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Este é o pior hábito para sua saúde mental hoje

“Passei cerca de uma hora sentada na sala escura, até me dar conta de que havia sido sugada pela tela”. A cena descrita pela psicóloga baiana Lorena Dias é simples, mas reveladora. Depois de um dia cansativo, ela começou a mexer no celular e só depois de horas notou que havia dedicado muito tempo aos conteúdos online. A partir disso, Lorena passou a buscar formas de reduzir o tempo de tela e criar pausas mais conscientes na rotina.
Nos últimos anos, muita gente tem feito esse mesmo movimento: em meio à avalanche de estímulos digitais, hobbies manuais e analógicos voltam ao radar como formas de desacelerar e recuperar a atenção.
Crochê, livros de colorir e colagens têm ganhado espaço entre pessoas que querem trocar a atenção difusa do feed infinito por horas de foco. A pesquisadora de comunicação Brenda Melo, de 28 anos, conhece bem essa mudança. Nascida em Ilhéus e moradora de Salvador, ela redescobriu os livros de colorir e começou a fazer pintura de diamantes, técnica que utiliza pequenas pedrinhas coloridas para formar imagens, depois de ver vídeos sobre o tema nas redes sociais. “Sinto uma paz ao pintar, um momento de tranquilidade e descanso mental”, diz.
Antes disso, o celular ocupava boa parte da rotina: “Eu tinha histórico de 12 horas de tela por dia”. Hoje, Brenda dedica cerca de uma ou duas horas por noite ao hobby. A troca, segundo ela, trouxe um efeito imediato. “Me sinto mais tranquila”, conta.
O que poderia parecer apenas um passatempo tem funcionado, para muita gente, como uma espécie de pausa mental. “Funciona como uma terapia, porque o tempo que eu gastava com redes sociais ou jogos, gasto com o desenho”, analisa Brenda.
A administradora baiana Rafaela Santana, de 29 anos, também encontrou um refúgio criativo fora das telas. O caminho começou de forma curiosa: vendo conteúdos de papelaria nas redes sociais, ela descobriu o chamado junk journal, um caderno feito com colagens de pequenos objetos do cotidiano. “Resolvi pegar um livrinho e começar a colar”, diz ela . “Fui me animando e virei uma grande acumuladora de lixinhos”, brinca.
Com o tempo, as colagens evoluíram para scrapbooks mais elaborados, especialmente depois que ela entrou em um clube do livro, onde compartilha o hobby com amigas.
Hoje, Rafaela dedica algumas horas da semana a cortar papéis, colar imagens e reorganizar lembranças em páginas. O efeito aparece na forma como ela se relaciona com o próprio tempo. “Quando pego meu material, simplesmente esqueço que existe celular”, conta. “Já cheguei a ficar três horas cortando e colando papéis”.
Antes disso, o celular ocupava todos os espaços de descanso. “Se eu estava entediada: celular. Triste: celular. Feliz: celular", conta. "Tudo rodava em torno de estar scrollando”, diz Rafaela, se referindo ao movimento de rolagem eterno das redes sociais.
Esse tipo de relação cada vez mais intensa com as telas não é apenas impressão individual. O debate sobre o impacto das redes sociais na saúde mental vem crescendo em vários países. Nos Estados Unidos, empresas de tecnologia como Meta e Google enfrentam processos que discutem o papel das plataformas no estímulo ao uso prolongado, especialmente entre jovens.
Na prática, a sensação de hiperconexão tem provocado uma pergunta comum: se estamos sempre conectados, por que continuamos tão cansados? Para a psicóloga baiana Juliana Correia, a resposta passa pela forma como o cérebro lida com o excesso de estímulos. “A gente acha que está descansando quando rola o feed, mas continua hiperestimulado”, explica. “Não é descanso”.
Ela observa que hobbies manuais têm aparecido com frequência nos atendimentos dentro do consultório. “O que acontece com essas atividades [analógicas] é que a gente ganha corpo de novo”, diz. “A gente sai de só consumir passivamente conteúdo e volta a ter contato, criatividade e criação”. Segundo a psicóloga, muitas pessoas procuram cursos e oficinas justamente para criar limites que não conseguem impor sozinhas ao celular.
“Muitos adultos dizem que se inscrever nessas atividades é a garantia de que vão conseguir ficar longe do aparelho", relata Juliana, acrescentando que algumas atividades não são compatíveis com o uso do celular. "Durante duas horas de aula de cerâmica ou crochê, por exemplo, simplesmente não há como ficar no Instagram”.
Há também um componente mais profundo nessa busca por atividades analógicas. Para Juliana, o ambiente digital fragmenta a atenção e dificulta tarefas que exigem mais foco. “A gente está vivendo uma crise da atenção”, afirma. Segundo a psicóloga, o impacto aparece inclusive na forma como as pessoas interpretam suas próprias dificuldades de foco.
“Tem um boom de autodiagnóstico de TDAH [Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade] em pessoas que, na verdade, estão com a atenção fragmentada pelo excesso de estímulos digitais”, explica.
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Estratégias

