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Michelle Schneider: "Ninguém sabe dizer como será o mundo do trabalho"

Futurista analisa o impacto da inteligência artificial no emprego

Divo Araújo
Por Divo Araújo
Michelle Schneider abriu o Congresso SUCESU-BA 2026
Michelle Schneider abriu o Congresso SUCESU-BA 2026 - Foto: Divulgação

A inteligência artificial já está transformando profissões, modelos de negócios e a forma como aprendemos. Mas, em meio às previsões sobre o futuro, uma certeza ainda parece distante: entender como será o mercado de trabalho nas próximas décadas.

“Não existe um consenso sobre qual será o futuro do trabalho”, afirma a futurista Michelle Schneider.

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Em Salvador, onde abriu o Congresso SUCESU-BA 2026, considerado um dos maiores eventos de Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) da Bahia, Michelle concedeu esta entrevista exclusiva ao A TARDE, na qual analisou o cenário de incerteza que acompanha o avanço acelerado da inteligência artificial.

Para ela, as mudanças em curso podem abrir novas oportunidades, mas também ampliar desafios sociais e econômicos.

Autora do livro O Profissional do Futuro e professora da Singularity, ela defende que os profissionais precisam desenvolver competências como aprendizado contínuo, inteligência emocional e letramento tecnológico.

“A pergunta que todo profissional deveria estar se fazendo hoje é: que tipo de IA existe para tornar o meu trabalho mais produtivo, mais criativo, mais estratégico?”, diz.

Saiba mais na entrevista a seguir

Você costuma perguntar, em suas palestras, se os empregos que temos hoje ainda existirão daqui a cinco anos. O que mais chama sua atenção ao observar as transformações em curso no mercado de trabalho?

A primeira coisa é esse enorme medo das pessoas. Vai perder emprego, não vai perder emprego, a IA vai tomar, não vai tomar. Hoje eu dou aula de futuro do trabalho na Singularity.

E, quando comecei a estudar o assunto, falei, bom, deixa me apropriar do que vai ser o futuro do trabalho. E eu brinco: quanto mais estudo, mais confusa fico. Porque não existe um consenso de qual será o futuro do trabalho. Mesmo quando você vê o que os líderes das grandes empresas de tecnologia falam, não tem um consenso.

Você tem um Elon Musk dizendo: ‘Ninguém vai ter mais trabalho daqui a 20 anos’. E você tem outros que falam: ‘Não, não é bem assim’. E tem os líderes que mudam de opinião. O próprio Eric Schmidt, que foi CEO do Google, já falou uma coisa, depois outra. Aí você pensa: deixa eu ver o que os estudos dizem e você lê Goldman Sachs, McKinsey & Company, Oxford, Fórum Econômico Mundial.

Li todos os estudos e não tem um consenso também. E tem uma coisa que falei na palestra que fiz aqui em Salvador: a maior parte dos estudos fala do impacto da IA no curto prazo. Por que ninguém fala muito do impacto da IA em 2040? Você não vai ver um estudo que mostre como será o mercado de trabalho em 2040, porque ninguém sabe dizer qual será o impacto da IA.

Outra coisa que tratei são os próximos passos da inteligência artificial. Está todo mundo empolgado com a IA agêntica, mas está vindo aí a inteligência artificial geral, a AGI na sigla em inglês. Mas a maioria das pessoas ainda não sabe o que é a AGI, que é o momento em que uma IA se torna capaz de fazer qualquer coisa que o ser humano faz.

Você acredita na possibilidade de uma inteligência artificial geral?

Eu acredito. Mas quem sou eu para dizer? Quando você vê o que os especialistas dizem, também tem contradição. Você tem Elon Musk, Sam Altman e até o Demis Hassabis dizendo que, até o final da década, teremos uma AGI.

Você tem Fei-Fei Li e Yann LeCun, que são os mais conservadores, afirmando que esse modelo que temos hoje não vai se tornar a AGI. Que isso só acontecerá lá para meados do século.

