CRÔNICA
Quando o gás acaba no meio do café da manhã (e o aplicativo complica tudo)
Beiju, ovo frito e um entregador chamado Boa Morte: uma crônica sobre a paciência na Bahia

Como é comum acontecer, o gás acabou no final do mês, bem quando eu costumo constatar que trabalho muito, mas ganho pouco. Como ainda é mais comum acontecer, o gás acabou no meio do preparo de minha refeição. No caso, meu café da manhã. Tudo bem, pensei. A vida é assim. Logo, logo, encho a barriga. Atento à tecnologia, solicitei, via apêpê, um novo botijão para, enfim, comer a primeira refeição do dia: beiju com ovo frito e um cafezinho gostoso da Chapada Diamantina. Tem jeito melhor de começar o dia?
O celular vibrou com a notificação do aplicativo. Uma revendedora havia aceitado meu pedido e já me informava o rosto e nome do entregador. Em poucos segundos, porém, uma nova revendedora surgiu na tela com o rosto de outro entregador: um homem de meio século chamado Boa Morte. Nunca imaginei que haveria tanta disputa entre revendedores de gás para garantir que eu tomasse logo meu café da manhã. A animação de um botijão com rosto sorridente me avisou que meu pedido estava a caminho. Em meia hora, eu poderia colocar em prática meus dotes culinários e saciar minha fome. Avisei na portaria que aguardava um entregador de gás.
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O que é o tempo? Estava com dificuldades de me concentrar nesse assunto. Quanto tempo já havia se passado desde o meu pedido? A névoa mental não me permitia compreender como eu tinha acabado de ler o aviso de pedido entregue, mas seguia sem gás e com fome. A mensagem da revendedora esclarecia tudo: “Sr. Evanilton, seu pedido foi dado baixa como entregue, mas não se preocupe que ele está em rota de entrega e logo mais irá chegar, ok?”. Poupando energia e perplexo, respondi: ok. O meu corpo seguia queimando gordura para sobreviver.
Como se a vida, de repente, desse mostras de boa sorte e nutrisse misericórdia até mesmo a um ateu, num átimo após a mensagem, um jovem entregador apareceu na minha porta e instalou o gás. Quando fui pagar, tomei um susto. O valor estava absurdamente mais caro do que o valor já caro do gás. Revoltado, esbravejei mentalmente contra os antigos entreguistas do país que privatizaram a Refinaria Landulpho Alves, causando os sucessivos aumentos no gás. Com paciência, mostrei o pedido com o valor diferente no apêpê. O jovem entregador coçou a cabeça e explicou: foi instalar um gás em outro andar e, sabendo na portaria que eu aguardava um entregador, resolveu aparecer e oferecer seu serviço. Então percebi meu lapso e constatei o óbvio: o jovem na minha frente tinha, no máximo, metade de meio século e dificilmente se chamaria Boa Morte. Diante da minha recusa em pagar o valor exorbitante, ele foi direto ao ponto: não poderia fazer por menos. E não fez mesmo, sem mais palavras, desinstalou o gás e escafedeu-se. Misericórdia!
Entre incredulidade, apatia e irritabilidade, a minha preocupação maior agora era o verdadeiro entregador chegar e o porteiro o dispensar alegando que o gás já havia sido instalado. Interfonei imediatamente para explicar a desordem das coisas. Eu já tinha aceitado que não tomaria café da manhã. Quando me preparava para sair em busca de almoço, Boa Morte apareceu com falta de ar e muito suado. Esperei que se recuperasse e falasse. Teve que subir quatro andares de escada, pois o antigo elevador pifou bem na hora de sua chegada. Não se deu por vencido, respirou fundo, aceitou um copo d’água e foi logo instalando o gás. Em seguida, solicitou a esponja ensopada de sabão para se certificar de que não havia vazamento. Ao final, puxou do bolso a maquininha para receber o meu cartão de crédito. A familiaridade da circunstância me intrigou, mas o mundo objetivo permanecia o que era. Morrendo de vergonha e de fome, entreguei a única cédula de dois reais que tinha como gorjeta para Boa Morte.
*Evanilton Gonçalves é autor de Ladeira da Preguiça (Todavia)
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