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A linha e o linho

Ronaldo Jacobina
Por Ronaldo Jacobina
| Atualizada em
Doralina da Silva Cruz, 94, trabalha como rendeira há mais de 80 anos
Doralina da Silva Cruz, 94, trabalha como rendeira há mais de 80 anos - Foto: Lúcio Távora | Ag. A TARDE

Com talento e humor, as rendeiras de Saubara ganham pela segunda vez o Top 100 do Sebrae, considerado o Oscar do artesanato brasileiro

Faça chuva, faça sol, dona Dora senta na varanda de casa para tramar. Apoia a almofada arredondada num banquinho de plástico e, com maestria, maneja os pauzinhos direcionando as linhas que darão relevo ao desenho de papel sob a trama de fios que vai se formando a partir dali. Uma espécie de decalque dá forma a um bordado no linho. Vez por outra, solta a voz cansada em alto e bom som. “Gosto de cantar enquanto costuro, me distrai”.

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O ritual se repete quase que diariamente há mais de 80 anos. “Só não faço quando estou doente”, diz. Como, ao longo de suas 94 primaveras, pouco adoeceu, a renda de bilro foi e continua sendo a sua lida diária. Nem mesmo quando pariu cada um dos sete filhos homens, aquietou-se. “Ainda no resguardo, não deixava de fazer renda. Botava o nenê na rede, ao lado da almofada de bilro, e cantava e tramava”.

Dona Dora nasceu Doralina da Silva Cruz lá em Saubara, município do Recôncavo baiano com pouco mais de 12 mil habitantes. O nome de batismo, só lembra na hora de sacar o dinheiro da aposentadoria. “Porque está escrito no cartão, senão nem lembrava, porque aqui todo mundo me conhece como Dora”.

Viúva há muitos anos, ela é a mais longeva de um grupo de mulheres rendeiras que está fazendo história no Brasil. Este ano, conquistaram, pela segunda vez, o Top 100, prêmio criado pelo Sebrae para destacar as cem unidades produtivas mais competitivas do mercado. A premiação, que aconteceu no Rio de Janeiro, no mês passado, é considerada o Oscar do artesanato brasileiro. Os agraciados recebem um selo de qualidade para os seus produtos, o que os torna ainda mais competitivos, além de difundir o ofício.

Mas o prêmio maior para elas é o reconhecimento de uma tradição que lutam para não deixar morrer. “Recebemos este prêmio pela primeira vez em 2004. É bom pra gente porque engrandece a figura da mulher rendeira e ajuda a preservar a nossa cultura”, comemora Maria do Carmo Amorim, 69, coordenadora da Associação dos Artesãos de Saubara.

Desde que a entidade foi criada, há 17 anos, a comunidade de mulheres que se dedicam a costura da renda cresceu. Hoje, mais de 50 artesãs dividem a jornada diária entre esta atividade com a do trançado da palha. Apesar do amor pelo artesanato, ainda não é ele que garante o sustento de suas famílias. Diariamente, todas elas enfrentam o sol e a chuva na labuta da cata de mariscos. “Aqui todo mundo é marisqueiro. A vantagem do marisco é o retorno financeiro mais rápido. Catou, limpou, vendeu”, diz Íris Barbosa de Jesus, 49. Para elas, o artesanato é paixão. A pesca, necessidade. “O ganho com a renda de bilro é menor e mais demorado”, completa.

Imagem ilustrativa da imagem A linha e o linho

Denise Maria da Silva, 58, começou a trabalhar com apenas 4 bilros e hoje utiliza até 100 de uma única vez

Dona Dora hoje se ressente de não poder mais acompanhar as amigas na segunda jornada, que acontece ao sabor da maré. “Quando ela é baixa, saímos para mariscar; quando sobe, é hora de tramar”, diz Maria do Carmo. Fazer renda, em Saubara, é mais que um ofício. É um prazer que elas descobriram ainda meninas com as mães que aprenderam, por sua vez, com suas avós, que aprenderam com suas bisavós.... “Nasci com a cabeça na almofada”, diverte-se Denise Maria Mendes da Silva, 58.