Mas a AGI é o grande objetivo das empresas. E, independente de quando vai acontecer, em 2030, 2035, ou 2040, a maior parte de nós estará aqui para viver esse momento.

Enfim, quando penso na primeira pergunta, o que me chama mais atenção é essa imprevisibilidade. É algo que a gente nunca viveu. Ninguém sabe dizer como vai ser o mundo do trabalho daqui a 10 anos.

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O Fórum Econômico Mundial projeta a perda de 92 milhões de empregos e a criação de 170 milhões de novos postos de trabalho até 2030. Na sua avaliação, o que o trabalhador de hoje precisa fazer para estar entre aqueles que ainda terão emprego no futuro?

Tem uma série de desafios quando a gente olha para esses números. O primeiro que ele é só vai até 2030. Então, de novo, é mais um estudo que fica no curto prazo. Mas ele é global.

Quando você vê quais são os empregos em ascensão dentro desse estudo, são os ligados a tecnologia e economia verde principalmente. Eventualmente vão ter países ou regiões onde esses empregos estão surgindo. E tem outros países onde os empregos deixarão de existir.

E não necessariamente a mesma pessoa que perdeu o emprego tem a habilidade ou está na geolocalização para trabalhar nesse emprego do futuro. Esse é o grande desafio que a gente tem pela frente. Número pelo número, esse superávit de empregos não quer dizer que é a solução.

Você acredita que, ao final das contas, a inteligência artificial vai produzir mais desigualdade no mundo?

Também, em termos de desigualdade, acho que ninguém sabe dizer. Mas se fosse dar um palpite, acho que infelizmente tende a aumentar a desigualdade.

O poder está se concentrando cada vez mais nas mãos de menos pessoas e a tendência é que isso continue. Mas, de novo, ninguém tem certeza. Não é porque a Michelle está falando que vai acontecer.

A gente está num momento em que as decisões que forem tomadas hoje podem levar o mundo para um futuro distópico ou para um futuro utópico. Quando você vê as previsões, tem a turma que fala que não vai ter emprego nenhum. Aí tem a turma que fala do futuro da abundância, onde a IA vai trazer tanta riqueza que a gente não vai mais precisar trabalhar.

O Elon Musk está falando da high income agora - não é nem mais a renda básica universal, ele está falando da renda alta universal. A meu ver, acho que o não é um nem outro. Acho que a gente deve estar no meio do caminho. E quando falo de futuro, não vai existir um único futuro. É assim que eu vejo.

Eu acho que vão existir vários futuros do trabalho. Vão ter pessoas que infelizmente, sim, vão perder o emprego e que não estarão com as habilidades dos empregos futuros. Ao mesmo tempo, a IA também vai ser uma enorme oportunidade para muita gente que vai poder empreender, criar negócios. Não acredito em um único futuro do trabalho.

O que o trabalhador precisa fazer para se adaptar a esse novo cenário? Quais habilidades e competências ele precisa desenvolver para continuar competitivo neste mercado de trabalho?

Isso é boa parte da base do meu livro e da palestra que fiz hoje aqui em Salvador. Essa é uma pergunta que foi o guia, a base para escrever meu livro. Como que a gente se prepara para um futuro do trabalho que ninguém sabe ao certo dizer qual vai ser? Que habilidades tenho que desenvolver?

A minha pesquisa partiu do estudo do Fórum Econômico Mundial que, sem dúvida, é dos maiores e mais respeitados. Eles trazem as habilidades mais importantes de 2025, porque não teve em 2026 ainda, para a gente se preparar para o futuro.

Essas habilidades são 10, que combinadas viram 18. E brinco na palestra: ‘Não sei vocês, mas se preciso aprender 18 coisas, eu cheguei na oitava e já esqueci a primeira’. Para facilitar como a gente se prepara, eu combinei essas habilidades em quatro pilares que, a meu ver, serão a base para a gente se tornar um profissional do futuro, seja o futuro qual for.

