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Acarajé ou Bolinho de Jesus? A luta das baianas para preservar tradição em Salvador
Salvador 477 anos: a nobreza do ofício das baianas de acarajé

Um pensamento que percorria a mente da jovem Regina Conceição, quando ajudava a família a vender acarajés e abarás na orla de Salvador, era o desejo de casar com um homem rico e não ter que trabalhar. Naquela altura de sua vida, antes do reconhecimento, o esforço empreendido para preparar a comida e depois sair debaixo de um sol a pino para vendê-la, era demasiado grande para o pouco retorno financeiro.
Deve ter sido um lamento semelhante a esse, em voz alta, que inspirou Dorival Caymmi a compor A Preta do Acarajé, com os versos: "Todo mundo gosta de acarajé, o trabalho que dá pra fazer é que é".
Mas o vento virou. Certo dia, quando já era adulta e a mulher à frente do negócio da família, um cliente da praia falou sobre um ponto disponível para montar um tabuleiro na Graça, e Regina começaria a construir uma história que a colocaria entre as três mais famosas baianas de acarajé, ao lado de Cira e Dinha, já falecidas.
Neta de uma baiana de Pituaçu, Regina foi a primeira de suas irmãs a aprender a fazer acarajés e aos 19 anos já era uma baiana. E com a mudança do local de trabalho da praia de Patamares para a Avenida Euclides da Cunha, em frente à casa de seu cliente banhista, a quituteira iniciou uma trajetória que a levaria a se tornar parada quase obrigatória para moradores da Graça e passantes.
O ponto, que ficava próximo à antiga locadora Video Hobby, funcionou ali durante 13 anos e mudou-se para a Rua da Graça e, posteriormente, para o Largo da Vitória. Um segundo tabuleiro foi montado pela família no Rio Vermelho.
Hoje, somando a produção da massa em casa e os dois pontos de venda, 30 pessoas trabalham no negócio, segundo Regina. "Todos ganham um dinheirinho", declara a matriarca. Mas para alguns de seus descendentes, esse é um trabalho temporário. "Eles não querem fazer acarajé, é muito puxado para eles", brinca.
Uma das melhores coisas que acontecem a uma baiana, na visão de Regina, é o carinho da clientela. Mas em função dos cuidados com a saúde, a grande estrela viva dos tabuleiros tem ido pouco às ruas. "Eu fico na cozinha, orientando, para levar o melhor quitute da cidade", declara a veterana, rindo.
De mãe para filha

Na maioria dos casos, o ofício de baiana do acarajé é transmitido de mãe para filha, não sendo raro haver quituteiras em sua terceira geração. Mas a história de Sueli Conceição, nascida no Pero Vaz, que ocupa um dos cinco tabuleiros padronizados no Terreiro de Jesus, é diferente. Filha de uma baiana, Sueli decidiu sair de Salvador na juventude e se aventurar por outras regiões do Brasil, fazendo serviços domésticos.
Em 1987, quando morava em São Paulo, Sueli recebeu um telefonema, informando a morte da sua mãe, Perolina Conceição, e decidiu voltar para Salvador e dar prosseguimento ao legado materno, até porque ambas eram vinculadas ao mesmo terreiro, de Joana de Ogum, em Cachoeira. O ponto estava desativado havia cinco meses, desde que a sua mãe adoeceu, e o tabuleiro ficou guardado durante esse tempo na funerária de um amigo da família.
"Os guias de turismo do Pelourinho, principalmente Ernest, me ajudaram a suspender a minha guia. Desse dia para cá eu não deixei a minha guia cair", lembra Sueli, que divide o tabuleiro com a filha Suelen.
Sueli brinca que é três vezes baiana, por nascimento, por ofício e por torcer pelo Bahia. Enquanto concede entrevista, em menos de um minuto é saudada por três pessoas conhecidas que passam em frente ao tabuleiro. "Eu sou feliz no que faço. Tenho prazer em vir trabalhar e encontrar as pessoas" afirma Sueli.
Por recomendação médica, há 15 anos Sueli trocou a tradicional roupa de baiana, com diversas camadas de tecido, por uma coleção de batas coloridas. "Um dia, eu senti muita falta de ar e minha filha me levou ao médico e ele me disse que se eu pudesse deveria usar menos roupa", lembra Sueli.
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Tradição e identidade
No Garcia, a história do Acarajé de Solange remonta a 1949, quando sua avó, Josefina Ribeiro Costa, montou um tabuleiro na Rua Leovigildo Filgueiras, em frente ao muro do Colégio Santa Dototeia.
"Eu comecei a fazer acarajé aos 14 anos. Minha filha já tem 30 [gargalha] e eu só fiz isso, a vida toda, trabalhar com acarajé", conta Solange Silva, que de vez em quando recebe a ilustre visita do cantor Gerônimo, que se senta em um dos bancos ao lado do tabuleiro para degustar um acarajé e viver na delícia.
Jota Velloso também frequenta o tabuleiro e Marienne de Castro sempre convida Solange para fazer eventos. Entre os clientes famosos que mandam buscar seus quitutes, Solange cita Maria Bethânia.
Em entrevista por telefone, enquanto compra na Feira de São Joaquim o material para o seu cardápio, Solange solta uma risada e declara: "Eu sou chata pra escolher o feijão, já estou aqui brigando com o menino", afirma.
Entre os prazeres de ser baiana, Solange destaca a satisfação quando seu acarajé recebe elogios."É ótimo ouvir um 'que delícia' para algo que você faz com amor", declara a baiana, que assegura nunca ter pensado em fazer outra coisa da vida: "Minha mãe deu o tabuleiro para a pessoa certa”.
Herança

