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CRÔNICA

Quando o gás acaba no meio do café da manhã (e o aplicativo complica tudo)

Beiju, ovo frito e um entregador chamado Boa Morte: uma crônica sobre a paciência na Bahia

Evanilton Gonçalves*
Por Evanilton Gonçalves*
Ele só queria fritar um ovo, mas acabou em uma disputa surreal entre entregadores de gás
Ele só queria fritar um ovo, mas acabou em uma disputa surreal entre entregadores de gás - Foto: Túlio Carapiá | Editoria de arte A TARDE

Como é comum acontecer, o gás acabou no final do mês, bem quando eu costumo constatar que trabalho muito, mas ganho pouco. Como ainda é mais comum acontecer, o gás acabou no meio do preparo de minha refeição. No caso, meu café da manhã. Tudo bem, pensei. A vida é assim. Logo, logo, encho a barriga. Atento à tecnologia, solicitei, via apêpê, um novo botijão para, enfim, comer a primeira refeição do dia: beiju com ovo frito e um cafezinho gostoso da Chapada Diamantina. Tem jeito melhor de começar o dia?

O celular vibrou com a notificação do aplicativo. Uma revendedora havia aceitado meu pedido e já me informava o rosto e nome do entregador. Em poucos segundos, porém, uma nova revendedora surgiu na tela com o rosto de outro entregador: um homem de meio século chamado Boa Morte. Nunca imaginei que haveria tanta disputa entre revendedores de gás para garantir que eu tomasse logo meu café da manhã. A animação de um botijão com rosto sorridente me avisou que meu pedido estava a caminho. Em meia hora, eu poderia colocar em prática meus dotes culinários e saciar minha fome. Avisei na portaria que aguardava um entregador de gás.

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O que é o tempo? Estava com dificuldades de me concentrar nesse assunto. Quanto tempo já havia se passado desde o meu pedido? A névoa mental não me permitia compreender como eu tinha acabado de ler o aviso de pedido entregue, mas seguia sem gás e com fome. A mensagem da revendedora esclarecia tudo: “Sr. Evanilton, seu pedido foi dado baixa como entregue, mas não se preocupe que ele está em rota de entrega e logo mais irá chegar, ok?”. Poupando energia e perplexo, respondi: ok. O meu corpo seguia queimando gordura para sobreviver.

Como se a vida, de repente, desse mostras de boa sorte e nutrisse misericórdia até mesmo a um ateu, num átimo após a mensagem, um jovem entregador apareceu na minha porta e instalou o gás. Quando fui pagar, tomei um susto. O valor estava absurdamente mais caro do que o valor já caro do gás. Revoltado, esbravejei mentalmente contra os antigos entreguistas do país que privatizaram a Refinaria Landulpho Alves, causando os sucessivos aumentos no gás. Com paciência, mostrei o pedido com o valor diferente no apêpê. O jovem entregador coçou a cabeça e explicou: foi instalar um gás em outro andar e, sabendo na portaria que eu aguardava um entregador, resolveu aparecer e oferecer seu serviço. Então percebi meu lapso e constatei o óbvio: o jovem na minha frente tinha, no máximo, metade de meio século e dificilmente se chamaria Boa Morte. Diante da minha recusa em pagar o valor exorbitante, ele foi direto ao ponto: não poderia fazer por menos. E não fez mesmo, sem mais palavras, desinstalou o gás e escafedeu-se. Misericórdia!

Entre incredulidade, apatia e irritabilidade, a minha preocupação maior agora era o verdadeiro entregador chegar e o porteiro o dispensar alegando que o gás já havia sido instalado. Interfonei imediatamente para explicar a desordem das coisas. Eu já tinha aceitado que não tomaria café da manhã. Quando me preparava para sair em busca de almoço, Boa Morte apareceu com falta de ar e muito suado. Esperei que se recuperasse e falasse. Teve que subir quatro andares de escada, pois o antigo elevador pifou bem na hora de sua chegada. Não se deu por vencido, respirou fundo, aceitou um copo d’água e foi logo instalando o gás. Em seguida, solicitou a esponja ensopada de sabão para se certificar de que não havia vazamento. Ao final, puxou do bolso a maquininha para receber o meu cartão de crédito. A familiaridade da circunstância me intrigou, mas o mundo objetivo permanecia o que era. Morrendo de vergonha e de fome, entreguei a única cédula de dois reais que tinha como gorjeta para Boa Morte.

*Evanilton Gonçalves é autor de Ladeira da Preguiça (Todavia)

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Tags

aplicativos de entrega crônica crônica da muito gás de cozinha gastronomia vida cotidiana

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