O primeiro pilar conecto do estudo, ‘curiosidade, aprendizado contínuo e criatividade’. Esse pilar chamo de mente inovadora. Afinal, quanto mais curiosa eu sou, mais coisa nova eu aprendo. Quanto mais aprendo, mais criativa fico, afinal tenho muito mais pontos para conectar.

O segundo pilar é ‘letramento tecnológico’ e aqui não tem segredo: é mergulhar de cabeça na inteligência artificial. A pergunta que todo profissional deveria estar se fazendo hoje é: que tipo de IA existe para tornar o meu trabalho mais produtivo, mais criativo, mais estratégico, seja você o jornalista, publicitário, médico ou advogado.

O terceiro pilar eu conecto do estudo ‘autoconhecimento, empatia, motivação e escuta ativa’. Trago num pilar que chamo de inteligência emocional. Eu adoro um dado do Daniel Goleman, o maior especialista em inteligência emocional do mundo. Ele fala que só 20% do sucesso da vida de uma pessoa vem do QI dela. Os outros 80% são uma composição que varia desde a classe social até o quesito sorte.

Mas o maior peso, como ele explica, está em como a gente lida com o problema quando as coisas não saem como planejadas. Sem dúvida isso tende a ter um peso cada vez maior, uma vez que a gente está indo para um momento em que a IA vai ter um QI maior do que o nosso muito em breve.

E o último pilar eu conecto do estudo ‘resiliência, flexibilidade e agilidade’. Trago num pilar que chamo de saúde mental. Por que resolvi trazer um pilar de saúde mental para o profissional do futuro? E conto uma história pessoal no livro.

Eu tive uma série de questões de saúde física. Passei por quatro cirurgias em dois anos, uma delas foi a coluna, fiquei 40 dias sem levantar da cama. Quando resolvi tudo, eu falei: ‘Puxa, agora vai’. Mas meu mental estava super abalado. E ali foi quando comecei a ter crise de ansiedade, crise de insônia, e uma coisa foi impactando a outra e aquele foi o momento onde tive o pior desempenho profissional de toda a minha carreira.

Ali ficou muito claro para mim: se a gente não estiver com a saúde mental em dia, a chance da gente ser um profissional do futuro é muito pequena. Só que quando fui estudar os números eu vi que isso não era um problema individual da Michelle. Fiquei assustada com a epidemia de saúde mental que a gente vive.

O Brasil, inclusive, registra índices bastante elevados de problemas de saúde mental. Como você avalia a situação do país nessa questão?

O Brasil hoje é o segundo país do mundo com o maior número de casos de Burnout. A gente é também o país mais ansioso do mundo, com mais de 20 milhões de pessoas que se consideram ansiosas.

Só no último ano a gente teve mais de meio milhão de brasileiros afastados pela Previdência Social por transtornos mentais.

O que pode estar por trás desse fenômeno?

É a composição de um mundo que está cada vez mais veloz, cada vez mais competitivo e um mundo onde a gente se cobra muito. Eu gosto muito de uma referência de um escritor coreano que escreveu ‘A Sociedade do Cansaço’, onde ele fala o quanto a gente virou escravo de nós mesmos.

A gente se cobra tanto, a pressão muitas vezes é mais nossa do que externa. A própria pressão pela IA, pelo medo de perder o emprego, gera ansiedade. O uso de redes sociais gera ansiedade quando você se compara com os outros.

O tempo de validade das nossas habilidades técnicas, que é algo que mostrei lá, está encurtando cada vez mais. Então, a gente tem que se reciclar o tempo todo. Você não pode dar aquela relaxada, porque vai ficando para trás. São muitas as questões...

Você tem defendido a figura do ‘generalista criativo’ como um dos perfis mais valorizados no futuro. O que caracteriza esse profissional e por que ele ganha relevância em um mercado transformado pela inteligência artificial?

