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Pequenos negócios apostam em IA para produzir mais sem inflar gastos

Antes restrita a empresas maiores, ferramenta ganha espaço entre as de menor porte

Joana Lopes
Por Joana Lopes
Andréa Conceição
Andréa Conceição - Foto: Ana Albuquerque / Ag. A TARDE

A organização de um estoque com milhares de títulos diferentes, a criação de peças para redes sociais e o desenvolvimento de modelos de roupas a partir de referências visuais são algumas das tarefas que pequenos negócios começam a incorporar ao uso da inteligência artificial (IA). Antes restrita a empresas com maior estrutura tecnológica, a ferramenta ganha espaço entre microempreendedores e pequenos empresários interessados em economizar tempo, melhorar a qualidade dos serviços e ampliar a capacidade de gestão.

Uma pesquisa realizada pelo Sebrae mostra que 52% dos pequenos negócios brasileiros utilizam inteligência artificial. Na Bahia, o percentual foi de 47%. Entre os principais campos de aplicação estão marketing, atendimento ao cliente e gestão de estoques.

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A presença da tecnologia varia conforme a atividade econômica. No setor de serviços, 62% dos entrevistados já utilizam IA, proporção associada ao volume de interações digitais e à possibilidade de automatizar rotinas operacionais. No comércio, o índice chega a 45%, impulsionado pelas vendas digitais e por ferramentas de recomendação e atendimento. Na indústria, são 33%, com aplicações voltadas, entre outras frentes, ao controle da produção.

Para Mariana Lopes, especialista em IA e analista técnica do Sebrae Bahia que orienta empreendedores na adoção dessas ferramentas, a principal contribuição da inteligência artificial está na possibilidade de melhorar a operação sem exigir, necessariamente, uma ampliação da equipe. A tecnologia pode apoiar desde o atendimento e o pós-venda até atividades administrativas, financeiras e de marketing.

“Quando a gente orienta a utilização da inteligência artificial, é muito nesse sentido. De ajudar a operação a ser mais produtiva e também o dono, a dona da empresa, a serem gestores, líderes mais eficazes e eficientes, utilizando a IA como ferramenta de trabalho”, afirma.

A especialista destaca que a tecnologia pode ser aplicada independentemente do segmento, desde que o empresário consiga identificar quais atividades consomem tempo e poderiam ser executadas de maneira mais eficiente. Em muitos casos, a IA também funciona como um complemento aos sistemas informatizados que a empresa já utiliza, potencializando recursos existentes.

Mapear procedimentos

O ganho de produtividade, porém, não significa que a adoção da ferramenta deva começar pela contratação de plataformas ou pela automatização indiscriminada de tarefas. O primeiro passo, segundo Mariana, é organizar a empresa e mapear seus procedimentos. É preciso entender quem executa cada atividade, quais informações são necessárias e como uma etapa se conecta à seguinte.

Sem esse diagnóstico, a inteligência artificial pode reproduzir problemas que já existem na operação. Informações incompletas ou desorganizadas tendem a produzir respostas e análises pouco confiáveis, comprometendo decisões e até gerando prejuízos financeiros.

Imagem ilustrativa da imagem Pequenos negócios apostam em IA para produzir mais sem inflar gastos
Foto: Ana Albuquerque / Ag. A TARDE

“Se a empresa estiver bagunçada e o empresário ou empresária quiser investir em IA nos seus processos sem ter mapeado, sem ter organizado esses processos, vai ter provavelmente uma dificuldade muito grande”, alerta.

A recomendação vale também para aplicações aparentemente simples, como a produção de conteúdo para redes sociais. Antes de programar uma sequência de publicações, por exemplo, o empreendedor precisa definir o objetivo da ação: aumentar o engajamento, conquistar seguidores ou direcionar consumidores para uma compra. A partir daí, pode avaliar como a tecnologia contribuirá nas diferentes etapas, da produção de imagens e descrições de produtos à gestão dos pedidos e ao acompanhamento dos resultados.

