ENTREVISTAS
André Joazeiro assume Fundação DOM e defende inovação no setor produtivo
Fundação DOM busca conectar universidades e setor produtivo na Bahia


O ex-secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação da Bahia, André Joazeiro, assume a presidência do conselho da Fundação DOM, iniciativa voltada à articulação entre universidades, empresas, centros de pesquisa e investidores em torno de uma estratégia de desenvolvimento baseada em inovação, ciência e tecnologia.
Segundo ele, o objetivo da Fundação é transformar conhecimento em desenvolvimento econômico, competitividade e oportunidades para o interior da Bahia.
Na entrevista, André fala sobre inteligência artificial, inovação para micro e pequenas empresas, universidades públicas e a necessária mudança de cultura que viabilize a aproximação com o setor produtivo.
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A Fundação está agora sendo conduzida pelo setor empresarial, embora o conceito tenha sido estruturado anteriormente no ambiente público. O que muda nessa transição?
Na verdade, não muda o conceito. A Fundação já nasce com essa lógica de protagonismo do setor produtivo. O governo tem papel de articulação e fomento. As universidades entram com pesquisa e desenvolvimento tecnológico. Mas a inovação só ganha escala econômica quando o setor produtivo assume protagonismo.
A Fundação fala muito em “desenvolvimento orientado por missão”. O que isso significa na prática?
É organizar universidades, empresas e investidores em torno de desafios estratégicos da Bahia, como inteligência artificial, economia criativa, economia do mar, energia e inovação para pequenas empresas.
Você mencionou micro e pequenas empresas. Esse parece ser um foco importante da Fundação.
Sem dúvida. A micro e pequena empresa precisa entrar definitivamente na economia digital.
A Associação Comercial da Bahia exerce papel central nessa agenda, trazendo essa pauta para o centro do debate e ajudando a aproximar empresas, tecnologia e inovação, criando condições para incorporar inteligência artificial, automação e plataformas digitais.
E como isso pode acontecer concretamente?
Estamos estruturando uma parceria entre a Fundação, a Associação Comercial da Bahia, o Parque Tecnológico da Bahia e a LightHouse para apoiar a transformação tecnológica das empresas baianas, especialmente das micro e pequenas empresas.
A Fundação também pretende atuar na captação de recursos para pesquisa e inovação?
Sim. A Fundação vai apoiar a captação de recursos para pesquisa e inovação e também aproximar investimentos estratégicos das oportunidades existentes na Bahia.
Em vários momentos você menciona as universidades públicas. Qual é o papel delas nesse projeto?
Central. A universidade pública talvez seja hoje o maior ativo estratégico de desenvolvimento econômico que a Bahia possui.
Quando você olha para os principais países e regiões inovadoras do mundo, existe sempre uma forte conexão entre universidades, pesquisa e desenvolvimento econômico. Não existe Vale do Silício sem Stanford. Não existe ecossistema robusto sem universidades fortes.
Essa relação entre universidade e economia ainda é pequena na Bahia?
Ainda é muito menor do que poderia ser.
Durante muito tempo, criou-se no Brasil uma visão ideológica equivocada de que aproximar universidade e empresa significaria “privatizar” a universidade pública. O mundo inteiro já superou essa discussão há décadas.
Basta olhar para os países que lideram a inovação global hoje. A própria China estruturou seu crescimento recente exatamente a partir da integração entre universidades, pesquisa aplicada e setor produtivo industrial.
E o que fazer para mudar essa realidade e impulsionar o desenvolvimento do estado a partir das universidades?
O primeiro passo é mudar a cultura dentro das próprias universidades. E isso passa diretamente pelas lideranças universitárias e pela visão de universidade que os reitores defendem.
No caso da Universidade Federal da Bahia, por exemplo, temos uma eleição importante pela frente e considero preocupante que o grupo político liderado pelo Professor João Carlos, depois de tantos anos gerindo a universidade, ainda mantenha uma visão tão resistente a essa agenda.
O que está em jogo não é apenas a ocupação de espaços administrativos ou políticos dentro da universidade, isso é muito pequeno. O que está em jogo é o próprio desenvolvimento do estado da Bahia. Ou a universidade assume protagonismo em inovação, pesquisa aplicada e desenvolvimento econômico, ou continuaremos atrasados em relação a outras regiões do nosso país e, principalmente, em relação a outros países.
O senhor faz parte de alguma chapa ou da disputa política da Universidade Federal da Bahia?
Não. Não participo de nenhuma chapa nem tenho interesse em ocupar espaço na estrutura universitária. Minha preocupação é outra.
O que me move é a defesa de uma universidade pública mais conectada com inovação, pesquisa aplicada e desenvolvimento econômico.
E talvez o exemplo mais simbólico dessa desconexão seja justamente a situação do SIGAA. Estamos falando de um sistema que há anos enfrenta problemas e prejudica diretamente os estudantes, que muitas vezes não conseguem sequer realizar suas matrículas adequadamente, dentro de uma universidade que possui uma das áreas de computação mais qualificadas e competentes do país.
Isso revela um problema mais profundo: a dificuldade de transformar conhecimento e competência acadêmica em soluções aplicadas até para os desafios internos da própria universidade.