Isso está dentro do primeiro ponto que chamo de ‘mente inovadora’. O que acontece? Eu tenho 42 anos, estou na minha geração ali um pouco para cima, e a gente foi ensinado a ser especialista. Por quê? Antigamente você não tinha como ser generalista com profundidade. Onde você adquiria conhecimento? Na faculdade. Você aprendia na faculdade e aplicava aquilo que você aprendeu no seu trabalho. Essa era a carreira típica do século passado.

Eu dou o exemplo do meu pai. Ele fez engenharia e foi engenheiro da Petrobras a maior parte da carreira dele. No começo deste século a gente entrou na era da internet. E começou a poder aprender mais coisas em outros lugares que não só na universidade.

Então você começa: ‘Poxa, posso aprender uma coisa no YouTube’. Isso começa a te dar mais repertório. E falo que agora a gente entrou numa terceira camada - a camada IA. Como assim, Michelle? Uma IA pode fazer muita coisa pra mim. Eu consigo ganhar profundidade em vários assuntos e não só mais em um.

Puxando um pouco mais para frente, posso criar um agente hoje para cuidar da parte de conteúdo, um agente para fazer roteiro, um agente para pensar nos vídeos, um agente para emitir minhas notas fiscais, um agente para estudar o futuro do trabalho.

Imagina que antigamente eu ia conseguir isso. E hoje a gente consegue, com IA e com curiosidade. Porque é a curiosidade que traz muito isso: ter profundidade em vários assuntos.

Aí você compara um profissional que consegue ter profundidade em vários assuntos, conecta vários pontos, age de maneira muito mais criativa, com um profissional que fez uma única coisa a vida toda, daquela mesma maneira que funcionou a vida toda. E, de repente, chega uma IA e fala: não é mais aquilo.

Quem que vai se adaptar melhor no mundo que exige que você se transforme e se adapte o tempo todo?

As escolas no Brasil estão preparando os nossos jovens para esse futuro?

Esse é um grande desafio eu diria que não só das escolas brasileiras, mas de todo o mundo. Tem um capítulo no meu livro em que falo do futuro da educação. Como que a educação chegou até onde estamos hoje? Ela tem três grandes características, seja no Brasil ou fora.

A educação, nos últimos pelo menos 100 anos, foi e ainda é padronizada. Mesmo conteúdo para todos os alunos da sala de aula. Ela é passiva: o professor era o dono do conteúdo.

O professor de História da sétima série passava o conteúdo e você ouvia. E ela era conteúdo-prova. Depois que o professor passou o conteúdo dele para os alunos - eu aprendi, não aprendi, decorei, não decorei - aplico na prova.

Começando a te trazer para frente, o conteúdo-prova hoje, se cabe numa prova, se tem certo ou errado, cabe num algoritmo. A IA vai ser melhor. O jovem já percebeu isso. Acho que esse é um dos pontos.

A gente está indo para um modelo de escola ativa, onde os alunos aprendem por projeto, aprendem mais trocando informações e menos com o professor falando o conteúdo dele. O conteúdo hoje está na internet. Então você vai para uma educação ativa. E, para mim, a grande e maior transformação vai vir do padronizado versus personalizado.

Hoje é a primeira vez que a gente tem realmente a chance de ter uma educação personalizada de qualidade para todos.

A inteligência artificial já permite que esse modelo saia do papel?

Imagina a gente na escola. Se a gente fosse da mesma série, se eu tivesse facilidade em matemática e educação física, você em português e em geografia. Não dava pra um professor acompanhar isso de uma maneira personalizada e hoje já pode acontecer isso.

Tem uma escola que eu tive a honra de visitar pessoalmente chamada Alpha School. Fica no Texas, eu estive lá em março. Começou no Texas, hoje eles têm várias cidades já dos Estados Unidos. E o modelo é justamente esse ensino personalizado por IA. Tudo o que hoje numa educação tradicional é passado por um professor - que são as matérias tradicionais, biologia, línguas, ciências, geografia - quem dá essa aula é uma IA.

