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Dia do Fusca reúne histórias de paixão que atravessam gerações

Colecionadores, famílias e admiradores celebram o carro que marcou a vida de milhões de brasileiros

Gilson Jorge
Por Gilson Jorge
Fusca 1995: modelo com 24 anos
Fusca 1995: modelo com 24 anos - Foto: Divulgação

Aos seis anos de idade, quando ainda morava no Rio de Janeiro, o empresário Jorge Cirne entrou sozinho no Fusca de seu pai e ligou o motor do carro. O veículo começou a se mover em baixa velocidade e precipitou-se em uma ribanceira.

O pequeno motorista pulou do automóvel a tempo, evitando uma tragédia. Longe de deixar traumas, o incidente foi a primeira das muitas histórias que o empreendedor guarda do tipo "Se meu Fusca falasse".

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Jorge é um dos principais colecionadores de carros antigos da Bahia e dedica uma atenção especial ao modelo que se tornou xodó de todo o País. "O Fusca mais antigo do Brasil está comigo, um 1949", comemora o empresário, um dos 109 sócios do Clube do Fusca da Bahia. Todas as terças, no início da noite, o grupo se reúne no Posto Shell II, na Avenida Paralela.

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A semana que vem será uma exceção, por conta do feriado, quando quase todo mundo vai para o interior. E, curiosamente, no 22 de junho, véspera da noite de São João, comemora-se o Dia Mundial do Fusca.

Foi nessa data, em 1934, que o engenheiro alemão Ferdinand Porsche assinou contrato com o governo de Adolf Hitler para o desenvolvimento de um veículo acessível à maioria da população. Volkswagen, em alemão, significa carro do povo.

No Brasil, o carro do povo se fez presente a partir da década de 1950, depois que Getúlio Vargas restringiu a importação de veículos e a Alemanha, já livre do nazismo e buscando se recuperar economicamente da guerra, trouxe ao País uma fábrica.

Poucos anos depois, quando ainda era adolescente, Jorge Cirne foi trabalhar em uma empresa de locação de veículos, que prestava serviço à Petrobras, instituída pelo mesmo Vargas sob o lema "O Petróleo é nosso". A locadora tinha uma frota inteira de Fuscas, cujos motores o jovem Jorge aprendeu a consertar.

Foi a busca por motores de Fusca que o levou a comprar no Mercado Livre, por acaso, um exemplar produzido na Alemanha, em 1949, antes que Vargas restringisse a importação. Ao conversar com um homem que pôs à venda um motor de 1.600 cilindradas, Jorge descobriu que o vendedor tinha o carro mas, mesmo precisando de dinheiro, não queria vendê-lo. Dez meses depois, o empresário acabou adquirindo o veículo em um leilão.

O carro estava detonado e não se encontravam mais peças originais. Um amigo que morava na Alemanha avisou a Jorge que conhecia um vendedor de peças lá. O empresário não teve dúvidas e se mandou para a Europa.

"Peguei um avião e fui. Disse a minha mulher que queria conhecer a Alemanha, fui para lá e comprei tudo, velocímetro, tudo. Levei alguns anos restaurando esse carro", conta o empresário, que possui um outro Fusca, 77, batizado de Itamar, em homenagem ao ex-presidente Itamar Franco, que em seu mandato conseguiu que a Volkswagen voltasse a produzir o carro, que havia saído de linha. A nova fase do Fusca saindo de fábrica durou só três anos.

Mas por que tantos brasileiros são fãs desse "besourinho", que em 1970 foi dado de presente pelo prefeito de São Paulo aos jogadores e comissão técnica da Seleção Brasileira, após a conquista do tricampeonato no México?

Um dos motivos é a questão afetiva. Quase toda uma geração com mais de 60 anos que não era rica viveu momentos em família a bordo de um Fusca ou de outros veículos populares da VW, como Brasília, Variant II e Kombi, todos com motores a ar. Carros que muitas vezes são dados aos filhos como relíquia familiar, mesmo que os donos tenham outros carros, às vezes luxuosos, para usar no dia a dia.

O comerciário Emerson Sena lembra com saudades dos passeios pela orla soteropolitana com a namorada, que virou esposa, a bordo de um Fusca. E de namorar ao pôr do Sol em Humaitá, no Alto de Ondina, no Farol da Barra ou no Jardim dos Namorados, sem medo de assaltos. "A gente saía muito. Hoje, não consegue tanto por causa da violência", afirma o comerciante.

Emerson tem dois Fuscas, um 64 bege-areia comprado por seu pai e que ele ajudava a lavar e a cuidar durante a sua infância, que permanecerá com ele. "É um carro que faz parte da história de minha família, do meu tempo de Exército, dos 15 anos de minha irmã", destaca Emerson. Mas um outro modelo que ele comprou, um Fusca 77 verde-ilhéus, em breve será repassado ao filho adolescente.

O Clube do Fusca da Bahia foi fundado em 1º de agosto de 1992. "O clube começou com uma reunião entre amigos, em uma garagem", lembra o presidente da entidade, o vendedor de carros Luiz Eduardo Leite, ao declarar que desde o primeiro encontro a paixão do grupo pelo Fusca só faz crescer.

E o encontro semanal não se limita aos homens proprietários dos carros que herdaram de seus pais. Na última terça-feira, aconteceu a Resenhá Junina do CFB com famílias inteiras sentadas na área externa do posto, em meio a veículos que remetiam aos anos 60 e 70, comendo e bebendo as delícias típicas do São João e ignorando a partida entre Iraque e Noruega, pela Copa do Mundo, exibida no televisor de uma loja de conveniências.

Mas apesar de ninguém dar bola para o futebol, havia aficionados pelo Fusca e familiares vestindo a camisa da Seleção Canarinho. Afinal, o Fusca é uma paixão nacional comparável ao futebol.

E o amor pelo automóvel é tão grande que os associados participam de eventos em diversas cidades. Em julho, a turma viaja para Conceição do Coité, para o Encontro de Carros Antigos, e em novembro o estacionamento é em Aracaju, para o Encontro Nordestino de Fuscas.

"Hoje, o Fusca é um hobby. O segundo ou terceiro carro da família. Eu tenho um Fusca e minha filha de 12 anos é apaixonada por ele", afirma Luiz, indicando que as chaves do seu querido automóvel um dia vão parar nas mãos dela.

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