ENTREVISTAS
"A Embasa é fundamentalmente uma empresa ambiental", diz presidente do órgão
Aos 55 anos, Embasa foca em soluções ambientais e anuncia novos investimentos na Bahia
Gildeone Almeida Santos ingressou na Embasa em 1998 e tem aproveitado a experiência acumulada em vários cargos de direção para, agora como presidente, conduzir a companhia a um novo momento. Ao completar 55 anos, a Embasa muda o posicionamento de mercado, deixando de ser uma organização focada em engenharia para se tornar uma empresa de soluções ambientais.
“Consideramos que a Embasa é fundamentalmente uma empresa ambiental. Não somente uma empresa de engenharia, como era vista no começo de sua história, ou uma empresa de serviços, mas uma organização que integra todas essas dimensões sob a perspectiva da sustentabilidade, da promoção da saúde pública e do desenvolvimento social e econômico”, afirma.
Essa transformação ocorre em um período de fortes investimentos, que somam R$ 6,7 bilhões nos últimos cinco anos. Ao todo, foram realizadas mais de 400 mil novas ligações de água e 263 mil de esgoto na Bahia. Nesta entrevista, além de abordar temas como inovação, impacto das obras e relacionamento com o cliente, Gildeone esclarece que a recente operação financeira aprovada pela Assembleia Legislativa não é um empréstimo ao governo, mas um recurso que será pago pela própria Embasa, a “maior empresa pública de saneamento do Brasil”. Confira:
A Embasa acaba de completar 55 anos, o que essa experiência de mais de cinco décadas agrega para a empresa e para os serviços de água e esgoto no estado?
A Embasa chega aos 55 anos como a maior empresa pública de saneamento do Brasil. Além do crescimento da Embasa, isso se explica porque, em diversos outros estados, os governos estaduais abdicaram de conduzir diretamente a expansão do saneamento básico, dando espaço a movimentos de privatização que já dão sinais de queda acentuada de qualidade dos serviços e de encarecimento de tarifas. Aqui na Bahia, é diferente. O Governo da Bahia entende a importância estratégica da Embasa como empresa pública e protagonista indiscutível desse setor fundamental para a promoção da saúde, da qualidade de vida e do desenvolvimento social e econômico da população. A Embasa acompanhou o processo de urbanização no estado, o rápido crescimento das cidades, ampliando o acesso à água tratada, que era a principal demanda. Hoje, cerca de 97% da população baiana em área urbana tem água de qualidade disponível na torneira graças a esse trabalho. Com esse aprendizado, temos a confiança do Governo da Bahia para promover um avanço inédito no saneamento básico no estado nos próximos anos, especialmente na vertente do esgotamento sanitário.
Quais os principais progressos alcançados pela empresa e que desafios ainda persistem?
O benefício das obras de abastecimento de água é mais facilmente percebido. Para quem precisava caminhar para buscar uma água salobra, sem garantia de qualidade, numa fonte ou num rio, a chegada da água tratada de qualidade na torneira transforma a vida. No caso do esgotamento sanitário, a percepção do benefício é um grande desafio. Porque são obras subterrâneas, que coletam a água suja usada nas casas para dar o devido tratamento e retorno seguro do efluente tratado ao meio-ambiente. É um benefício coletivo e fundamental, mas que parece invisível. Em geral, só lembram do sistema de esgotamento sanitário quando ocorre alguma falha, algum problema que é preciso consertar. Aqui na Bahia, temos um governo extremamente mobilizado para a expansão dos sistemas de esgotamento sanitário. O governador Jerônimo é um entusiasta disso. Hoje, a Embasa tem 12 grandes obras de implantação de sistema de esgotamento sanitário em andamento, em Barra do Choça, Irecê, Senhor do Bonfim, Ilhéus, Ruy Barbosa, Jequié, Iaçu, Vitória da Conquista, Riachão do Jacuípe, Serrinha, Conceição do Coité e Caravelas. Desde 2023, início do atual governo, já são R$ 1,25 bi investidos nisso.
Nos últimos 5 anos, a Embasa investiu R$ 6,7 bilhões em obras. O que essa verba viabilizou?
Esses investimentos viabilizaram, por exemplo, mais de 400 mil novas ligações de água e 263 mil de esgoto na Bahia nesse período. Considerando que cada ligação atende, no mínimo, uma família, podemos dimensionar a importância desse avanço. Mas os investimentos também promoveram melhorias para aqueles que já tinham acesso aos serviços: maior oferta de água, integração de sistemas, modernização operacional e transformação digital, entre outros. Entre as obras estruturantes do período, está o sistema integrado de abastecimento de água de Planaltino, Maracás, Lajedo do Tabocal, Itiruçu. Na área de esgotamento sanitário, a Embasa também entregou diversas obras, como o sistema de esgotamento sanitário em Arembepe e de outros municípios que foram beneficiaram com o serviço, como Jacobina, Senhor do Bonfim e Irecê.
A Assembleia Legislativa aprovou que o Governo da Bahia assegure uma operação de crédito de quase R$ 5,5 bilhões da Embasa com a Caixa Econômica. Quando esse recurso estará à disposição e como ele será aplicado?
