ABRE ASPAS
Elísio Lopes Jr. quer novo olhar sobre histórias negras na TV: “A gente quer se ver”
Escritor baiano destaca potência da criação negra

Aos 50 anos, o escritor e dramaturgo Elísio Lopes Jr. tem motivos para comemorar o momento que vive. Na TV Globo, onde trabalha há 10 anos, acaba de estrear o seu novo projeto, a novela A Nobreza do Amor, que escreve ao lado de Duca Rachid e Júlio Fisher, e tem no elenco Lázaro Ramos e Zezé Motta.
Sob sua direção, o espetáculo Torto Arado cumpre exitosa carreira pelo Brasil. E no próximo dia 27, participa em Salvador, onde voltou a morar, do Festival de Literatura do Salvador Shopping, dividindo a mesa com a escritora Rita Santana e a cantora e atriz Larissa Luz, que recebeu esta semana o Prêmio Shell de melhor atriz, segundo o Júri do Rio de Janeiro, pela sua atuação em Torto Arado.
O tema em discussão na mesa será Sonhos, Esperanças e Resistências – A ginga soteropolitana nos Palcos e Telas. Nessa entrevista, Elísio fala sobre o crescimento da presença negra na dramaturgia e a potência da criação negra e nordestina no universo das artes.
Você está completando dez anos na Rede Globo, que acaba de estrear a novela A Nobreza do Amor, em que você é coautor. Uma trama que, pela primeira vez, traz o universo afro-brasileiro de forma central. Como vê a evolução da presença negra na teledramaturgia ao longo dessa década, tanto na atuação quanto na criação?
Eu entendo que o que está acontecendo na televisão é o que está acontecendo também na sociedade. Que essa produção, não só da ficção, mas também de todo o entretenimento, do jornalismo, dos programas, enfim, se aproxime e dialogue profundamente com o Brasil de verdade, com quem é o Brasil. A gente está em um país que tem uma maioria de pessoas não brancas. E esse reflexo ao contar as histórias é uma demanda que eu acho natural, de um sentimento muito próprio. Eu digo que a gente quer se ver. A gente quer ver histórias de gente que pareça com a gente. A gente quer se ver representada não só nas situações da realidade, mas também nas situações da ficção. E, principalmente, que isso seja feito, como a gente está tentando fazer em A Nobreza do Amor, que é trazendo o nosso lado de potência, o nosso lado de força, o lado de tudo de bom que a negritude empresta para o desenho desse país, para quem somos e que país é esse que é o Brasil. E isso está acontecendo não só na TV, acontece na literatura, um bom exemplo é Torto Arado, isso acontece na música, no cinema e também na televisão.
Como surgiu o projeto de A Nobreza do Amor?
Eu fiz a minha primeira novela em parceria com Duca Rachid e Júlio Fischer, Amor Perfeito. Foi um convite deles para integrar a equipe e fazer parte da autoria daquela história. Na oportunidade, a gente entendeu que queria falar da existência de uma elite negra, que tinha ascendido socialmente e construiu esse país. A gente tinha um protagonista negro. E isso foi um primeiro passo que a gente começou a fazer, de virar essa câmera para que ela capte as potências desse povo. Não só as dores. Durante muito tempo, as escritas e as produções focaram no olhar do branco para o preto no olhar da questão racial, mas pelo ponto do racismo. A existência preta nesse país vai muito além do racismo. Então, o que A Nobreza do Amor propõe agora é exatamente falar de uma realeza que reflete no nosso país trazendo as potências. A gente conecta um reino africano fictício, o Reino de Batanga, com uma cidade do Brasil fictícia também, Barro Preto, no Rio Grande do Norte, que seria o ponto do Brasil mais próximo do continente africano. Exatamente para fazer essa junção, que a parte que veio juntamente com o advento histórico, trágico, da escravização, não foi só a parte ruim. Não veio só a dor, não veio só a subjugação. Vieram as potências, os talentos, a beleza e a força. A gente desdobra de Amor Perfeito para A Nobreza do Amor com esse objetivo claro de fortalecer o que há de nobre e potente na gente e no Brasil.
Como foi trazer Zezé Motta de volta à televisão?
Quem define o elenco, basicamente, é o diretor. Mas óbvio que nós, como autores, podemos sonhar. E a gente sonha e propõe pessoas. A gente fala quem a gente imagina que poderia estar ali na tela, defendendo aquele personagem. E Zezé era um sonho, obviamente. Zezé é uma das pioneiras na televisão a se posicionar como mulher negra. E a defender personagens que foram rupturas na construção da dramaturgia no Brasil. Então, é icônico para a gente, é referência para a gente, ter Zezé Motta nessa novela. Porque faz parte da lógica que a gente acredita. A filosofia que a gente usa na construção do reino africano é a filosofia ubuntu. A gente está falando ali do que eu sou, do que nós somos. E é uma novela que fala muito da questão da ancestralidade. Então, faz todo sentido para a gente ter no elenco uma pessoa como Zezé. É referência não só para as atrizes, mas para todo mundo que cria ficção e teledramaturgia nesse país.
