Busca interna do iBahia
HOME > MUITO

ABRE ASPAS

Luiz Mott: "É melhor chamar Xica Manicongo de a primeira transexual do Brasil”

Quem foi Xica Manicongo? A fascinante história da congolesa que desafiou o século 16

Gilson Jorge
Por Gilson Jorge
Retrato falado de Xica Manicongo feito pelo Dr. Luiz Mott
Retrato falado de Xica Manicongo feito pelo Dr. Luiz Mott - Foto: Prof. Dr. Luiz Mott | Reprodução

Em plena Inquisição, no final do século 16, um português que morava em Salvador recebeu a visita de um representante do Santo Ofício e, pressionado a delatar pessoas sexualmente dissidentes, sob pena de ser ele mesmo perseguido pela Igreja, acusou um negro escravizado de transar com outros homens. Francisco Manicongo, o acusado, vestia-se de forma diferente, segundo a delação feita pelo português, que havia morado na região de Congo e Angola e identificou nas vestimentas do congolês algo que poderia ofender o catolicismo.

Em suas pesquisas com os documentos da Inquisição, o antropólogo e professor da Ufba, Luiz Mott, identificou 29 linhas sobre o congolês. O confronto com outras fontes resultou no livro Xica Manicongo, primeira transexual do Brasil, editado pela editora Cosac. Nesta entrevista, o autor explica o que se sabe sobre a personagem que virou ícone das travestis e dos transexuais.

Tudo sobre Muito em primeira mão! Compartilhar no Whatsapp Entre no canal do WhatsApp.

O senhor trouxe à luz a história de Francisco Manicongo. Quando consultou os documentos do Santo Ofício sobre a Bahia, já tinha em mente a procura por registros de travestis ou de somítigos [variante de sodomitas], como se chamavam os negros homossexuais na época? Como foi o processo de pesquisa?

Desde que eu me assumi homossexual, ainda nos anos 70, eu achei que era fundamental documentar a nossa história, a história da tribo LGBT, na época a palavra homossexual, ou gay, incluía toda essa sopa de letrinhas. Comecei a pesquisar nos arquivos, na pouca bibliografia disponível, e encontrei um livro sobre a visita do Santo Ofício à Bahia, em 1591, e lá vi algumas linhas que denunciavam Francisco Manicongo como sendo quimbanda [sacerdotisa do Reino do Congo] e que era somítigo, que transava com outros negros. A partir daí, eu fui à Torre do Tombo, localizei muitos documentos sobre outros sodomitas e alguns inclusive se travestiam. A partir daí, consegui mais de 500 processos sobre dissidentes sexuais.

Os sodomitas eram chamados de filhos da dissidência, desde o século 16. A palavra dissidente, portanto, tem um histórico para denominar os homossexuais. E a partir daí eu escrevi um livro, o Dicionário biográfico dos homossexuais da Bahia do século 16 ao século 19. Entre as 200 pequenas biografias que eu consegui levantar, só na Bahia, consta Francisco Manicongo, que na época eu chamei de um travesti, o primeiro da história do Brasil. E um homossexual corajoso. E era usado no masculino.

Somente em 2010 que uma travesti militante do Rio de Janeiro, Marjorie Marchi, rebatizou o Francisco, chamando de Xica Manicongo. Eu achei interessante porque essa personagem foi apropriada pelo movimento das travestis e transexuais e foi até carnavalizada como tema de escola de samba, tornou-se um encantando em um terreiro de quimbanda, em São Paulo, de modo que essa apropriação pela tribo de travestis e transsexuais é bem-vinda. Agora, eu distingo bem. Agora, eu distingo bem. Há o conteúdo histórico, que se baseia em 29 linhas e se refere a Francisco Manicongo, e há as músicas, gravuras, cordéis, peças de teatro, certamente um filme próximo, que têm a liberdade poética de carnavalizar essa personagem.

Francisco foi denunciado por um português que compreendia o seu dialeto e que, pressionado pela Inquisição, apontou o dedo para ele. Pode-se dizer que se não fosse a delação ele teria um convívio tranquilo entre os escravizados no que diz respeito à sua sexualidade?

Francisco Manicongo, ou Xica Monicongo, como eu disse, só é documentado nesse livro da visita do Santo Ofício. Nenhum autor o tinha citado antes de mim, não por censura ou cancelamento, mas porque ninguém tinha prestado atenção. E sobretudo foi uma denúncia tão superficial que a própria Inquisição ignorou. O visitador Heitor Furtado de Mendonça ignorou, porque era apenas um denunciante e não havia prova do crime cometido, havia apenas o "de vista", que ele transava com outros negros e que ele usava uma roupa típica das feiticeiras, como eram chamadas, ou das sacerdotisas do Congo e Angola, que tinha uma espécie de abertura na frente. E que o denunciante, que morava no Colégio dos Jesuítas, disse ter morado muitos anos em Angola e conhecia.

A descrição que o missionário Antonio Carvasi, capuchinho italiano, e o oficial português Cadornega, era muito semelhante, o que comprova que era verdade, não era invenção de turista, que era um grupo, uma quadrilha de feiticeiros, muito respeitada, que eram como mulher, raspavam os pelos, usavam trajes típicos de sacerdotisa, transavam entre si, portanto, eram homoeróticos, eram uma deusa da água, uma divindade superior, e que todos temiam, muito.