Como assim, Michelle? Eles só têm aula duas horas por dia desse tipo de matéria. Cada criança abre seu iPad, seu computador, entra no sistema e entra a matemática. Tem que assistir esse vídeo, tem que fazer esse exercício. E a IA, por ser personalizada, vai entender se tenho facilidade em matemática, em português.

Cada aluno, quando ele entra, faz um teste e a IA vai te dizendo: em matemática, você está aqui; em português, está aqui. Independente da sua idade. E o fato dela entender isso, você trabalha a motivação do aluno. Quando a escola fica muito fácil ou muito difícil, ela te motiva.

Para isso, vai a um nível de desafiar cada jovem de forma personalizada. E eles começam a ir a um novo nível. Exemplo, meu sobrinho é bugrino (torcedor do Guarani), sou de Campinas, gosto de futebol. Ele começa a ter um storytelling para ensinar ele: imagina que você está no estádio do Brinco de Ouro, quantas pessoas cabem para ensinar matemática de uma maneira personalizada.

Qual é o papel da formação dos professores nesse processo de preparação dos jovens para o futuro?

Pois é, aí você pode falar: eu não quero colocar meu filho num lugar onde ele só aprende com uma IA, que são só duas horas por dia. Mas a criança fica lá o dia todo. O resto do dia, você tem os professores que não são mais chamados de professores, porque o papel dele é outro.

Essas crianças passam o dia todo fazendo workshops de habilidades humanas, que eles chamam de human skills. Esse jovem vai aprender desde marcenaria, saúde mental, concentração, aprender a falar em público.

Eu vi pessoalmente a apresentação desses jovens, que empreendem, montam empresas. A turma de 15 anos deu uma palestra e parecia que eles estavam dando um sim, TED Talk. Para uma audiência de 200 pessoas, eles deram um show, contando da empresa que montaram, quanto eles já fizeram.

E aí tem uma coisa que me chamou muita atenção: eles têm também educação financeira, educação emocional. Sabe como aprendem educação financeira? Fiquei chocada. Claro que a gente está falando de uma escola super elitizada, uma escola cara, é um grande desafio como você desdobra toda essa parte do human skills.

Porque você escalar a parte das duas horas, a realidade das duas horas de conteúdo intelectual, isso é relativamente fácil de escalar. Você está falando de software, de tecnologia. Escalar isso não é difícil. O desafio é o resto.

Na educação financeira, por exemplo, cada criança pode ganhar, por semana, de 20 a 100 dólares. Ou nada. Eles têm um ranking, têm que completar todas as tarefas. Têm que ir bem na prova.

E aí toda criança, a partir de uma certa idade, acho que é 10 anos, a escola abre uma conta no banco para elas e aí vai ganhando esse dinheirinho. Ela pode ir lá na Amazon comprar alguma coisa ou pode investir. Eles estão ensinando esses jovens a investir de maneira prática com o dinheiro próprio.

Esse futuro da educação está próximo?

Acho que tem muitos desafios, porque como você capacita esses professores para ensinarem isso? Quando eu vejo a parte de daquelas habilidades que a IA pode ensinar, mais cognitivas e menos humanas, acho que é super viável. Eu vejo isso acontecer muito rápido.

A gente está falando de tecnologia e escalar tecnologia é cada vez mais barato e simples. Vejo realmente como uma tendência enorme quando a gente fala desse pilar da personalização. Vejo isso como um dos grandes ganhos futuros da educação.

Quando a gente fala de desigualdade social, a gente nunca imaginou poder oferecer educação personalizada para todas as pessoas, inclusive quando a gente fala de base. O grande desafio é como você escala esse desenvolvimento das habilidades humanas, que, a meu ver, serão as habilidades mais relevantes no futuro.

