PARTICIPAÇÃO
Milhares de jovens baianos irão às urnas pela primeira vez nas Eleições
Escola, redes sociais e família estimulam o exercício da cidadania de adolescentes


Milhares de jovens baianos irão às urnas pela primeira vez nas Eleições de 2026, marcando a estreia de uma geração que começa a descobrir o peso da cidadania e participação política. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 165.336 baianos entre 16 e 17 anos - faixa em que o voto é facultativo - estão aptos a votar, este ano - 13.837 deles de Salvador.
Entre o aprendizado em sala de aula, as discussões nas redes sociais e o incentivo das famílias, o voto vem sendo cada vez mais reconhecido pelos jovens como um instrumento de mudança social que eles podem e devem usar.
"Muitos professores nos incentivam a votar, mesmo não sendo obrigatório, e acho isso muito interessante, porque nos faz sentir parte de algo maior. É muito legal poder escolher quem queremos eleger e participar da nossa realidade. Se não soubermos escolher nossos políticos, não vamos para frente", afirma a estudante do Colégio Estadual de Tempo Integral São Daniel Comboni (Sussuarana), Ana Clara Mota, de 17 anos, que irá às urnas este ano.
Para ela, a internet - sobretudo as redes sociais - se tornou uma ferramenta essencial para acompanhar o que os políticos dizem e fazem.
Desinformação
"Mas tudo que é bom tem seus pontos negativos. E na internet temos as fake news, que só pioraram com a inteligência artificial. É muito fácil acreditar em qualquer coisa, então aprendi a sempre verificar a origem da informação e se não está manipulada, principalmente porque se a gente compartilha algo falso, acaba espalhando desinformação", aponta a estudante.
O advogado e mestre em Ciências Jurídico-Políticas, Caio Sousa, explica que, no mundo virtual, questões historicamente debatidas em profundidade por especialistas acabam reduzidas a slogans, frases de efeito e cortes de vídeo.
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"São oferecidas respostas simples a problemas complexos. A lógica dos algoritmos reforça esse fenômeno, pois o conteúdo que mais circula nem sempre é o mais verdadeiro ou qualificado, mas o que gera maior emoção, engajamento e compartilhamentos. Educar os jovens para consumir informação de forma crítica e compreender a complexidade da vida pública tornou-se, portanto, um dos maiores desafios democráticos do nosso tempo. O maior risco não está nas redes sociais em si, mas na expectativa que elas podem criar sobre o funcionamento da política", alerta o advogado, que é professor de ciências políticas da Wyden.
Trazendo as demandas e valores do presente, ampliando a representatividade e aproximando as instituições das transformações sociais em curso, os jovens são fundamentais para fortalecer a democracia.
Como eleitores, eles desafiam a política tradicional ao exigir novas formas de comunicação, maior transparência e respostas mais concretas às necessidades da população. Se, no passado, discursos rebuscados e demonstrações de poder econômico conquistavam o eleitorado, as gerações Z e Alpha cresceram em um ambiente de amplo acesso à informação, o que torna o processo de convencimento mais complexo. São eleitores mais críticos, pragmáticos e, muitas vezes, céticos quanto à capacidade da política de promover mudanças reais Caio Sousa - advogado e mestre em Ciências Jurídico-Políticas
Consciência política
E essa consciência política dos jovens nasce, sobretudo, na família e na escola: espaços que moldam como futuros eleitores entendem a sociedade.
"O título aproxima minha filha da responsabilidade de decisão sobre as nossas realidades. São muitas coisas erradas que acontecem e sabemos que com o poder do voto podemos alcançar algumas melhorias. Ela sempre teve essa atitude participativa e tendo o direito de participar de algo tão importante para a sociedade não perderia a oportunidade", argumenta a auxiliar de desenvolvimento infantil Patrícia Maciel de Jesus, que é mãe de Alicia Morais, de 17 anos.
Alicia, que também é aluna do Comboni, conta que sempre foi incentivada pela família a se posicionar. "Sou da comunidade de Sussuarana, de maioria negra, e para mim tirar o título não é só uma obrigação, é um ato político, um posicionamento como mulher negra da periferia que estuda em escola pública. É o poder que temos na democracia, e eu quero exercer esse poder", afirma.
A estudante emitiu o seu título este ano, durante a Rolê Cidadão, uma ação da Secretaria Estadual de Educação (SEC) junto ao Tribunal Superior Eleitoral da Bahia (TRE-BA) que levou todo o equipamento necessário para regularizar e emitir o título em oito colégios do estado - 2.138 jovens foram atendidos.