Nesse cenário, pequenas alternativas de equilíbrio passam a ganhar importância. No caso de Lorena, o crochê se transformou em uma dessas pausas. O interesse começou porque ela sempre gostou de peças artesanais e costumava encomendar bolsas e lenços de uma tia que trabalha com a técnica. A decisão de aprender veio, ironicamente, das próprias redes sociais. “Observando vídeos de iniciantes no crochê, comecei a achar que talvez eu também pudesse aprender”, conta.
Depois de aprender os pontos básicos, ela passou a usar o crochê como um momento de desaceleração no fim do dia. A repetição dos movimentos ajuda a entrar em um estado de concentração tranquilo. “É quase como uma meditação ativa”, diz.
Com o tempo, o efeito apareceu também na ansiedade. “Com o crochê eu sinto mais relaxamento". Além da técnica artesanal, Lorena passou a adotar pequenas mudanças na rotina para diminuir a dependência do celular e recuperar momentos de presença no dia a dia. Uma das mais simples foi mudar a forma como usa as redes sociais. “Meu lema é ‘viver primeiro, postar depois’”, conta.
A estratégia surgiu como uma tentativa de evitar que o celular se tornasse o centro das experiências. Em vez de interromper um encontro ou um passeio para publicar fotos e vídeos, ela prefere registrar os momentos e compartilhar tudo depois nas redes sociais. Sem a preocupação imediata com curtidas, comentários ou visualizações, a atenção deixa de ficar dividida. “O fato de não postar na hora faz com que eu esteja mais presente no momento, seja num show ou num encontro com amigos”.
Rafaela também sugere começar de forma simples para reduzir o tempo nas telas. “O conselho mais certeiro é começar”, diz. Para ela, não é preciso investir muito nem esperar o hobby perfeito: vale pintar, desenhar, escrever, fazer colagens ou palavras cruzadas com o que já existe em casa. Brenda concorda e recomenda atividades manuais como uma pausa intencional do celular. “É um momento de calmaria”, afirma.
Outra prática que Lorena incorporou à rotina são períodos voluntários de desconexão. Sempre que viaja, ela opta por desligar a internet do celular por alguns dias. A ideia é criar uma espécie de “imersão offline”, na qual a atenção se volta para as conversas, para a paisagem e para atividades mais lentas. “Nesses momentos de detox, eu me sinto mais presente e interessada nas conversas”, conta.
Sem o impulso constante de checar notificações ou responder mensagens, ela percebe mudanças até na capacidade de concentração. “Consigo manter a minha atenção por mais tempo nas coisas que estou fazendo”, diz. “Eu me sinto menos acelerada do que na rotina, quando estamos respondendo mensagens o tempo todo ou atentos às notícias".
Para a psicóloga, essas pausas ajudam a lembrar que nem tudo precisa acontecer em tempo real. Em meio à pressa constante das notificações e atualizações, desacelerar também pode ser uma forma de cuidado. Como resume Lorena: “Quando percebo que fiquei vários minutos focada em uma atividade sem sentir falta do celular, sem dúvidas o sentimento é de vitória".
Serviço:
Como diminuir uso do smartphone

Crie momentos offline:
Reserve períodos do dia para atividades sem telas, como leitura ou hobbies manuais.
Ocupe as mãos:
Crochê, desenho, pintura, colagem ou jardinagem ajudam a manter a atenção fora do celular.
Desligue a internet em alguns momentos:
Durante exercícios físicos ou leituras, isso pode evitar distrações.
Cuide da higiene do sono:
Evite telas por pelo menos uma ou duas horas antes de dormir.
Use limites digitais:
Aplicativos que controlam o tempo de uso podem ajudar a criar consciência sobre o hábito.
Substitua o hábito:
Em vez de apenas reduzir o celular, encontre algo prazeroso para ocupar esse tempo.
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