É interessante esclarecer primeiro sobre a captação desses recursos, porque houve certa desinformação sobre isso. Não houve solicitação ou aquisição de empréstimo por parte do Governo da Bahia. A Embasa é quem está contratando o financiamento e responderá pelo pagamento das parcelas, com a União oferecendo a garantia. A contragarantia oferecida pelo Governo da Bahia é uma segurança extra para a operação de crédito, uma exigência formal para viabilizar a contratação por menores juros dentro do Novo PAC 2025. A captação desses R$ 5,5 bilhões integra uma estratégia robusta de investimentos que a Embasa para atingir as metas de universalização do abastecimento de água e esgotamento sanitário até 2033. Esses recursos serão usados para até 35 obras de implantação ou ampliação de sistemas de abastecimento de água e esgotamento sanitário em diversas áreas do estado. Dentre os empreendimentos previstos, estão a ampliação dos sistemas de abastecimento de Amargosa, Seabra, Miguel Calmon, Piritiba, Mundo Novo, Itaberaba, Irecê, Ruy Barbosa, Macajuba, Baixa Grande e localidades do Litoral Norte. Na área de esgotamento sanitário, estão previstas obras em Feira de Santana, Eunápolis, Lauro de Freitas, Ilhéus, Brumado e Pojuca, entre outros.
Leia Também:
Essa operação vem em um momento em que a Embasa passa por um reposicionamento, abraçando um foco maior na questão ambiental. O que determinou essa mudança?
A ênfase na atuação ambiental responde a uma nova mentalidade que, felizmente, emergiu no mundo quando as pessoas começaram a se dar conta de que os recursos naturais são finitos. Para garantir o uso sustentável da água para as gerações futuras, é preciso proteger sua renovação, ou seja, assegurar que a água possa ser protegida e cuidada ao longo de todo o ciclo: das chuvas aos mananciais, da captação da água bruta ao tratamento para garantir a saúde da população, da coleta da água usada nos imóveis ao tratamento do esgoto para retorno seguro ao meio ambiente, para evaporar e retornar novamente como chuva. Por sua importância nesse processo, consideramos que a Embasa é fundamentalmente uma empresa ambiental. Não somente uma empresa de engenharia, como era vista no começo de sua história, ou uma empresa de serviços, mas uma empresa que integra todas essas dimensões sob a perspectiva da sustentabilidade, da promoção da saúde pública e do desenvolvimento social e econômico.
Em um mundo cada vez mais preocupado com a sustentabilidade e a inovação, o que a Embasa tem feito para evitar o desperdício de água e o reaproveitamento do esgoto?
A Embasa tem investido em soluções inovadoras para garantir segurança hídrica com sustentabilidade ambiental. No combate às perdas de água tratada, atuamos em diversas frentes, como modernização de redes, controle de pressão, telemetria, setorização operacional, substituição de tubulações antigas e monitoramento inteligente para identificação rápida de vazamentos. Essas ações aumentam a eficiência dos sistemas e protegem os mananciais, especialmente no contexto de mudanças climáticas e eventos extremos, como os períodos prolongados de estiagem. Outro eixo estratégico é o reaproveitamento de esgoto tratado, transformando o que antes era um passivo ambiental em uma nova fonte hídrica para usos não potáveis. A Embasa vem realizando mapeamentos e estudos de potencialidades de reúso, que já indicam um potencial de reaproveitamento de 62% dos efluentes tratados. Um exemplo é o uso de água de reúso para irrigação de áreas verdes e atividades operacionais, modelo já adotado em empreendimentos turísticos da Bahia, como o caso do Iberostar Bahia, onde a água proveniente de esgoto tratado é utilizada para irrigação paisagística, reduzindo significativamente o consumo de água potável em atividades que não exigem padrão de potabilidade. Além do reúso de água, a Embasa também vem avançando em iniciativas de reaproveitamento de lodo gerado nas estações de tratamento de esgoto, com potencial de aproveitamento de até 85% desse material. Em Vitória da Conquista, a Embasa vem realizando estudos e iniciativas voltadas ao reaproveitamento sustentável desse resíduo. As ações incluem avaliação do uso agrícola condicionado à segurança ambiental e sanitária, alternativas para recuperação de solos degradados, além da análise de aplicações em processos produtivos e coprocessamento. A iniciativa reduz a destinação de resíduos para aterros sanitários, diminui impactos ambientais e reforça o conceito de que o saneamento pode gerar subprodutos com valor ambiental, energético e econômico.
Uma empresa como a Embasa, pelo tamanho e pela área de atuação, está sujeita a muitas críticas. Uma das mais replicadas se dá no relacionamento com os clientes. Como estão os investimentos nesse setor e o que os indicadores de qualidade da empresa estão demonstrando?
Não apenas pelo tamanho e área de atuação, mas pela própria natureza do serviço, sabemos que iremos receber muitas reclamações. Sabemos que as pessoas esquecem da Embasa quando tudo está funcionando bem, mas vão se lembrar quando ocorrer alguma falha, então a empresa precisa estar preparada para receber bem esse chamado da população e retornar, no menor prazo possível, a normalidade dos serviços. É uma prioridade nossa, e por isso temos investido muito na ampliação e modernização dos nossos canais de atendimento. Hoje, a Embasa está disponível no WhatsApp, disponibiliza formas facilitadas de pagamento de fatura como PIX e cartão de crédito, além de oferecer a modalidade videoatendimento para evitar deslocamentos do cliente. Em 2026, também colocamos em operação um novo Centro de Monitoramento de Tecnologia da Informação, que acompanha em tempo real a conectividade e os ambientes tecnológicos de todas as unidades da empresa. A iniciativa fortalece a segurança digital e amplia a capacidade de resposta a eventuais falhas, garantindo maior estabilidade para os sistemas que apoiam as operações de água e esgotamento sanitário e os canais de atendimento. Como novo modelo, o tempo de identificação de falhas de conectividade caiu de horas para poucos minutos. A centralização do monitoramento permite atuação mais rápida e coordenada das equipes de tecnologia, contribuindo para maior eficiência operacional e melhor prestação de serviços à população.