Isolar a Rússia da internet? Castigo que poderia ir longe demais

Kiev pediu que a Rússia seja desconectada da World Wide Web

Publicado sexta-feira, 18 de março de 2022 às 23:50 h | Atualizado em 18/03/2022, 23:37 | Autor: AFP

Países ocidentais confiscaram os iates dos oligarcas russos e expulsaram os bancos russos do sistema financeiro internacional em resposta à invasão da Ucrânia, mas sanções que limitam o acesso à internet dividem opiniões.

Kiev pediu que a Rússia seja desconectada da World Wide Web. Especialistas, políticos e defensores dos direitos humanos alertam, no entanto, que sanções tão abrangentes correm o risco de ser contraproducentes ao isolarem aqueles na Rússia que se opõem à guerra e corroerem ainda mais o sonho de uma internet universal.

"Parece contraproducente em termos de esforços para disseminar mensagens democráticas e conquistar corações e mentes", afirmou Peter Micek, diretor legal da Access Now, uma ONG que luta pelos direitos digitais.

Por si só, a censura de Moscou já reduziu drasticamente as fontes de notícias independentes. Numerosos veículos de comunicação locais e internacionais cessaram a sua atividade. O acesso às principais redes sociais é difícil, possível apenas com uma rede privada virtual (VPN).

Os gigantes da tecnologia, do Google à Sony, responderam aos apelos do governo ucraniano para punir a Rússia e suspenderam a comercialização de certos produtos ou serviços no país.

Porém, enquanto o acesso é cada vez mais restrito dentro e fora da Rússia, muitos especialistas pedem uma mudança de abordagem.

"As sanções devem ser seletivas e precisas", direcionadas ao exército e às agências de propaganda, escreveram cerca de 40 pesquisadores, defensores das liberdades digitais e autoridades eleitas em uma carta aberta publicada na semana passada.

"É preciso minimizar o risco de danos colaterais", porque "sanções desproporcionais ou amplas demais correm o risco de alienar as populações", argumentaram.

Os signatários também pediram a criação de um "mecanismo multilateral" que seria responsável por avaliar e implementar sanções, por exemplo, para bloquear o acesso a sites militares russos.

Outros alertam que construir um muro digital ao redor da Rússia seria técnica e politicamente complicado.

A Ucrânia pediu isso ao Icann em 28 de fevereiro, mas o regulador global responsável pela gestão de endereços na internet rejeitou o pedido, argumentando a necessidade de permanecer neutro.

"As infra-estruturas de rede estão muito interligadas. Se tentarmos evitar que o tráfego entre pela janela, ele entrará pelo porão", explicou Ronan David, diretor geral da startup Efficient IP, especialista em segurança de redes de computadores.

"Injustas"

Após a invasão da Ucrânia, a União Europeia proibiu a transmissão dos canais oficiais da mídia russa RT e Sputnik no audiovisual europeu, nas redes sociais e até nos resultados de pesquisa do Google.

A Rússia reagiu bloqueando a BBC, o Facebook e o Instagram, este último um aplicativo muito usado por influenciadores e empreendedores russos em seus negócios.

Natalia Krapiva, advogada do Access Now, enfatiza que, com base nas informações oficiais russas, "as pessoas podem acreditar que a Rússia está tentando ajudar os ucranianos e está mirando apenas em alvos militares". Nesse contexto, é provável que os cidadãos russos considerem tais sanções "completamente injustas", diz ela.

Internet "censurada"

Esse isolamento poderá ser reforçado com o tempo, à medida que forem estabelecidas alternativas, mais facilmente controladas pelo governo russo, ou mesmo por sua iniciativa.

"Os russos são bastante capazes de construir uma rede nacional", mas seria muito diferente da internet, estima Pierre Bonis, diretor geral da Afnic, a associação que administra a extensão ".fr". "Não devemos romper a universalidade da internet, mesmo que os russos façam coisas inaceitáveis", insiste.

A China já tem uma internet em grande parte separada, e outros países aspiram ao mesmo modelo. "O Irã passou a última década construindo uma Rede Nacional de Informação (NIN) como uma alternativa viável à internet global", diz Micek.

Segundo ele, as sanções favorecem "o desenvolvimento dessa internet nacional ainda mais censurada".

Ele lamenta que muitas empresas, "que não têm tempo ou capacidade para compreender as nuances legais" das sanções, vão longe demais e simplesmente se retiram do país.

"A Upwork, uma das plataformas em que confiamos para ajudar a sociedade civil e apoiar os atores democráticos na Rússia, imediatamente parou de fornecer seus serviços”, exemplificou.

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