ABRE ASPAS
Dandara Ferreira: “A pandemia não acabou, simbolicamente, em nosso país”
De Gal Costa à CPI da Covid: Dandara Ferreira discute cinema, política e a memória da pandemia


Quando os números diários de mortos pelo coronavírus começaram a escalar drasticamente no Brasil e o Congresso Nacional instalou a CPI da Covid, a cineasta baiana Dandara Ferreira, radicada em São Paulo, decidiu que precisava registrar aquele momento histórico. Assim surgiu Anatomia do Caos, um documentário sobre as ações e inações que permitiram a morte de mais de 700 mil brasileiros.
Algo como se Feira de Santana e a vizinha São Gonçalo dos Campos sumissem do mapa em três anos. Filha do ex-ministro da Cultura Juca Ferreira, e soteropolitana convicta apesar de ter morado na cidade até os 13 anos, Dandara escolheu o 2 de Julho como data do lançamento nacional do filme.
Nesta entrevista, a cineasta comenta a experiência de produzir um documentário sobre a pandemia em tempo real e analisa os aspectos políticos de seu trabalho, incluindo as cinebiografias de Gal Costa (Meu nome é Gal), de 2023, e de Odair José (Vou tirar você desse lugar), que está sendo finalizado.
O período da pandemia trouxe várias situações surreais. Você lembra o que exatamente despertou o seu desejo de filmar Anatomia do Caos?
Lembro, sim. Boa pergunta. Foi ali no começo de 2021. Eu pensei em fazer algo quando o número de mortos só crescia. Eu estava em casa vendo TV, acabou o Big Brother e começou a passar a aprovação da CPI da Covid. Eu senti que o cinema, naquele momento, poderia dar uma voz ao povo brasileiro. Estava todo mundo sendo violentado de uma maneira cruel, e não poderíamos aceitar aquela banalização e nem neutralizar a crueldade. A minha arma naquele momento era, justamente, uma câmera. Quando o Congresso aprovou a CPI, eu sabia que tinha que registrar. Por ali iam passar muitas informações e tinha uma investigação em curso. Eu comecei filmando sem saber o que contaria. Tinha o desejo, mas não sabia exatamente que história seria essa. Até porque a história estava sendo contada enquanto eu estava filmando. Quando eu terminei de filmar, comecei a entender que filme seria esse.
Você estava em São Paulo. Começou a filmar algo por lá ou foi logo para Brasília?
Eu já comecei por Brasília, com a CPI. Tinha que acompanhar aquele momento ali, aquela comissão. Eu estava em casa esse tempo todo, 2020 eu passei inteiro em casa, sem encontrar amigos, familiares, nada. Totalmente em casa. Então, acho que a minha revolta era ainda maior. E falei com uma amiga produtora "cara, vamos filmar isso". Mas ela me disse que, como produtora, não tinha coragem de colocar uma equipe para filmar, não ia se responsabilizar por isso. Ali, no começo, ainda não tinha a vacina. Eu falei "eu vou", até porque para mim era um contexto mais fácil, tenho família em Brasília. Foi aí que eu comecei.
Você começa a filmar a CPI e tem todos aqueles personagens. Tem o responsável maior, que é o presidente, mas também tem pessoas ligadas à ciência e à medicina defendendo o uso da cloroquina, e você tem pessoas com uma responsabilidade maior com a sociedade contestando a postura do Governo. O que lhe deixou mais chocada naquele momento?
Acho que foi essa questão da postura de Bolsonaro, de zombar das pessoas que estavam com falta de ar, do negacionismo. E no decorrer também, que eu fui acompanhando, tinha ali um sistema de corrupção que a CPI conseguiu barrar. Enquanto tinha gente morrendo, tinha gente tentando lucrar, uma lógica capitalista. O que mais me revoltou foi tudo isso, a questão da insensibilidade. O deboche, a falta de empatia com as pessoas que estavam morrendo. Eu não acredito que seja admissível a postura que foi adotada pelos responsáveis. Não estou falando só de Bolsonaro. Estou falando de todas as pessoas que estavam ligadas a ele, gabinete paralelo, ministros, fazendo piada, rindo da morte e da agonia das pessoas que não estavam respirando. Eu escutei cenas de banalização da morte que são chocantes, e naturalizar o que aconteceu acho que é se rebaixar ao nível do insuportável do valor da vida.
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Teve também o uso de dados falsos para apoiar o discurso...
Isso. A imprensa fez um papel crucial naquela época. Inclusive quem narra o meu filme é a imprensa. Não tem um narrador, não sou eu narrando, até porque justamente naquele momento quem teve o papel importante de contar essa história foi a imprensa. Os números eram forjados, a gente estava em um caos. Por isso, o nome do filme é esse, Anatomia do Caos. A gente estava sem saber de nada. E com um presidente, a autoridade máxima, que não tinha nenhum respeito à vida.
E foram veículos de imprensa que fizeram um pool para catar as informações em cada estado e emitir diariamente um balanço...
Isso, exatamente. A imprensa foi importante para a gente saber realmente o que estava acontecendo.
Cinco anos desde a instalação da CPI e até agora ninguém foi responsabilizado...
