MUITO
Abrir e fechar janelas
O carnaval já passou e a cidade aparenta tranquilidade. Vá nessa...


Março é o mês em que, estando em Salvador, a pessoa é inscrita compulsoriamente na competição de abrir e fechar janelas. Não sei se é porque a cidade faz aniversário em 29 de março e, portanto, semanas antes está no que as astrólogas e os astrólogos chamam de inferno astral. Não sei se é, mas desconfio. Afinal de contas, mesmo eu cético para coisas siderais, também me pego, todo ano, revisando tudo que vivi ao longo do último ano. Isso se manifesta em instabilidades emocionais bem conhecidas aqui em casa. Nesse período, meu estado de espírito é desvendado pelo olhar investigativo de minha companheira e sua monossilábica conclusão: ah! Salvador, porém, se revela à sua maneira.
O carnaval já passou e a cidade aparenta tranquilidade. Vá nessa. Quem se liga em signos diz que a capital baiana é de Áries, e que isso é fogo. Quer dizer, sua natureza é assim, quente. Não sei se tem a ver, mas o clima está quente mesmo, abafado. 30º C? 50º C? Pinço e sacudo a camisa na altura do tórax. Depois acho inadequado estar de camisa dentro de casa. Fazemos muitas coisas sem pensar direito. Tiro a camisa, abro as janelas. Todas elas: 3 no total. Agora, sim. Um vento tímido se aproxima, desvia dos prédios, vem do mar, vai se juntando no ambiente e formando o que posso chamar de conforto térmico. Equilíbrio. Estou no sofá. A tevê exibe notícias inusitadas e desastrosas: “homem-aranha” sobe no poste para roubar fios; a Embasa avisa pela milésima vez que vários bairros pobres ficarão sem água. Pouco a pouco, vou sendo absorvido pelo noticiário. Até que percebo os sinais do reinício da competição.
É final de semana. Dessa vez, não estou sozinho no sofá. Minha companheira, que costuma partilhar comentários sobre os eventos locais comigo, bota a mão na boca e arregala os olhos em minha direção ao acompanhar as reprises da semana. Como não se espantar com a tendência de destruição e caos que toma conta da cidade? Dentro de casa, a urgência é outra. Fomos instados a participar da competição na modalidade em dupla. Nos entreolhamos. Pancadas de chuva. Ela é estratégica, num impulso, corre para fechar a janela atrás do sofá; desafiando a física, tento chegar o mais rápido possível à janela da área de serviço (não sou Usain Bolt, mas acredito no meu potencial). Retornamos ao sofá com a satisfação de quem faz o que tem que ser feito. Precipitação. A janela do quarto ficou aberta. Somos informados pelo esvoaçar radical da cortina e pelo som aquoso dos carros a deslizar na rua. Com cara de poucos amigos, ela caminha em direção à terceira janela. A competição não tem previsão para acabar.
Não demora muito até que o calor invada a sala mais uma e outra vez. Não é só o noticiário que nos enerva. Não temos para onde correr nesse instante. É preciso ter paciência. Sabemos o que deve ser feito e depois desfeito. Abrir e fechar janelas. Salvador parece querer exigir de nós o exame do seu mapa astral. Tudo acontece muito rápido como numa competição. Espantados, não flagramos mais pelo vidro translúcido da janela o céu cinzento e pluvial. Agora, de repente, o infinito azul-celeste, esparsas nuvens e o sol cheio de força com todos os seus raios.
*Evanilton Gonçalves é autor de O coração em outra América (Paralelo13S)