Leia Também:
Vamos falar do espetáculo Torto Arado, que concorreu esta semana ao Prêmio Shell de Teatro. Como está a trajetória da peça pelo país?
Torto Arado é um espetáculo baiano. Eu gosto sempre de partir desse ponto. Foi todo construído por uma equipe criativa baiana. Parte do livro de um escritor baiano, que é Itamar Vieira Jr. E eu tenho muito orgulho de que a gente tenha estreado a peça em Salvador. E de ter lotado as nossas três temporadas, desde a estreia. Isso é um fenômeno, isso significa que as pessoas querem se ver. Querem conhecer mais sobre a sua própria história. E Itamar registra em Torto Arado uma Bahia que eu chamo de a Bahia da água doce. Que não é nem a Bahia do sertão, nem é a Bahia do litoral. É a Bahia do meio do caminho, do Recôncavo, das pedras, da água doce, dos rios, das cachoeiras. E ao contar a história dessas duas irmãs, Bibiana e Belonísia, a partir desse universo de Bahia, que é um universo original, eu sinto que essa potência se multiplica quando isso vai para a cena, com canções de Jarbas Bittencourt, com coreografias de Zebrinha, com um elenco baiano potente. E essa história é contada com tanta paixão, que eu acho que essa paixão chegou ao público. E depois das três temporadas lotadas em Salvador a gente começou a ser convidado para levar o espetáculo a outros lugares. A gente foi a São Paulo, com duas temporadas também esgotadas. Depois, a gente foi para o Rio de Janeiro, temporada esgotada. Depois, circulamos por Brasília e Fortaleza. O espetáculo completou um ano e meio de estreia tendo passado por cinco capitais, com temporadas repetidas e sempre com plateia cheia. Essa sensação de que o brasileiro quer se ver e conhecer mais a nossa história, para mim, fica muito forte. E a potência do teatro produzido na Bahia. Eu acho que cada vez que a gente entra em cena a gente está levando toda essa bagagem de aprendizado.
Vamos falar do Oscar. Aqui e ali saíram comentários, até de jornalistas, que se Ainda Estou Aqui era um filme brasileiro concorrendo, O Agente Secreto é uma obra recifense. Você viu essa diferenciação?
A gente vive em um país onde a discriminação não é só racial. Existe discriminação social. Partindo do Nordeste, as coisas têm uma leitura ainda regional. Uma necessidade de enquadrar aquilo em um determinado conceito de divisão do território nacional, como se alguma coisa fosse eixo e outra coisa não fosse eixo. E isso já se rompeu há muitos anos. A música rompeu isso. Diversos artistas com seus trabalhos solo também romperam isso há muitos anos. Essa sensação de que é possível dividir o Brasil entre quem está dentro e quem está fora saiu de moda, já não faz mais sentido. E nossa produção independe desse olhar. O que a gente está produzindo e o que a gente está oferecendo para a cultura brasileira não depende do olhar do outro, de quem está de fora. E quem vive a experiência percebe que ali a gente está falando de um país, do Brasil e de nossas raízes. Esse filme, quando você tenta colocar numa ordem de grandeza, como se ele fosse menor e menos importante do que o filme anterior indicado ao Oscar, você está refletindo única e exclusivamente essa necessidade de enquadrar as coisas em quem está dentro e quem está fora.
Ainda sobre o Oscar, Lázaro Ramos falou que, obviamente, estava torcendo que Wagner Moura ganhasse como melhor ator, mas deixou claro que ficaria contente com a vitória de Michael B. Jordan. E as TVs mostraram que quando o ator estadunidense ganhou houve comemoração coletiva em diferentes cidades brasileiras. O fato de ele ser negro influenciou essa torcida...
Sim, obviamente. Você olha para a cara dele e ele podia ser brasileiro (risos). Você tem uma identificação ali pelas pautas, pela narrativa que esse ator tem. Ele tem um discurso forte, um conjunto de valores que ele defende e o trabalho dele como ator, com os quais uma boa parcela de quem estava ali na torcida tem alguma identificação. Então eu acho que faz parte, sim. É um elemento que compõe essa magia. A gente não sabe por que se torna fã. A gente simplesmente passa a admirar aquele artista, nem sempre a gente tem o discernimento para analisar por que a gente se torna fã. Com certeza, foi uma vitória merecida e a gente ver atores negros como Jordan, como Viola Davis, sendo premiados dá uma sensação de que todos nós estamos sendo premiados. De que alguma coisa está se rompendo nessas barreiras, as paredes simbólicas que impedem o acesso de artistas pretos, como eles, a espaços mais nobres.
Você participa do Festival de Literatura do Salvador Shopping. O que representa esse evento para você?
A minha escrita, a minha construção como autor, nasce nos palcos de Salvador. Eu sou um autor formado no teatro da Bahia, com meus mestres sendo os mestres do nosso teatro. Então, apesar de estar trabalhando por todo o país e ter passado um tempo fora, hoje eu moro em Salvador e a minha lógica é que eu tenho que devolver para o meu território, para o lugar onde eu me formei, para que outros tenham oportunidade como eu tive.
Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia.
Participe também do nosso canal no WhatsApp.
Compartilhe essa notícia com seus amigos
Siga nossas redes




