TOMOU O CONTROLE!
Clube social assume 99% das ações da SAF de gigante da Série A
Antiga controladora não exerceu direito de compra de novas ações e clube pode vender a mexicano


Um dos principais nomes no mundo das SAFs brasileiras, o Botafogo de Futebol e Regatas voltou a assumir praticamente todo o controle acionário de sua Sociedade Anônima do Futebol.
Em comunicado divulgado nesta terça-feira, 27, o clube social anunciou que passou a deter 99,18% das ações da empresa, enquanto a Eagle Bidco, antiga controladora, liderada pelo empresário John Textor, teve sua participação reduzida para apenas 0,82%.
A mudança ocorreu após um aumento de capital aprovado em setembro e a decisão da Eagle de não adquirir as novas ações às quais tinha direito. A operação representa uma mudança importante na estrutura societária do Botafogo e pode facilitar a negociação da SAF com o empresário mexicano Gabriel de Alba, ligado à GDA Luma.
Com a concentração das ações nas mãos do clube associativo, uma eventual transferência de controle poderá ocorrer por meio da venda direta da participação acionária. Apesar da alteração societária, o Botafogo informou que a administração da SAF continuará funcionando normalmente, sem mudanças imediatas na estrutura executiva ou no departamento de futebol.
Como o Botafogo voltou a controlar a SAF?
A mudança começou em 24 de setembro, quando foi realizada uma Assembleia Geral Extraordinária (AGE) para aprovar o aumento do capital social da SAF.
Na ocasião, foi autorizada a emissão de 200 milhões de novas ações ordinárias da Classe B, como parte de uma estratégia para reforçar os recursos financeiros da empresa e permitir o cumprimento de obrigações, especialmente o pagamento de salários.
O presidente do clube social, João Paulo Magalhães Lins, manifestou a intenção de exercer o direito de preferência sobre 51% das novas ações, percentual equivalente a 102 milhões de papéis.
No dia seguinte à assembleia, o Botafogo efetuou o pagamento de pouco mais de R$ 1 milhão para adquirir essa parcela. A Eagle Bidco, então detentora de 49% do capital social da SAF, também tinha o direito de acompanhar o aumento de capital e adquirir a quantidade proporcional de ações para preservar sua participação na empresa.

Entretanto, segundo o comunicado divulgado pelo Botafogo, a companhia informou por escrito, em 22 de outubro, que não exerceria esse direito. Com a manifestação da Eagle e o encerramento do prazo de 30 dias previsto para a subscrição, o clube social adquiriu, em 25 de outubro, a totalidade das ações restantes.
O resultado foi uma alteração expressiva na composição acionária, em que o Botafogo passou a concentrar 99,18% do capital, enquanto a Eagle ficou com apenas 0,82%.
Eagle perde participação após não comprar novas ações
A redução da participação da Eagle Bidco ocorreu por meio de um mecanismo conhecido como diluição societária. Quando uma empresa emite novas ações, os acionistas existentes podem exercer o direito de preferência para comprá-las e manter sua proporção no capital social.
Caso um acionista não participe do aumento de capital, sua participação percentual diminui, mesmo que continue proprietário da quantidade de ações que já possuía.
Foi o que aconteceu com a Eagle. A empresa, atualmente administrada pela Cork Gully, optou por não acompanhar a operação aprovada em setembro. Como o clube associativo adquiriu as novas ações, sua participação passou a representar praticamente a totalidade do capital social da SAF.

Botafogo afirma que cumpriu exigências legais
No comunicado, a SAF ressaltou que o aumento de capital seguiu os procedimentos previstos na legislação e nos documentos societários da empresa. A manifestação acontece em um contexto no qual os direitos políticos da Eagle Bidco estão suspensos por decisão judicial da 2ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro.
Segundo o Botafogo, essa suspensão não impediu que a acionista fosse formalmente comunicada sobre a operação e tivesse respeitado seu direito de preferência. O clube também informou que contratou a Meden Consultoria, empresa que presta serviços à SAF desde 2021, para elaborar um laudo de avaliação utilizado na definição do preço de emissão das ações.

A intenção, de acordo com a nota, foi estabelecer um valor considerado justo e dar respaldo financeiro à operação. A SAF destacou ainda que o edital de convocação da assembleia foi publicado e que o prazo de 30 dias para a participação da Eagle foi integralmente observado.
Esses argumentos foram apresentados pelo clube para sustentar a regularidade da mudança societária, ainda que a possibilidade de novos questionamentos judiciais não possa ser descartada.
Mudança pode facilitar venda da SAF a Gabriel de Alba
A retomada do controle acionário também tem consequências, claro, para o futuro da SAF. Com mais de 99% das ações concentradas no clube social, o Botafogo passa a ter uma posição mais favorável para negociar a transferência de sua participação a um novo investidor.
Entre os interessados está a GDA Luma, ligada ao empresário mexicano Gabriel de Alba. A operação societária pode simplificar uma eventual venda, já que o controle da SAF está praticamente concentrado em um único acionista.

SAF manterá diretoria e estrutura do futebol
Apesar da mudança no controle, o Botafogo afirmou que não haverá alterações imediatas no funcionamento da empresa. Segundo o comunicado, os departamentos administrativo, financeiro, jurídico e esportivo continuarão operando normalmente, com a manutenção dos atuais executivos.
A estrutura anunciada pelo clube permanece com Eduardo Iglesias como CEO e Léo Coelho na direção de futebol. Também seguem em seus cargos Deive Bandeira, responsável pela área de negociação de jogadores, Augusto Oliveira, diretor das categorias de base, e Felipe Moreira, diretor financeiro.
A equipe executiva ainda conta com Victor Oliveira, como CRO, Flavia Merheb, diretora de operações, Marcelo Furtado, diretor comercial, Pedro Felipe, diretor jurídico, e Julio Gracco, responsável por comunicação e branding.
A manutenção dos profissionais indica que, ao menos inicialmente, a alteração societária não provocará uma reformulação administrativa ou esportiva.

Recuperação judicial e pagamento de salários
O aumento de capital também está relacionado à situação financeira enfrentada pela SAF. Na nota oficial, o Botafogo explicou que a emissão das novas ações teve como finalidade reforçar o caixa e assegurar o cumprimento de obrigações financeiras, com destaque para o pagamento de salários.
A empresa também passa por um processo de recuperação judicial, mencionado no comunicado como uma das prioridades da gestão.
Ao anunciar a mudança no controle acionário, o clube associativo afirmou que pretende manter a estabilidade institucional e adotar medidas para garantir a continuidade das atividades.
O Botafogo declarou ainda que seu objetivo é promover o soerguimento financeiro da companhia e assegurar condições para o funcionamento da operação esportiva.