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A azulejaria da Bahia, na visão de Estácio Fernandes

Pedro Fernandes
Por Pedro Fernandes
| Atualizada em
Estácio Fernandes, restaurador e museólogo
Estácio Fernandes, restaurador e museólogo - Foto: Mila Cordeiro | Ag. A TARDE

Estácio Fernandes não ficou impune ao fato de ter nascido e crescido em Salvador, esta cidade que, por ter sido capital da Colônia, abriga o mais importante acervo de azulejaria portuguesa fora de Portugal. Fosse no Colégio São Salvador, onde hoje é a sede do Iphan, ou no Convento de São Francisco, onde foi coroinha, para onde ele olhasse, estava cercado dessas peças que contam parte da nossa história. "Minha vida inteira estive cercado por esses conjuntos de azulejos". Assim, ainda jovem, foi convidado a ser auxiliar de restauro, o que o estimulou a cursar museologia na Universidade Federal da Bahia e, mais tarde, a estudar azulejaria em Portugal. Desde 1982, realiza trabalhos de restauro e pesquisa nessa área, além de prestar consultoria em vários estados do Brasil. Hoje está em posição de ser mestre no país que um dia lhe ensinou. Em abril deste ano, proferiu conferências sobre restauro na Universidade Lusíada de Lisboa. Na entrevista a seguir, Estácio fala sobre as origens da técnica e sobre o estado de conservação do nosso acervo.


Quando a técnica de azulejaria portugueza foi inventada?
Ela chega à Península Ibérica com os árabes. No início do século 16, Portugal começa a importar azulejos da Espanha. Em meados desse século, o gosto se dissemina e Portugal começa a produzir. Só que, aí, há uma técnica italiana, chamada azulejos pisanos, que entra na Espanha e vai para Portugal, que é a dos azulejos lisos, a que vemos aqui. Antes usava-se uma técnica árabe, na qual era preciso fazer sulcos no barro para impedir a mistura das cores. Nessa nova técnica, usava-se o estanho, que fazia com que as tintas não se misturassem. Foi isso que propiciou a produção de azulejos com cenas extensas. Normalmente eram motivos florais, geométricos, inspirados em estampas da tapeçaria oriental. A azulejaria figurativa, ou historiada, só foi possível com o surgimento dessa técnica.

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Como essas cenas eram construídas?
O artista fazia o esboço em tamanho menor, segundo a encomenda do cliente. O mestre azulejador fazia as medições e encomendava a Portugal. Lá era contratado o artista, que, diante do tema sugerido, fazia o desenho e o transportava para uma escala maior. Fazia-se isso na chacota do azulejo, que é a base sem o vidrado, depois era aplicada a pintura a pincel. Esse trabalho era dividido. Era feito a várias mãos. O mestre se concentrava na parte principal e os discípulos trabalhavam nas molduras. Para você ter uma oficina de azulejaria, naquela época, era necessária uma carta régia. Você tinha que ter sido discípulo de um outro mestre e, depois de certo tempo, esse mestre lhe dava como habilitado, só então a coroa dava a autorização para que você abrisse uma oficina e recebesse seus discípulos.

Que lugar o acervo baiano ocupa hoje nacional e internacionalmente?
A Bahia é o maior núcleo brasileiro e um dos mais importantes núcleos da azulejaria portuguesa no mundo. Fora de Portugal, é o mais importante. Agora, claro, você tem outros polos com uma azulejaria significativa, como Pernambuco. A Paraíba tem pouca coisa, mas de grande importância. Por grau de qualidade e quantidade, eu diria que os maiores são Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro. Quando você passa para a azulejaria de fachada, que é uma coisa mais do século 19, você vai ter São Luís e Belém do Pará. Se bem que a Bahia também possuía um conjunto de fachadas significativo, que competia com o do Maranhão, mas, diante das transformações urbanas, isso se perdeu muito.


A que se deve a construção desse grande acervo baiano?
Quando citei a Bahia, Pernambuco e Rio, você percebe que são cidades na zona litorânea. E quando vai para a fachada, você tem São Luís e Belém, que não é banhada pelo mar, mas tem o rio. O azulejo era muito pesado. Levar isso do litoral para dentro da colônia em lombo de burro era complicado. Além disso, essas cidades litorâneas tinham importância política, como era o caso de Salvador, que foi a capital da Colônia e recebia esses cuidados especiais. Toda azulejaria vinha direto de Portugal. No século 19, depois da independência do Brasil, há um natural arrefecimento do comércio do Império Brasileiro com a Coroa Portuguesa, e o Brasil recebe azulejos da França, da Holanda, da Bélgica e de outros centros. O País só começa a produzir no século 20.

