CADERNO IMOBILIÁRIO
Design biofílico propõe uma decoração mais natural
Tendência consiste em valorizar cores, materiais e texturas que remetam à natureza viva, como forma de conectar a casa ao meio ambiente


O contato com a natureza é imprescindível para o bem-estar humano, a qualidade de vida, a saúde mental. E prova disso todo mundo viu com a pandemia da Covid-19 –, confinamento para uns, e quem podia querendo mudar de casa, ficar perto do verde, ou isolado, mas de frente para o mar.
Ainda hoje o coronavírus afeta o dia a dia das pessoas, e foi neste contexto que cresceu em importância na decoração o design biofílico. A tendência consiste em propor uma decoração mais natural, valorizando cores, materiais e texturas que remetam à natureza, como forma de conectar a casa ao meio ambiente.
“O princípio por trás da biofilia é bastante simples, conectar os seres humanos com a natureza”, explica a arquiteta Itana Gouveia. Tons de verde, neutros, crus e terrosos, muita planta, e madeira estão entre as principais influências, diz ela.
Criado em 196 pelo psicólogo e filósofo alemão Erich Fromm, o termo biofilia significa “amor à vida” e faz relação com a ligação emocional que os humanos possuem com outros seres vivos. É justamente esse aspecto que o design biofílico busca resgatar, a ‘conexão’.
Para pôr em prática a integração, Itana fala que os materiais utilizados no projeto fazem toda a diferença. “Trazer elementos naturais, como fibras, algodão e linho reforçam a relação com o que é natural, então você apura o tato. Por exemplo, é muito mais confortável usar uma almofada de algodão 100% do que usar uma de tecido sintético”, afirma.
Orçamento
De acordo com pesquisa desenvolvida pela plataforma digital de compra, venda e aluguel de imóveis, QuintoAndar, em parceria com o instituto Offerwise, mais de 73% das pessoas mudaram a forma como enxergam a casa em que vivem desde a crise sanitária, assim como 28,4% passaram a querer mais área verde ao redor.
Itana destaca que não é necessário um orçamento alto nesses casos. “Você não precisa fazer projetos extremamente caros ou elaborados demais. Com poucos recursos, mas a percepção de que os elementos da natureza são importantes para a qualidade de vida, é possível aplicar a biofilia”, conta.
Para obter mais verde em casa, ter plantas de espécies naturais é uma boa saída, diz Itana. “Mesmo que sejam pequenas, já produzem um efeito satisfatório”, afirma.
Também é importante criar um ambiente que receba iluminação natural.
“Uma dica simples é deixar as janelas e portas abertas, o que também ajuda na ventilação natural, e que costuma gerar bem-estar”.
Mesclar cores é uma forma de causar boas vibrações afetivas, fala a arquiteta.
“Grande parte dos fabricantes de tintas elaboram cores com base nos elementos naturais. Desenvolvem pesquisas em torno dos tons da natureza, criando contrastes, possibilitando que as pessoas tenham acesso ao azul do mar, o verde das plantas, o amarelo e as variações da luz do sol. Tudo é muito positivo”, diz Itana.
A designer de interiores Têka Athayde fala que para se ter um espaço mais sustentável é preciso lembrar da importância em priorizar a promoção do bem-estar, e não somente a estética. Como forma de valorizar a sustentabilidade, ela sugere uso de móveis atemporais, reaproveitamento de mobiliário e “flexibilidade”.
Têka recomenda também materiais reciclados, como revestimentos, além de técnicas que valorizem a preservação do meio ambiente. E dá dicas para quem quer aplicar o design biofílico em casa ou no trabalho, mas não sabe como começar.
“Em primeiro lugar, é importante tratar da reorganização do ambiente, melhorando os fluxos de uso, depois olhar para conforto acústico, luminoso, racionalizando a iluminação e ventilação naturais. Usar cores menos saturadas, que trazem mais tranquilidade, e não medir esforços para usar materiais orgânicos nos objetos decorativos e nos revestimentos do mobiliário, abusando da madeira, de pedras e tecidos naturais. E, com certeza, buscar uma decoração flexível, com possibilidades diversas de uso”, fala a designer.
Ela também explica qual a importância dos tons terrosos, que são as cores associadas à terra. “Se estamos tentando trazer a natureza para dentro do ambiente, nada como usar tons que remetam ao que é natural, como de areia, marrom, ocre, caramelo, terracota, cobre. Esses tons nos remetem à uma vida mais ancestral, de pertencimento a este planeta, numa leitura de que estamos todos conectados, homem e natureza. E isto promove acolhimento, conforto, aconchego e bem-estar”.
Água
Profissional especializada em biofilia e neuroarquitetura, Jade Mendonça afirma que os benefícios do design biofílico são muitos, como a redução dos níveis de estresse e tensão, estímulo da criatividade, melhora na qualidade do sono, entre outros.
Ela ressalta que é uma necessidade inata do ser humano estar próximo à natureza. “Nós somos a natureza também, como a gente fala no design biofílico. Na realidade, a gente já faz essa aproximação de forma inconsciente, e a biofilia vem para trazer isso. É algo pensado para que o contato com a natureza ocorra em maior grau na nossa vida”.
Uma outra alternativa biofílica é ter o som de água corrente em casa, conta.
“A gente traz a percepção do design biofílico pensando muito no que acontecia com os nossos ancestrais, e eles buscavam locais próximos a cachoeiras, onde tinha essa água corrente, porque a água corrente é mais potável. Então esse barulhinho de água correndo nos acalma. Está gravado na nossa memória biológica. Aí você pode pensar também um exemplo para cada um dos seus dos seus cinco sentidos. Sempre buscando aumentar o contato com a natureza”, destaca Jade.
*Sob supervisão do jornalista Fábio Bittencourt