Filha de mãe rendeira, desde que era um bebê, os olhinhos arregalados já acompanhavam o vaivém dos bilros. Aos 7 anos, já estava trocando os pauzinhos.

Denise se recorda de que, quando começou a seguir os passos da mãe, trabalhava com apenas quatro bilros. Hoje, chega a tramar com até 100 de uma única vez. A agilidade com que domina os bilros e os alfinetes – que são pregados no pano estendido sobre a almofada – faz lembrar os malabares. A renda para ela e é uma espécie de terapia. “Quando a gente senta diante da almofada com esse tanto de linhas e vai acompanhando o crescimento da trama, esquecemos dos problemas. A renda exige muita concentração”. A concentração, conta ela, é para não errar o ponto. Quando acontece, não tem conserto. É desmanchar e começar do zero. “É como na vida, um passo em falso e o resultado pode ser fatal”, dramatiza.

Samba e Matriarcado

Embora a produção seja contínua, a demanda não acompanha o ritmo das artesãs. “Fazemos metros e metros e, às vezes, fica um tempão esperando aparecer alguém para comprar”, diz a coordenadora da associação. Excepcionalmente, caem nas graças de alguém. Foi o caso da parceria que firmaram com Márcia Ganem, para quem fornecem rendas. Para a estilista, esta relação com as rendeiras de Saubara – que já dura 12 anos – é mais que comercial. “Elas representam a força da resistência, do talento, do amor com que fazem sua arte. Enfim, elas são icônicas daquela região. Vale lembrar que no entorno daquela comunidade de rendeiras gira o samba, a cultura e a força do matriarcado”, diz Ganem.

O custo da produção é alto. Além das horas dedicadas ao trabalho, a linha que usam para tramar é de primeira. E é aí que entra a atuação da entidade que as representa. Além de estimular a prática e desenvolver parcerias com organismos como o Sebrae – que presta consultoria nas áreas de gestão, qualificação e design –, a associação de artesãos se encarrega também de buscar mercado para os produtos. “Fornecemos a linha para as associadas e quando vendemos o produto tiramos os custos. Então, destinamos uma parte para um fundo de manutenção da entidade e o restante vai para o artesão”, explica Maria do Carmo.

No mês passado, por exemplo, as meninas conseguiram colocar algumas peças no mercado de Salvador. O caminho foi aberto pela consultora de moda e estilo Cristina Franco, que nos últimos anos tornou-se uma espécie de embaixadora do artesanato produzido no Brasil e que abraçou a comunidade por admiração a sua arte e a sua resistência. “Quando conheci o trabalho das rendeiras de Saubara fiquei encantada com a qualidade das peças. Conheço trabalho de muitas rendeiras no Brasil e no mundo, mas considero o delas de uma perfeição absurda”, diz.

A partir daquele dia, a consultora virou uma referência importante para elas e vice-versa. Com sua expertise, Franco segue admirando, orientando, difundindo e incentivando a comunidade. “A verdade é que quando chega alguém como Cristina, que elogia e incentiva o nosso trabalho, ficamos ainda mais fortalecidas e seguras de que não podemos abandonar essa tradição”, diz Maria do Carmo. A amizade, por sinal, tem rendido bons frutos.

Foi também por meio da parceria com a consultora de estilo que a associação chegou até a empresária Valeska Chálabi, que, junto com o marido, o chef Celso Veira, comanda o restaurante Pasta em Casa, no Rio Vermelho. O resultado foi uma belíssima exposição que está em cartaz no Espaço Muro do restaurante. Valeska, que é mineira e trabalhou com o estilista Ronaldo Fraga, ficou encantada com as histórias de Cristina Franco sobre as rendeiras e quis conhecê-las. “Quando finalmente conheci o trabalho delas, achei que aquilo era um alento para a alma”, diz.

De pronto, as duas decidiram criar a mostra para apresentar as rendas ao público de Salvador. Com Cristina Franco na curadoria, Nino Nogueira na ambientação e a própria Valeska na produção executiva, nasceu o evento. Além das peças em exposição, a renda de Saubara também ganhou destaque no mix de produtos do empório Pasta em Casa, que funciona no térreo do restaurante. “As peças estão à venda. Essa é uma maneira de valorizar essa produção e de torná-la acessível ao público”.

