Busca interna do iBahia
HOME > MUITO

CRÔNICA

A noite em que um desconhecido me ofereceu uma profecia gratuita no bar

Leia a crônica da Muito deste domingo, 22

Evanilton Gonçalves*
Por Evanilton Gonçalves*
História da luta para dizer “não” e o estranho que me disse “sim” no meio de um bar
História da luta para dizer “não” e o estranho que me disse “sim” no meio de um bar - Foto: Túlio Carapiá | Editoria de Arte A TARDE

Era uma sexta-feira à noite comum. No entanto, um homem que nunca vi antes se agachou ao lado da mesa do bar em que eu estava e me encarou. Sobre a mesa que eu ocupava, uma cerveja, três copos, uma cumbuca da Zira, outros petiscos e o panfleto da peça teatral Ana e Tadeu. Eu conversava justamente com a escritora Amanda Julieta e a jornalista Lidiane Borges sobre o espetáculo que tínhamos acabado de assistir.

Reverberava em nós os incômodos e encantamentos da história de um casal que está se separando e precisa lidar com um tiroteio em seu entorno. O texto de Mônica Santana nos fez rir, também fez com que nos indignássemos e pensássemos nos absurdos cotidianos dos bairros periféricos, nas subjetividades negras, nas masculinidades contemporâneas e em tantas outras coisas que compõem a existência humana em uma certa geografia.

Tudo sobre Muito em primeira mão! Compartilhar no Whatsapp Entre no canal do WhatsApp.

Outras pessoas ocupavam as mesas com risos soltos e conversas descontraídas. Eu o encarei de volta. Então tudo ao redor desapareceu. Seus olhos carregavam um mistério indecifrável. Um tanto surpreso pela aparição repentina e pela situação em si, esperei que o sujeito dissesse o que desejava. Eu não estava com medo. Fazia tempo que eu não sabia o que era temer pela minha própria vida. A consciência de que hoje estou aqui é minha nitidez possível. Assim recupero os fragmentos que me constituem a cada momento.

Leia Também:

CRÔNICA

Será só aqui na Bahia essa vocação para o barulho?
Será só aqui na Bahia essa vocação para o barulho? imagem

CRÔNICA

Roubaram meu jornal. Estão roubando uma nação. E a gente segue fingindo que não vê
Roubaram meu jornal. Estão roubando uma nação. E a gente segue fingindo que não vê imagem

CRÔNICA

Por que nunca mais uso preto na sexta-feira (e como isso mudou meu dia)
Por que nunca mais uso preto na sexta-feira (e como isso mudou meu dia) imagem

De modo antecipado, julguei ser ele mais um entre tantos outros seres que perambulam pelas ruas do centro da cidade com as mais variadas ofertas e estratégias para conseguir algo que se deseja. Logo, me vi entre cálculos mentais sobre constrangimento social e solidariedade. No meu coração, habitam todas as circunstâncias de uma vida.

Só muito recentemente tenho aprendido a dizer não. Juntar essas três letras, para mim, é semelhante à árdua tarefa de Sísifo. Há algum alívio em tocar a língua na parte de trás dos dentes superiores, abrir um pouco a boca, arredondar os lábios e permitir a passagem do ar para dizer o que verdadeiramente se quer dizer. A tarefa, porém, é infinita. A força e coragem necessárias para realizá-la não são reservas que possuo em demasia.

Dizer ene, a, ó, til, assim como eu dizia na adolescência cheio de deboche em alto e bom som em uma situação que demandava pouco de mim, é muito diferente de encarar o mundo adulto, a luta interior entre a necessidade de agradar ou não magoar e a necessidade de cuidar do próprio bem-estar, e proferir um breve som que pode ser traduzido por limites para uma vida em que não me envergonho de ser quem sou.

– Sim. Este ano é seu. Ouviu bem? Este ano é seu. A voz resoluta do ser nebuloso finalmente me fez olhar ao redor. Eu já não bebo tanto quanto antes. Na medida em que o tempo passa sobre mim e me transforma em outra pessoa, minha tolerância alcoólica parece cada vez menor. Mas eu estava atento. Meus gestos continuavam coordenados. Alcancei meu copo e bebi um gole.

Minhas companhias de mesa continuavam existindo, agora perplexas com a fala oracular do sujeito. As pessoas seguiam em seus lugares com risos e conversas como se a vida fosse mesmo uma grande encenação. O que responder? Subitamente, o oráculo ambulante se levantou e desapareceu com seus passos profundos e levianos. Com as sobrancelhas ainda erguidas e a mão no queixo, eu tentava descobrir minha própria verdade.

*Evanilton Gonçalves é autor de Ladeira da Preguiça (Todavia)

Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia. Compartilhar no Whatsapp Clique aqui

Compartilhe essa notícia com seus amigos

Compartilhar no Whatsapp Compartilhar no Facebook Compartilhar no X Compartilhar no Email

Tags

crônica crônica da muito

Relacionadas

Mais lidas