Na avaliação de Lopes, muitos pequenos negócios ainda exploram apenas uma parcela das possibilidades disponíveis. O uso de ferramentas de conversa, como ChatGPT, Gemini e Claude, já permite agilizar pesquisas, produzir textos e organizar informações. Mas a especialista defende que os empreendedores avancem para assistentes e agentes de IA integrados às atividades da empresa, capazes de executar tarefas dentro de fluxos de trabalho definidos.

A experiência de Tatiana Queiroz, proprietária do Cantinho do Sebo, em Salvador, mostra como a incorporação de recursos digitais pode ocorrer gradualmente, de acordo com as necessidades de cada negócio. Com 35 anos de história, a empresa foi fundada pelo pai da empresária, que assumiu a administração em 2020, depois de começar a trabalhar na loja em 2015.

A busca por canais digitais já fazia parte da estratégia do estabelecimento antes da popularização da inteligência artificial. Assim que surgiram plataformas como Estante Virtual e Mercado Livre, o sebo passou a anunciar seus livros nesses ambientes, ampliando o alcance das vendas, inclusive para outros países. O WhatsApp Business também se tornou uma ferramenta importante para o relacionamento com os clientes.

Uma das adaptações foi a criação de uma mensagem automática para responder a perguntas recorrentes, como as solicitações de informações sobre a compra de livros usados. “Se eu fosse responder um por um, não faria mais nada”, conta Queiroz. Para manter a proximidade com o público, ela personalizou o texto com informações sobre o estabelecimento e uma linguagem simpática e humanizada.

Mais recentemente, a empresária começou a estudar por conta própria as possibilidades da IA, principalmente para automatizar tarefas e reduzir o tempo gasto em atividades operacionais. Um dos maiores desafios do sebo é justamente a organização do estoque. Ao contrário de uma livraria convencional, que pode trabalhar com centenas de exemplares de um mesmo título, o estabelecimento lida com uma grande variedade de obras, muitas vezes com apenas uma unidade disponível.

“É muito difícil, por exemplo, um sebo conseguir organizar estoque. Diferente de uma livraria tradicional, que pode ter mil exemplares de uma mesma obra, aqui temos mil títulos diferentes. Estou investigando como a IA pode me ajudar nisso, mas ainda não cheguei lá”, relata.

Comunicação

Enquanto busca uma solução para o controle dos livros, Queiroz já utiliza a tecnologia na comunicação da empresa. A inteligência artificial ajuda a desenvolver cards e campanhas para as redes sociais, e a próxima etapa será produzir vídeos com apoio da ferramenta na elaboração dos roteiros.

O movimento de experimentação também aparece em atividades que envolvem criação e produção. Andréa Conceição começou a fabricar collants de ginástica rítmica para atender a uma necessidade familiar. Sua filha pratica o esporte desde os seis anos e, diante do preço elevado das peças, que exigem detalhes e bordados elaborados, ela decidiu aprender a confeccioná-las. Há dois anos, o que começou como uma solução para a própria família se tornou negócio, após receber encomendas de outras mães e atletas.

Com o crescimento da atividade, Conceição percebeu que parte das clientes já chegava com croquis elaborados por meio de ferramentas de inteligência artificial. A situação despertou seu interesse em aprender a utilizar a tecnologia também no processo de criação. Depois de participar de uma oficina sobre o tema com Mariana Lopes, há poucas semanas, passou a experimentar recursos que ajudam a transformar referências visuais em propostas para os figurinos. “Hoje, coloco as ideias de esboços e referências de imagens em um assistente de IA para facilitar e agilizar o processo de criação”, conta.

Os relatos mostram que a adoção da inteligência artificial não segue um caminho único. Enquanto alguns empreendedores começam pela comunicação digital, outros procuram soluções para problemas de gestão ou incorporam a ferramenta ao desenvolvimento de produtos. Em comum, há a tentativa de direcionar recursos tecnológicos para demandas concretas, sem necessariamente realizar grandes investimentos ou mudanças estruturais de imediato. Os dados do Sebrae indicam que esse movimento deve ganhar força. Segundo a pesquisa, 60% dos MEI, microempresas e empresas de pequeno porte pretendiam começar a utilizar ou ampliar o uso da inteligência artificial nos próximos seis meses.

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´gestão IA em negócios sebrae tecnologia

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