Imagem ilustrativa da imagem A linha e o linho

Maria do Carmo Amorim, 69, vive de olho na maré. “Quando ela é baixa, saímos para mariscar; quando sobe, é hora de tramar”

Para Cristina Franco, o mais importante é que a exposição tenha conseguido traduzir a real importância do artesanato produzido em Saubara. “Foi um evento lindo, com noite de vernissage. Tudo ali foi tratado como arte, que é o caso das rendas”, diz. Ações como essa são ainda mais importantes para a associação depois que os eventos de que costumavam participar, como as feiras promovidas pela Instituto Mauá, deixaram de acontecer. “Era nessas feiras que a gente colocava os nossos produtos. E mesmo assim, muitas vezes, as vendas nem era lá essas coisas. Ao menos, servia para mostrarmos a nossa arte a um número maior de pessoas”, diz Maria do Carmo.

Segundo ela, mesmo quando tinham prejuízo – e não foram poucas as vezes que isso aconteceu –, valia a pena. “Hoje ficamos à espera de que algo aconteça para que a gente possa levar nosso produto até o consumidor”. Para as artesãs, mais importante que o parco dinheiro que entra, é manter viva a cultura que herdaram dos antepassados e mostrá-la ao mundo antes que acabe. “Nossa preocupação é que estamos chegando pra idade e as novas gerações não querem dar prosseguimento a essa tradição”, reclama Denise.

Na casa dela, todo mundo domina o ofício do bilro, mas poucas são as que querem realmente praticar de modo profissional. Em meio à risadaria que costuma acontecer quando se juntam na sede da associação para costurar, elas vão contando causos que envolvem toda a comunidade. Como o do rapaz de Santo Amaro da Purificação que, um dia, apresentou-se como aluno na entidade. Como a atividade é tradicionalmente executada por mulheres, a coordenadora resolveu, após consultar as sócias, aceitar o aprendiz. “Ele aprendia rápido, mas o preconceito foi mais forte e ele não resistiu à pressão. Um dia, abandonou as aulas e nunca mais apareceu”, conta Maria do Carmo.

Além-mar

A origem da renda de bilros é controversa. Países da Europa, como Bélgica e Itália, disputam sua paternidade. A Holanda também. Fato é que, pelas bandas de cá, a técnica – que consiste no cruzamento sucessivo de fios feitos sobre uma almofada firme com a ajuda dos bilros e dos alfinetes que vão marcando os pontos no desenho de papel que serve de guia para a construção da peça – chegou por aqui com os holandeses. Mas, na realidade, foram os portugueses que ajudaram a difundi-la.

Se foi da Europa ou de qualquer outro continente que veio, isso não está na pauta das rendeiras. Para elas, o aprendizado das tramas é uma herança familiar, uma tradição regional que continuam querendo passar para as novas gerações, para que não se perca como aconteceu com outros ofícios. No Brasil, a renda de bilros ainda é produzida em diversas regiões, mas as meninas de Saubara afirmam que a delas é inigualável. Seja pela escolha da linha – do tipo mercê crochê 100% algodão –, seja pela diversidade de pontos com que trabalham. São mais de 100 pontos que resultam nas mais diferentes tramas.

Aliás, em Saubara, diversidade é o que não falta. “Chegamos a criar mais de cem tramas diferentes”, diz Lenira Santiago da Silva, 54, que se considera ainda uma aprendiz nessa arte. “Eu comecei tarde, aos 22 anos. Não nasci numa família de rendeiras como a maioria aqui, mas venho evoluindo aos poucos”, ri. A verdade é que Lenira chegou à associação já treinada. Aprendeu com a sogra, que é uma exímia artesã. Como teve que criar os 12 irmãos, não sobrava tempo para se dedicar à renda.

Apesar disso, ela diz que sempre sonhou que a sua hora chegaria. “Hoje me sinto feliz de ver que a associação consegue se manter com a força do nosso trabalho e com nosso compromisso em manter uma tradição da nossa comunidade”. Enquanto dias melhores não chegam, elas continuam resistindo às dificuldades de manter viva a tradição. Dia após dia, ponto por ponto, vão costurando sua história e rendendo sua arte.

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