O filme é justamente sobre isso... eu não acho que deu em pizza. A CPI acelerou a vacinação, paralisou o sistema de corrupção que eu mencionei. E se eu fosse da Suprema Corte puniria Bolsonaro, seus colaboradores do gabinete paralelo, etc., por esse crime monstruoso com penas ainda maiores do que as punições por tentativa de golpe. Como presidente, ele decretou e legitimou a morte de brasileiros. E eu não conheço nenhum desrespeito à vida mais grave do que esse, a banalização do mal.
O trabalho da CPI foi produzir o registro. O que as instituições fizeram ou deixaram de fazer com esse registro eu acho que é uma outra discussão. Ah, mas ninguém foi preso... o final do filme fala um pouco disso. A CPI produziu um relatório extenso, indiciou dezenas de pessoas, mas a responsabilização jurídica depende de outras instituições, como o Ministério Público e o Judiciário. E acho também que o fato de não ter havido punição faz com que a investigação tenha sido irrelevante. Nem sempre existe uma relação direta entre a gravidade de um acontecimento e a velocidade da responsabilização.
Vale a gente refletir por que uma tragédia dessa magnitude produziu tão pouca responsabilização. Acho que essa história ainda não terminou e o filme pode ajudar a trazer essa discussão.
A adesão ao uso de máscaras durante a pandemia atingiu 70% da população e extrapolou a questão ideológica. Você acha que hoje em dia as pessoas ainda lembram da gravidade daquele momento? É um debate que ainda está presente na sociedade?
Tem uma coisa de as pessoas tentarem esquecer um pouco daquele período, porque foi muito difícil, foi um trauma coletivo. É difícil a gente ficar acessando os nossos traumas. Mas, ao mesmo tempo, a pandemia não acabou, simbolicamente, em nosso país. Foram centenas de milhares de mortos, famílias destruídas, ninguém foi punido.
Penso que tem um pouco a ver com isso e que, de alguma forma, o filme também dialoga com nosso presente, porque também traz essa questão da desinformação. O Brasil sempre foi referência em vacinação e depois se reduziu muito a questão da vacina porque as pessoas ficaram inseguras com a vacina, muito por causa do serviço que Bolsonaro fez nessa época. Tem a questão da fragilidade da democracia. São todos assuntos atuais.
O filme está sendo lançado no dia 2 de Julho...
É... não foi aleatório. Foi pensado. Essa é uma pergunta que só a gente da Bahia faz. Ninguém me perguntou até hoje. Eu, como baiana, cresci entendendo que o 2 de Julho é uma data de resistência, quando a Bahia celebra a expulsão definitiva das tropas portuguesas, com uma participação importante do povo.
Quando a gente pensa na pandemia, pensa em uma história construída por pessoas comuns, profissionais de saúde, frentistas, familiares das vítimas, jornalistas, movimento social. Os brasileiros que resistiram diante de uma das nossas maiores tragédias da nossa história atual. A data, para mim, simboliza uma sociedade que não aceita o esquecimento e continua lutando para que a verdade prevaleça.
Tudo é política. Mas o seu filme chega às telas três meses antes da eleição, sendo que a extrema-direita pretende lançar um filme sobre Bolsonaro, que teve toda essa questão com Daniel Vorcaro. Você teme que seu filme seja julgado a partir disso?
Esse filme era para ter ficado pronto antes, na verdade. Era para ter sido lançado no ano passado. Mas não ficou pronto e está sendo lançado justamente no período da pré-campanha. Sobre o filme deles, eu vi uma coisa ou outra, mas acho que não tem muita relação. O outro tem uma questão de uma propaganda eleitoral, foi um filme caro. O meu é um registro de atividades no Senado, de utilidade pública. Não vejo muito paralelo, mas é claro que a gente vive em um momento do país dividido.
Claro que as pessoas podem olhar com esse viés. Quando eu soube do filme deles, achei que ia ficar parecendo um filme de um lado e um filme de outro. Mas nunca foi minha intenção. O meu filme traz Bolsonaro como figura central porque no momento ele ocupava a presidência durante a crise sanitária, mas o filme não é sobre ele. É sobre um país, sobre estrutura de poder, vulnerabilidade coletiva e políticas que atravessam corpos.
Música. No ano passado você lançou o filme Vou tirar você desse lugar e anos antes lançou Meu nome é Gal. Fale dos filmes e de sua ligação com a música, por favor.
O filme de Odair José ainda não foi lançado, mas participou do Festival do Rio e da Mostra de São Paulo. Deve ser lançado no segundo semestre. É um filme que eu, particularmente, gosto muito. Odair é um cara que nem todo mundo conhece. O filme pode trazer essa coisa de mostrar às novas gerações essa figura contestadora.
Odair é uma figura política também. O recorte é muito sobre isso, o período dos anos 60 e 70. Quando a gente fala em música de protesto, a gente acaba se referindo a uma elite cultural, Caetano, Chico, e a gente esquece de outros personagens que foram importantes. Odair era importante nas camadas populares que essa turma não acessava tanto. Querendo ou não, meus três filmes têm uma relação com a política. Tudo é política.


