MUITO
Acervos fantásticos
Na Fundação Pedro Calmon, o trabalho de recebimento dos livros e documentos é dividido em dois


"No meu modo de entender, há a ilusão de que tudo vai caber nas nuvens. Ocorre que o processo de evolução humana não alcançou ainda os olhos apropriados para se fazer a leitura em aparelhos com tal luminosidade e, quiçá, radioatividade", afirma Luís Guilherme. O jornalista, que não usa WhatsApp, destaca, por exemplo, o prazer que sentiu durante sua mais recente viagem à Itália, onde pôde ler manuscritos originais do século 15.
É a esperança de encontrar livros e documentos raros, talvez não tão antigos como esses italianos, que move o Centro de Memória da Bahia, subordinado à Fundação Pedro Calmon, a fazer a chamada busca ativa, quando morre uma personalidade importante do universo da cultura ou da política, que sabidamente tenha colecionado um acervo.
Um trabalho de muita sensibilidade e bom senso, que requer uma abordagem em um tempo que respeite a dor da família, mas que evite uma outra destinação do material.
"Às vezes, as pessoas não estão prontas para se desfazer do acervo. Eu costumo fazer uma analogia com o namoro. Nem sempre quando surge o interesse é alcançado o êxito de pronto. Às vezes, leva um tempo", compara o coordenador do Centro de Memória da Bahia, Walter Silva.
Uma paquera que parece caminhar para um compromisso é a possível doação do acervo do historiador Jaime Sodré, morto em 2020. Se confirmado, seria o primeiro acervo de um intelectual negro a fazer parte do Centro de Memória da Bahia, que funciona no subsolo da Biblioteca Central dos Barris.
Walter Silva, que tem formação em história com habilitação em patrimônio cultural, destaca um fator importante nos acervos que vai além da doação em si. "O fato de a pessoa colecionar esse material por tanto tempo diz muito sobre ela, sobre o que ela se interessava, que autores contribuíram para sua formação intelectual e política", avalia o historiador, ao ressaltar que essas informações a mais ajudam pesquisadores e estudantes a entender melhor a trajetória do personagem a que se dedicam.
Joca, por exemplo, além de uma vastidão de livros, sobre variados temas, colecionava também bonecas russas, miniaturas de bandas musicais e de animais.
Doações
A gerência técnica da Fundação Pedro Calmon (Getec), por sua vez, dedica-se às doações voluntárias. Os interessados em doar devem entrar em contato com a direção da FPC para eventualmente combinar uma vistoria no acervo.
"No mês passado, recebemos a doação de 958 livros do professor Hélio Rocha, feita pelo seu filho, Paulo Rocha", destaca a gerente da Getec, Vanessa Santos.
Uma geração inteira de pensadores e colecionadores que vai envelhecendo e morrendo deixa como legado acervos que, em alguns casos, ultrapassam 10 mil livros e não podem ser absorvidos integralmente pelos herdeiros. O apartamento de Joca Teixeira Gomes, por exemplo, tinha 130 metros quadrados com estantes de livros em quase todos os cômodos, inclusive o corredor. Livro que não acaba mais.
Luís Guilherme, por exemplo, manteve uma parte do acervo de seu pai historiador, mas muitos livros foram doados à Biblioteca Central da Universidade Federal da Bahia.
Duas instituições públicas na capital baiana recebem doações de livros em grandes quantidades após análise técnica do grau de interesse do acervo a ser transferido. A Fundação Gregório de Mattos, ligada à Prefeitura Municipal do Salvador, e a Fundação Pedro Calmon, subordinada ao Governo do Estado.
No caso da FGM, as doações começaram a ficar relevantes em 2017, quando o município aderiu à campanha "Esqueça um livro, espalhe conhecimento", criada quatro anos antes pelo jornalista paulistano Filipe Brandão. Os livros doados são distribuídos em 29 bibliotecas municipais ou comunitárias da cidade para que as obras sejam repassadas gratuitamente moradores dos bairros interessados pela leitura.
"Pessoas que colecionaram livros durante anos viram na Fundação Gregório de Mattos uma instituição segura como destino de seus acervos", aposta a gerente de bibliotecas, livro e leitura da FGM, Jane Palma.
Uma vez que o potencial doador de livros entre em contato com a gerência de bibliotecas da fundação, bibliotecários da FGM são enviados ao endereço indicado para avaliação dos livros em questão.
"Não recebemos material didático, nem livros específicos para carreiras, como direito e medicina", pontua Jane, lembrando que obras como essas ficam desatualizadas em pouco tempo. Após a visita técnica, a FGM envia ao doador um documento informando em quais livros a Fundação está interessada.
Núcleo do colecionador
No caso específico dos livros de Joca, o contato foi feito por um amigo da família. "Era um acervo fantástico de arte, história, literatura. Retiramos da casa dele cerca de 11.200 livros", conta Jane. A maior parte vai para as bibliotecas, mas um número estimado em torno de três mil exemplares de livros escritos por Joca deve formar um núcleo do colecionador em uma nova biblioteca, com local ainda a ser definido.
Na Fundação Pedro Calmon, o trabalho de recebimento dos livros e documentos é dividido em dois. A gerência técnica cuida das doações voluntárias e o Centro de Memória da Bahia sai em busca de acervos relevantes com algum risco de deterioração.
A busca ativa, como a mencionada pelo historiador Walter Silva, pode ajudar a salvar livros e documentos importantes e raros, desde que haja consentimento dos herdeiros legais. Uma intervenção sem a qual um material potencialmente relevante para a sociedade pode se deteriorar irreversivelmente.
Um exemplo é a experiência vivida pela fotógrafa Arlete Soares, que criou a Editora Corrupio especificamente para publicar no Brasil o trabalho do fotógrafo e etnólogo francês Pierre Verger, quando ele foi sistematicamente rejeitado pelas maiores editoras brasileiras.
Após a morte de Verger, em 1996, Arlete foi à casa do francês em Brotas e encontrou ratos em meio a livros raríssimos. "Quando eu conheci Verger, ele me mostrou livros que nem a Universidade de Paris e nem a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos têm", pontua Arlete.
A fotógrafa cita como exemplos de coleções importantes para a cultura brasileira as bibliotecas de Mestre Didi e Vivaldo Costa Lima. "Esses acervos, se não forem preservados, vão se acabar", declara a fotógrafa.