Quando a azulejaria esteve em evidência e quando começou a decair?
Alguns autores datam o início da azulejaria portuguesa no Brasil a partir de 1620. A figurativa começa a partir do segundo quartel do século 18, por volta de 1725. A azulejaria em Portugal é a única do ocidente que registra todas as passagens de movimentos estilísticos. A técnica reproduz o estilo do renascimento na época dessa tendência artística. Quando vai para o barroco, o azulejo acompanha. O mesmo acontece com o rococó, o neoclássico... A Bahia talvez seja o melhor exemplar dessa sequência histórica da azulejaria portuguesa em termos tipológicos. Nós temos toda a evolução. Aqui mesmo, dentro desse convento (de São Francisco), temos tapetes do 17, textos figurativos do 18. Temos uma gramática artística extremamente rica. Por isso, eu não digo que ela chegou a decair, ela foi apenas mudando a sua forma de utilização. Esses painéis da igreja, que retratam cenas da vida de São Francisco, tinham uma função de catequização. Você olha o claustro e a temática é diferente, porque os fiéis não tinham acesso. Era permitido apenas à comunidade eclesiástica. Então os temas são mais eruditos, tirados de poemas de Horácio Flaco, poeta romano, sobre moderação dos prazeres e desejos. A ideia era fazer os frades refletirem sobre a sua verdadeira vocação. Não é só um elemento artístico, o azulejo está ligado a essas circunstâncias históricas, políticas, econômicas e sociais. As mudanças de gosto, os modismos, acompanham. Por exemplo, quando se restaura a Coroa Portuguesa, que havia sido antes anexada pela espanhola, o comércio entre os dois países diminui. O estoque de pigmentos acaba e passa-se a usar primordialmente o estanho, com o qual se fazia o branco, e o cobalto, com o qual se fazia o azul. Influenciados pela porcelana chinesa, da dinastia Ming, predomina o azul sobre o fundo branco. O que faz as pessoas acharem que o nome azulejo tem relação com a cor azul. Na verdade, é originado de uma palavra árabe que quer dizer pequena pedra polida.


A conservação do nosso conjunto azulejar é muito diferente daquela que se encontra em Portugal?
Temos problemas muito semelhantes. A Bahia, principalmente, tem se preocupado cada vez mais quanto à preservação e a conservação desses conjuntos azulejares, inclusive na evolução de técnicas e na pesquisa com maior rigor científico. Não existe mais dizer: "Ah, o vidrado está caindo, vamos fazer uma massinha e fazer uma pintura por cima". Isso é mascarar o problema, sem solucionar questões mais sérias. A própria riqueza do conjunto forçou os profissionais baianos da área do restauro a ficarem alertas. Temos que levar também em consideração que, apesar de sermos a sexta economia do mundo, em termos de qualidade de vida não somos lá grandes coisas. Se somos responsáveis pela restauração do acervo, temos a preocupação de criar processos que deem a maior longevidade possível a esses conjuntos restaurados, para que não se precise voltar daqui a cinco, dez, vinte anos para refazer tudo.


Além do tempo, que outros fatores causam a degradação?
Aqui, no claustro do convento, por exemplo, depredaram as "faces da morte". No fim do século 19, este convento ficou abandonado, virou um cortiço. Foi provavelmente nesse período. A ação humana é significativa, inclusive por causa de um hábito muito baiano e nefasto, o da mijadinha nas paredes. Aquilo é nitrato, um sal muito nocivo, que migra por capilaridade ascendente pelo fundo das paredes e cria um processo de salinização nas peças.


No interior, onde a noção de patrimônio histórico chega mais tardiamente, a conservação é pior?
Existe esse fator que você cita, mas também aspectos físicos e de manutenção. Por décadas, em Cachoeira, as pessoas lavavam a superfície dos azulejos com jatos de água. Você tem ali uma argamassa de areia e cal do século 18, que contém muitos sais. Essas lavagens excessivas potencializavam o processo de salinização. Por isso, a educação patrimonial é importante. Mas vou lhe dizer, até em Portugal, você percebe que há falta de conscientização em determinados aspectos artísticos.


A noção de patrimônio histórico ainda é muito frágil em nossa cidade?
Sim. De certa forma, é frágil. Não se procura trabalhar isso de maneira mais intensa. Não entro em comentários sobre por que isso não é feito. Conveniências políticas, ou não. Mas que é necessário se fazer um trabalho mais intenso de conscientização, isso é. Principalmente, a partir da infância, dos ensinos infantil e fundamental. É muito difícil consertar ideias bem consolidadas.


O que, em sua opinião, mais entrava a recuperação desse patrimônio?
A questão financeira e a não priorização dos conjuntos mais importantes. É preciso se fazer uma escala de quais são aqueles que necessitam de tratamento emergencial. Fazemos parte de um país continental, então nossos problemas também se dão em uma escala monumental. Não custa reafirmar que, em relação ao que diz respeito à conscientização e à qualidade do desenvolvimento técnico dos trabalhos, nós temos evoluído consideravelmente. O empirismo tem sido deixado de lado. Hoje, estamos em outra etapa dos estudos e das pesquisas.

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