma história. A identidade do jingle tem que mostrar a força do candidato. Não é apenas o ritmo, não é apenas a voz, é a identidade do candidato atrelada ao jingle, carrega a sua identidade. A IA vai te levar para o ambiente mediano e o mediano não se elege", avaliou.

Estratégia também envolve voz local

A resistência ao uso da inteligência artificial aparece também na experiência de profissionais responsáveis pela estratégia de campanhas. Ao A TARDE, Luís Troina, estrategista de comunicação política, afirma que sua equipe não utilizou jingles produzidos com IA na campanha deste ano.

Luís Troina avalia que IA tira oportunidade de "vozes autênticas"
Luís Troina avalia que IA tira oportunidade de "vozes autênticas" - Foto: Reprodução | Redes Sociais

"Na campanha, não fizemos e nem usamos jingles com IA. Chegaram algumas sugestões, mas não usamos. Fizemos durante a pré-campanha. Eu acho que fica artificial e perde a oportunidade de ter uma voz autêntica, muitas vezes até representativa", avalia.

Troina cita como exemplo a possibilidade de utilizar um artista identificado com determinada região.

"Prefere um jingle na voz de Adelmario Coelho ou com uma voz de inteligência artificial? Um jingle com uma voz local, de uma cidade", questiona.

A avaliação coloca outro elemento na disputa entre produção automatizada e tradicional: a capacidade de uma música representar características culturais e identitárias específicas de uma cidade ou região.

Menos custo, melhor qualidade?

Para Paulo Maneira, a redução dos custos de produção não significa necessariamente uma melhora na qualidade das campanhas.

"O preço caiu assustadoramente justamente por conta da questão das IAs, isso não apenas para os jingles. Acredito que a única parte da campanha que cresceu foi a profissão de videomaker", afirma.

Maneira também critica o que considera uma perda de qualidade na produção de jingles na Bahia. À reportagem, o estrategista cita como referência o histórico da publicidade baiana e afirma que jingles que anteriormente alcançavam grande repercussão cultural deram lugar, em muitos casos, a produções mais genéricas.

"Tenho escutado bons jingles fora da Bahia, mas aqui no estado, que se tem uma riqueza musical muito grande, o cenário está muito ruim. Em um estado de Nizan Guanaes e Duda Mendonça, que fizeram jingles que viraram música, aqui está muito ruim", afirma.

A capacidade da Bahia

A tradição baiana de transformar jingles em peças que ultrapassam a própria finalidade publicitária ajuda a dimensionar a importância cultural desse tipo de produção.

Um dos exemplos é "We Are Carnaval", composição de Nizan Guanaes que se tornou associada ao Carnaval de Salvador. A música, porém, não foi criada originalmente como uma mensagem de recepção aos turistas.

A canção na verdade nasceu como jingle de uma campanha publicitária destinada a arrecadar recursos para as Obras Sociais Irmã Dulce (OSID).

Outro caso marcante envolve Duda Mendonça, um dos maiores símbolos da publicidade brasileira. Em 1979, o marqueteiro criou uma música para uma campanha de Dia dos Namorados do Motel Le Royale, em Salvador.

Dias depois da repercussão, Maria Bethânia ligou para o publicitário e pediu para gravar a canção “Cheiro de Amor” — inicialmente lançada para o Le Royale —, para colocá-la no álbum “Mel”, um dos mais icônicos da cantora.

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Os casos ilustram uma característica que os profissionais entrevistados pela reportagem apontam como cada vez mais difícil de reproduzir: a capacidade de uma peça publicitária ultrapassar a campanha para a qual foi criada e permanecer na memória do público.

Força dos jingles

A relevância dos jingles na comunicação política também é apontada pela literatura acadêmica. O artigo “Os jingles como formas simbólicas de persuasão político-eleitoral”, de Fábio Hoffmann e Everton Rodrigo Santos, analisa a música eleitoral como uma ferramenta de comunicação inserida no contexto social e político de cada eleição.

Os autores apontam 1989, primeira eleição direta para a Presidência da República após quase três décadas, como um momento de consolidação dos jingles como peças estratégicas das campanhas modernas. Entre os exemplos analisados está "Sem Medo de Ser Feliz", produzido por Hilton Acioli para a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva.

O estudo também cita "Levanta a Mão", produzido em 1994 por Nizan Guanaes, Sérgio Campanelli, Sérgio Mineiro e César Brunetti para a campanha de Fernando Henrique Cardoso, com interpretação de Dominguinhos.

Mudanças recentes

Nos últimos anos, a produção de jingles passou por uma transformação após enfrentar novas regras relacionadas aos direitos autorais. Nas eleições de 2024, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estabeleceu que obras artísticas utilizadas em jingles, inclusive em paródias, não poderiam ser empregadas sem autorização dos autores ou titulares dos direitos.

Segundo o TSE, o autor de uma obra utilizada sem autorização pode pedir à Justiça Eleitoral a interrupção da divulgação do material. A regra foi incluída na Resolução TSE nº 23.610 após contribuições apresentadas por artistas em audiência pública.

Tratando sobre a IA, a Corte Eleitoral também se preparou para o uso da tecnologia nas eleições deste ano. Em determinação, o TSE declarou que conteúdos sintéticos multimídia produzidos ou alterados por inteligência artificial devem ser identificados de forma explícita, destacada e acessível.

Há ainda restrições específicas para novos conteúdos sintéticos que utilizem imagem, voz ou manifestação de candidatos ou pessoas públicas nas 72 horas anteriores e nas 24 horas posteriores ao pleito.

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