A baiana Patrícia Oliveira, que também herdou a tradição da família, aponta para o que considera apropriação cultural, com a presença de pessoas brancas evangélicas à frente de tabuleiros.
"Teve uma baiana que era loura, gaúcha, surfista, que ganhou até o título do acarajé de ouro", pontua Patrícia, para quem o tradicional ofício das baianas virou um comércio.
Formada em psicologia, e com forte posicionamento político, Patrícia percebeu na clientela do antigo tabuleiro na Graça, que herdou de sua mãe, Dona Dete, um processo de comparação com a sua antecessora. Assim como Regina, Dona Dete vendia na praia, um dos locais onde há maior oferta de acarajé.
Um levantamento feito pela Associação Nacional das Baianas de Acarajé, Mingau, Receptivos e Similares (Abam) na década passada, bancado por uma marca de refrigerante, detectou 980 vendedoras de acarajé entre o Porto da Barra e Stella Maris.
Mas Dona Dete teve uma trajetória parecida com a de Regina e, a convite de funcionários de uma construtora que tinha sede na Graça, montou um tabuleiro no bairro. "Ela ficou com os dois pontos, porque eram muitos filhos para sustentar. E apesar dessa história de glamour, de acarajés famosos, de baianas ricas, você tem que trabalhar muito para sustentar uma casa", pondera Patrícia.
Há algum tempo, a baiana acabou perdendo o ponto na Graça, por decisão da Prefeitura, e por enquanto trabalha com eventos. Desde o início do verão, ela ocupa provisoriamente um espaço no Museu de Arte Contemporânea, na Rua da Graça.
Regras
Não se sabe exatamente quantas baianas de acarajé, figuras icônicas de Salvador, existem. E a Abam faz uma importante distinção entre baianas e vendedoras de acarajé. Para se enquadrar no primeiro caso, é preciso respeitar as regras básicas de produção dos quitutes e as vestimentas de quem os comercializa.
"Essa discussão tem tomado corpo desde quando começa a surgir a história do bolinho de Jesus", lembra a antropóloga Adriana Cerqueira. Ela destaca que o acarajé em si não é um patrimônio cultural reconhecido, mas o saber fazer o acarajé, que é o ofício das baianas. "É isso que está no livro de saberes e fazeres, tanto no Iphan quanto no Ipac", pondera antropóloga.
Adriana destaca que no processo de patrimonialização do ofício levou-se em conta que na maioria dos casos as baianas eram dos terreiros de Candomblé, que eram feitas para Iansã e que tinham como parte de suas obrigações como iaôs fazer a comercialização do acarajé na rua.
"É uma comida de santo, que sai dos terreiros de candomblé", acentua a antropóloga, ressaltando que originalmente o acarajé era apenas o bolinho de feijão frito no dendê, sem qualquer recheio e com camarões incrustados.
No último levantamento feito pela Abam, em 2017, com o auxílio de um aplicativo online, foram identificadas cerca de 8 mil baianas e vendedoras em todo o Brasil, sendo 3,5 mil na capital baiana.
"Não existe Salvador sem baiana e não existe baiana sem Salvador", afirma a presidente da Abam, Rita Santos, que se tornou baiana por acaso. Ou destino.
Carioca e bancária, Rita mudou-se para Salvador quando o marido militar foi transferido para cá. Um dia, ela se aproximou da Abam para ensinar as baianas a emitir nota fiscal. Aprendeu a fazer acarajé e, como a estadia do marido na cidade, que seria temporária, se tornou definitiva, Rita fincou raízes no movimento. "Eu até insisti para que outras baianas assumissem a presidência e ninguém quis. Mas eu entendo. Eu não tenho o tabuleiro como renda principal. Uma baiana normalmente não pode se afastar do seu negócio por vários dias para cuidar da associação", diz Rita.
Emprego e renda
A presidente da Abam não faz restrições ao fato de que homens ou pessoas evangélicas vendam acarajé, desde que a tradição seja respeitada. "Temos que pensar que o Brasil é um país desigual, com desemprego. E vender acarajé é emprego e renda também", defende a presidente, ressaltando a importância de se respeitar as regras.
Em 2005, o ofício das baianas de acarajé foi registrado como Patrimônio Cultural do Brasil e inscrito no Livro de Registro de Saberes, um instrumento do Iphan para registrar bens imateriais. Em 2012, o Ipac reconheceu o ofício das baianas como bem imaterial. Agora, a Abam pleiteia que a Unesco reconheça esse ofício como patrimônio da humanidade.
Para que isso aconteça, os governos federal e estadual precisam elaborar um plano de salvaguardas em relação ao ofício. "É onde você vai dizer o que vai fazer no curto, no médio e no longo prazos. Quais as políticas públicas e as secretarias envolvidas com ofício", informa Rita, que desde 2024 tem uma cadeira no conselho da Unesco que avalia candidaturas a patrimônio da humanidade.
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