Como você vê a posição do Brasil na corrida global pela inteligência artificial e quais são os principais desafios para o país?

Existe essa enorme corrida pela IA mundo e há dois países à frente dessa corrida: China e Estados Unidos. Quando a gente fala quem realmente pode vencer essa corrida da IA, são só hoje esses dois países. Você tem uma União Europeia ali, talvez meio em terceiro lugar, mas já muito atrás.

Quando a gente olha para o Brasil, acho que o país é muito mais um usuário do que um desenvolvedor de tecnologia própria. Hoje, a gente usa muito. Os brasileiros são muito adeptos. Mas a gente não tem a nossa própria ferramenta, não está desenvolvendo a nossa própria tecnologia, não está investindo da maneira que poderia em data centers.

Então vejo o Brasil, assim, infelizmente, ficando bastante para trás nisso. Em termos de oportunidades, quando a gente olha para o Brasil, o mundo vai precisar muito de energia, de data center, de terra. E esse é um grande pilar onde o Brasil tem tudo. Vamos ver como é que serão as decisões de como é que a gente vai usar isso ao nosso favor ou não.

Quando olho a capacitação, também acho que é algo que a gente vai ter que trabalhar bastante. Juntar governo, universidades, empresas… A China faz isso muito bem: juntar esses três poderes mesmo para capacitação da população. Essa é uma oportunidade de ouro, a qual não vejo a gente nem perto de fazer um trabalho bem sucedido.

Mas acho que seria um caminho super importante, dependendo aí de como vierem e quão rápido vierem os próximos passos da IA. Como que a gente vai capacitar e cuidar dessas pessoas.

Se tivesse que deixar apenas uma recomendação para um jovem que está entrando agora no mercado de trabalho e uma para um profissional experiente que teme ser substituído pela IA, qual seria?

A gente tem duas formas de encarar o que está acontecendo. Ou ficar com medo, e tem muita gente que está neste lugar de ficar com medo, porque a gente vê tanta notícia na mídia.

E o medo é uma característica que paralisa a gente. Quando a gente está com medo, normalmente até o nosso corpo vem para trás, porque a gente tem que se proteger. Esse é o pior lugar que a gente poderia estar hoje. Porque o futuro do trabalho, para onde ele está indo, vai exigir que a gente venha para frente com atitude, que a gente domine.

A outra coisa que falei na palestra é que o futuro do trabalho não está nas nossas mãos. Se vai ter AGI, quando vai ter AGI, o impacto disso no emprego está zero na minha mão ou na sua, ou de qualquer pessoa que eu conheça. Mas o seu futuro, como um profissional do futuro, como uma profissional do futuro, só está nas nossas mãos.

Essas duas características de sair do medo e ir para uma maneira ativa de como é que eu vou me jogar, mergulhar de cabeça nesse futuro que está vindo… Como é que eu vou aprender, como é que eu vou usar isso a meu favor. Porque, como eu falei, não acho que tem um futuro do trabalho ou outro. Vão ter os dois. Vai ter gente que vai ficar para trás e gente que vai se dar muito bem. Como é que a gente ajuda mais pessoas a se prepararem, se motivarem e agirem para esse futuro. Acho que é mais ou menos o que eu daria de recado.

Raio-X

Michelle Schneider é futurista, palestrante e autora do livro O Profissional do Futuro. Com 20 anos de experiência em empresas como TikTok, Google e LinkedIn, atuou na liderança de equipes de vendas e negócios antes de deixar o mundo corporativo para empreender, em 2023.

É uma das vozes mais influentes do Brasil no TEDx, onde sua palestra ultrapassou 3 milhões de visualizações. Professora convidada da Singularity University, é formada em Estudos do Futuro pela Hebrew University of Jerusalem e pelo Institute for the Future.

É sócia da consultoria norte-americana Signal & Cipher, especializada na aplicação de inteligência artificial aos negócios.

Michelle Schneider
Michelle Schneider - Foto: Divulgação
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