MUITO
Assembleia Geral Extraordinária
Crônica publicada na edição deste domingo, 4, da Revista Muito


Edifícios residenciais são organismos estranhos, que funcionam de forma um tanto caótica – essa era minha impressão difusa, antes da última reunião de condomínio a que compareci, admito que obrigada por meu pai, que veio até o prédio só para me ligar da portaria e se certificar que eu estaria presente. A prova disso é que assim que botei meus pés no salão de festas, ele se despediu da síndica com o sorriso mais largo do mundo e foi embora. Fiquei sem acreditar no que vi, mas asseguro que assim se deu o ocorrido. Gostaria de acrescentar ademais, que meu marido também estava ausente por motivos de trabalho, deixo ao leitor a possibilidade de acreditar nessa desculpa, ou não.
Pessoalmente, me considero uma condômina discreta e bastante educada com todos, e tirando, claro, alguns dias ruins em que estou de mau humor, de TPM, com azia, ou má digestão, sou uma pessoa legal e comunicativa e sempre dou bom dia, boa tarde e boa noite. De vez em quando, encontro quem pergunte como eu estou e respondo de bom grado, até retribuo a gentileza, pergunto sobre a pessoa, faço uma gracinha e tal. Tem um rapaz mais jovem com quem normalmente troco esse tipo de amenidades, por exemplo. Será que ele me acha atraente? Minha nossa, estou ficando uma velha assanhada e sem vergonha.
Pois bem, tem também aqueles dias de inspiração, quando encontro senhorinhas simpáticas com quem troco minhas impressões sobre o apartamento, o condomínio e o bairro, tudo sempre muito cortês e agradável, agora que eu virei uma mulher nova normal e não fujo mais das pessoas achando que posso transmitir alguma variante obscura de Covid ou qualquer outra doença que o valha. Mas, de uma maneira geral, devo admitir que os tipos de interação dependem muito mais dos humores alheios que dos meus. Tem gente, por exemplo, que só fala ou responde quando quer e tem gente que nunca fala, passa por você como se nada fosse. Tem gente que eu acho que até treina, sabia? Faz um esforço consciente para passar por todo mundo sem desejar um bom dia.
E eis que para minha total surpresa e deleite, pois normalmente não aparece tanta gente, todos esses personagens se juntaram em uma só reunião de condomínio, em um fim de tarde de sexta feira, em que eu preferia estar bebendo, mas tinha que me apresentar neste evento que, até então, julgava enfadonho. Ledo engano. Depois que meu querido pai me deixou quase sozinha com a síndica, condôminos e portadores de procurações como eu começaram a chegar e a se avolumar ao redor da mesa principal. Em pouco tempo, uma algazarra de vozes se formou e não perdeu mais intensidade, chegando a momentos de puro frisson. Eleição de síndico, aprovação de contas, gastos supérfluos e essenciais, INSS, FGTS e mais uns Ss, rede de esgoto, rede elétrica e de comunicações em geral foram alguns dos assuntos discutidos de uma pauta que tinha apenas três itens.
Imagino que todo condomínio tenha um personagem meio Inri Cristo, que fala como que imbuído de um senso maior que o de todos os outros presentes, independente de qualquer palavra de ordem, ou uma personagem que bate sempre na mesma tecla e nunca é ouvida, independente do quão importante sejam suas colocações. Deve ter também os cristãos novos, ouvi esse termo e me identifiquei, que chegam meio perdidos tentando pegar o fio da meada, coisa que nem sempre é fácil.
E como toda experiência educativa costuma ter seus graus de dificuldade, achei que esse exercício administrativo foi bastante frutífero. Cheguei inclusive à conclusão de que, mais que um organismo caótico, o prédio é uma empresa familiar, com todas as suas questões particulares e universais. Acrescento ainda que vou bater ponto na próxima reunião.