Foi tudo muito rápido e organizado. Explicaram tudo certinho, e isso tornou o processo leve, diferente da ideia de que tirar o título seria algo estressante Alicia - estudante
A estudante Eloára Sena, de 17 anos, também emitiu o documento durante a iniciativa, em março deste ano. "A ação foi muito importante porque tornou o título mais acessível. Eu não iria tirar agora, só com 18, mas aproveitei a oportunidade e fiz. Acho essencial que os jovens participem de iniciativas assim, pois começam a entender a importância do mundo político e formar consciência desde cedo", afirma.
A estudante foi incentivada pela mãe, Dalva Sena, mesmo que, na época, ainda tivesse 16 anos. "Na minha opinião é muito importante que os jovens votem desde cedo e ajudem a escolher políticos e partidos que vão ajudar o nosso país", diz a matriarca.
O advogado Caio Sousa ressalta que famílias presentes e escolas comprometidas formam pessoas mais autônomas, participativas e capazes de compreender que a política não é um espaço reservado aos outros. A família exerce uma influência profunda na consciência política dos mais jovens.
"A família é o primeiro espaço em que os valores são construídos. Já a escola é o espaço onde os jovens têm contato com diferentes realidades, desenvolvem o pensamento crítico e aprendem que viver em sociedade exige diálogo", afirma.
Diretora geral do TRE-BA, Mirella Cunha explica que o maior acesso à informação e a aproximação da Justiça Eleitoral com o ambiente escolar também contribuem para despertar o interesse desse público pelo processo eleitoral.
Esse movimento demonstra a importância das ações permanentes de educação para a cidadania desenvolvidas pela Justiça Eleitoral em todo o país Mirella Cunha - Diretora geral do TRE-BA
O TRE-BA tem intensificado, nos últimos anos, as ações de educação para a cidadania voltadas ao público jovem, com o objetivo de estimular a participação consciente no processo democrático por meio do voto.
Isso tem preparado jovens não apenas para o exercício do primeiro voto, mas também para a compreensão de seu papel na escolha de representantes e na construção da vida política do país.
Ações educativas
"Entre as iniciativas, temos ainda o projeto Cidadania em Todo Lugar, que busca ampliar e descentralizar as atividades educativas da Justiça Eleitoral no interior do estado, por meio de conteúdos sobre democracia, cidadania, funcionamento da Justiça Eleitoral, participação feminina na política, enfrentamento à desinformação e uso da urna eletrônica, além de oficinas, jogos educativos e simulações", explica Mirella Cunha.
Professor de língua portuguesa, literatura e redação - além de história dos nossos ancestrais - do Comboni, Elias Conceição conta que trabalha com os alunos a linguagem e a leitura de mundo de corpos e questões sociais principalmente a partir da literatura.
"Debatemos o papel do cidadão e da cidadã dentro dos contextos político, social e econômico. A partir daí, desenvolvemos reflexões para alertar e ajudar os jovens a entenderem sua importância na construção social, que envolve tanto a política quanto a economia. É fundamental que eles, muitos em sua primeira ou segunda votação, se engajem nesse processo", explica o professor, que também é Ogan do Olufanjá.
Associar o trabalho pedagógico e didático às questões sociais do país é cada vez mais essencial, pois não basta dizer que o jovem é o futuro da nação.
"É preciso compreender que eles tomarão decisões, acertando aqui e corrigindo ali, mas sempre decidindo. Por isso, é fundamental que participem de todo o processo, desde as primeiras leituras mais lúdicas até as mais sérias, criando sua própria consciência política e entendendo o processo, para que sejam capazes de escolher bem seus representantes. Ou até mesmo se tornarem representantes dos coletivos que estão aí", reflete Elias Conceição.
Para o estudante João Victor Xavier de Souza, de 18 anos, poder ir as urnas este ano é uma oportunidade de votar no próprio futuro.
"Queremos um país democrático, em que todos se respeitem. O jovem votar hoje é uma chance de construir um futuro melhor. Quando o jovem participa, ele vota por si e pelos outros, porque trabalhamos em coletivo. Aqui na escola, por exemplo, participo do Coletivo Vinicius Teixeira, onde apresentamos uma peça teatral sobre a violência contra a mulher negra e contra minorias, como a comunidade LGBTQIA+. Trabalhamos muito a ideia de ter um país melhor e ter jovens nas urnas é parte disso", conta.
O Coletivo irá levar a peça para Brasília nos próximos dias. Também membro do grupo assim como Ana Clara e Alicia, Pedro Henrique Santos da Silva, de 18 anos, fala que a sua motivação para tirar o título aos 16 e votar já na eleição de 2022, foi a sua curiosidade sobre como poderia impactar a política.
"É um poder nosso: escolher quem vai estar lá em cima para nos representar. Sempre gostei de estudar o que cada cargo pode fazer, quem cria leis, quem executa, e acho importante a gente se situar. Mesmo que o candidato que escolhi não ganhe, sei que fiz minha parte. Uma pessoa no poder pode mudar a vida de milhões, por isso, é fundamental escolher bem quem colocamos lá", aconselha.


