OPORTUNIDADE
Salário 47% maior? O segredo da IA que está transformando o currículo dos brasileiros
Especialistas revelam quem pode ficar para trás em novo modelo de trabalho

A inteligência artificial (IA) deixou de ser uma habilidade restrita a especialistas e começa a redesenhar o que significa ser empregável no Brasil. Um levantamento do Infojobs aponta que o número de vagas relacionadas à IA cresceu 65% em um ano e ultrapassou mais de duas mil oportunidades em 2025. Essa demanda se espalha por áreas como marketing, vendas, recursos humanos e administração, um sinal de que não dominar o tema pode se tornar um freio na carreira.
“O que vemos é uma mudança de mentalidade com a perspectiva de IA first [IA primeiro]”, afirma Patricia Suzuki, diretora de RH da Redarbor Brasil, empresa que controla o Infojobs. Segundo ela, as empresas passaram a buscar profissionais que combinem conhecimentos básicos em dados e inteligência artificial com entendimento de negócio. “A IA deixou de ser uma competência restrita às áreas técnicas e passou a ser uma habilidade cada vez mais presente em diferentes funções.”
Na prática, isso significa que o uso de ferramentas de IA já integra o dia a dia de áreas diversas. No marketing, profissionais são demandados para personalizar campanhas e analisar mercado com apoio de algoritmos. Em vendas, a tecnologia entra para prever resultados e automatizar processos. Já no RH, aplicações vão de recrutamento à análise de desempenho.
Os dados refletem essa transição. Em 2024, quase 90% das vagas estavam concentradas em especialistas. Em 2025, houve distribuição mais equilibrada entre analistas, assistentes e até estagiários. A mudança indica que a inteligência artificial não apenas cria novas funções, mas transforma ocupações já existentes.
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Remuneração
Esse movimento também impacta diretamente os salários. Funções mais técnicas continuam no topo da remuneração, com médias em torno de R$ 10 mil para especialistas. Já cargos de analista registram média de R$ 5.100. “A IA cria uma nova camada no mercado: profissionais que não desenvolvem a tecnologia, mas sabem aplicá-la no contexto do negócio”, explica Patricia Suzuki.
Para Ana Paula Prado, outra especialista da Redarbor, o fenômeno vai além da valorização pontual de habilidades. “O impacto da inteligência artificial redefine a própria empregabilidade. O maior risco não está na tecnologia em si, mas na falta de preparo para utilizá-la de forma estratégica”, afirma.
Segundo Elaine Coimbra, vice-presidente de Comunicação da Associação Brasileira de Inteligência Artificial (Abria), o domínio de IA já começa a migrar de diferencial para exigência funcional em boa parte das ocupações. “Saber trabalhar com ferramentas de IA, automatizar tarefas e interpretar resultados com criticidade está entrando no pacote básico de empregabilidade”, diz.
A transformação ocorre em ritmo acelerado. Estudo da PwC mostra que habilidades em ocupações mais expostas à IA mudam 66% mais rápido do que em outras áreas. Isso reforça uma nova lógica: não basta aprender uma vez, é preciso atualizar-se continuamente.
Embora a base da demanda ainda esteja na tecnologia, com projeções de expansão do setor de TI, o avanço da IA nas áreas de negócio é cada vez mais evidente. Levantamento da Brasscom já apontava um descompasso de mais de 30% entre oferta e demanda por profissionais de tecnologia no País. Agora, esse desequilíbrio começa a se estender a outras funções.
Dados da Amazon Web Services em parceria com a Access Partnership indicam que habilidades em IA podem elevar salários em até 47% na área de TI, mas também garantem ganhos relevantes em vendas e marketing (43%), finanças (42%) e operações (41%).
Desafios
Ou seja, a tecnologia deixa de ser um nicho e passa a influenciar toda a estrutura organizacional. Apesar das oportunidades, o avanço traz desafios. A formação de profissionais não acompanha a velocidade da demanda, criando um cenário de escassez, especialmente em cargos mais técnicos, como cientistas de dados e engenheiros de IA.
“Não é um apagão absoluto, mas há um desequilíbrio claro entre oferta e demanda”, diz Suzuki. As empresas têm reagido com estratégias variadas. Algumas investem na capacitação interna, outras flexibilizam critérios de contratação, priorizando potencial e habilidades transferíveis. A ampliação de vagas em níveis iniciais também indica uma aposta no desenvolvimento de talentos a longo prazo.
Para quem busca se adaptar, especialistas apontam três pilares fundamentais: alfabetização em dados e IA, capacidade analítica e visão de negócio. “Não é necessário começar por conhecimentos técnicos avançados. O mais importante é entender como aplicar a IA para gerar impacto real”, afirma Suzuki.
Além das competências técnicas, habilidades comportamentais ganham protagonismo. Relatórios do World Economic Forum destacam pensamento analítico, criatividade, resiliência e aprendizado contínuo entre as mais valorizadas. O paradoxo é evidente: quanto mais a tecnologia avança, mais cresce a importância de capacidades humanas difíceis de automatizar.
A presença de vagas em diferentes níveis hierárquicos mostra que a entrada no universo da IA pode ocorrer ao longo de toda a trajetória profissional. Cursos rápidos e certificações ajudam a dar os primeiros passos, mas especialistas alertam que não são suficientes isoladamente. A combinação entre formação contínua e prática aplicada é o que sustenta a evolução no médio e longo prazo.
No centro dessa transformação está uma mudança estrutural no mercado de trabalho. A inteligência artificial não substitui apenas tarefas, mas redefine competências, reorganiza carreiras e estabelece um novo critério de relevância profissional. Nesse contexto, a qualificação deixa de ser um diferencial competitivo e passa a ser condição básica para acompanhar o ritmo das mudanças.
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