De modo que a descoberta desse documento deu visibilidade a essa personagem e, ilustrado com a documentação de outras fontes, me permitiu escrever o livro Xica Manicongo, a primeira transexual do Brasil, um livro de 250 páginas. Inicialmente, eu considerei que era um travesti. Mas após aprofundar a pesquisa nesse livro eu concluo e comprovo que é melhor chamá-la a primeira transexual. Essa história de primeira transexual não-indígena é besteira, porque não há qualquer informação sobre transgêneros, de homem para mulher, entre os indígenas.

Leia Também:

BELEZA PURA

De britas de rua a gemas raras: conheça os baianos que dedicam a vida a colecionar rochas e minerais raros
De britas de rua a gemas raras: conheça os baianos que dedicam a vida a colecionar rochas e minerais raros imagem

MUITO

A saga do idoso que trocou o interior por Salvador e se recusa a ir para academia
A saga do idoso que trocou o interior por Salvador e se recusa a ir para academia imagem

AMOR E RIVALIDADE

Casais BaVi contam como o amor vence a provocação e dita as regras da casa
Casais BaVi contam como o amor vence a provocação e dita as regras da casa imagem

Os congoleses escravizados que vieram para Salvador construíram, juntamente com os angolanos, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e fundaram a irmandade. Seu livro traz informações sobre a relação de Francisco com a comunidade religiosa?

A Igreja e as irmandades de negros, entre elas as do Congo e Angola, Guiné e outras etnias da costa da África, são documentadas sobretudo a partir do Século 18. E Xica ainda era Século 16, não há qualquer referência sobre o grau de prática religiosa dela. A não ser o fato de ter um nome cristão, católico, o nome de São Francisco. Como, aliás, havia um rei no começo do século 16, lá no Congo, que se chamava Francisco Manicongo. Não se sabe se Xica foi batizada lá ou aqui. Em 1591, quando ela estava morando na Ladeira da Misericórdia, já existia no Congo uma catedral, a capital do Congo passou a se chamar São Salvador, igual a aqui. O que se sabe é que ela não era chamada nem de Xica nem de Francisca, isso é carnavalização.

No Congo, havia a figura das quimbandas, pessoas biologicamente masculinas que eram criadas como sacerdotisas. É possível afirmar que o Congo daquele período oferecia mais liberdade sexual do que boa parte das atuais sociedades africanas?

A sexualidade no continente africano é muito variada. Há povos que são ultraliberais, onde nem há a questão da virgindade e ignoram a nossa repressão judaico-cristã. Outros países são também muito repressivos. Por exemplo, na Nigéria, em algumas culturas, as mães examinam a vagina das adolescentes para saber se elas ainda são virgens. Em outras, ensinam a ter prazer, inclusive com massagens vaginais, aumentando os lábios vaginais. Há tribos onde havia prostituição.

Em outras, muitas praticavam a circuncisão feminina. A masculina é generalizada. Grande parte dos africanos que vieram para o Brasil era circuncidada. E a circuncisão feminina, chamada de clitoridectomia ou infibulação, era também muito comum. É possível que muitas escravizadas tenham chegado aqui mutiladas. Há informação de que ainda no final do século 19 tinha a Casa de São Bento, onde se fazia o corte do clitóris.

Pelo visto, o fato de existir um grupo de feiticeiros e sacerdotisas que eram assumidamente homoeróticos, que transavam com homens, que se travestiam, que tiravam os pelos do corpo e tinham um estilo de vida do gênero feminino, permite dizer que havia mais tolerância do que no ocidente cristão ou no oriente muçulmano. E a existência no panteão da Nigéria, do Daomé, dos orixás, de alguns deuses que eram hermafroditas, metade do ano homem, metade mulher, pode-se concluir que havia um maior jogo de cintura em relação aos papéis de gênero e à sexualidade do que no ocidente.

O sobrenome Manicongo indica uma ligação ainda que remota de Francisco com a realeza de sua nação, o que não sabemos se era verdadeira ou foi um subterfúgio que ele usou na tentativa de obter alguma proteção. O senhor arrisca um palpite?

Como eu digo no meu livro, o termo manicongo significa rei do Congo ou senhor do Congo. Como o mani também era usado para outras regiões. Manikwanza era o senhor de Kwanza, uma província de Angola. Eu não encontrei referência a nenhum ou nenhuma manicongo no Brasil, na documentação. E consultando diversos africanistas também não. Encontrei outros habitantes escravizados do Congo nomeados Congo simplesmente, de Congo ou então Muxicongo. Eu consultei outros historiadores e eles concordam que, certamente, Francisco Manicongo era membro da família real.

Agora, não necessariamente filho do rei do Congo ou um príncipe muito próximo que morasse no palácio. Como os reis do Congo e os nobres eram poligâmicos, ele podia ser um sobrinho ou um neto que, quando começou a ficar difícil prender congoleses para serem enviados como escravos, os traficantes africanos passaram a raptar até membros da família real. Mas há a hipótese de que ele tenha se apresentado como Manicongo para se enaltecer.

Recentemente, a comunidade LGBTQIA+ batizou Francisco de Xica, e ela, a primeira travesti não-indígena conhecida no Brasil, foi tema do desfile da Paraíso do Tuiuti no ano passado. Qual o tamanho da importância de Xica Manicongo?

Desde que há 30 anos eu divulguei a pequena biografia de Francisco Manicongo, identificado como o primeiro travesti do Brasil, cresceu muito a divulgação e a produção cultural e política usando Xica Manicongo. É nome de rua em São Paulo, quilombo, peça teatral, eu acabo de lançar um livro pela Cosac, uma excelente editora de São Paulo, já tem o roteiro de um filme. O desfile da Paraíso da Tuiuti foi visto por 100 milhões de brasileiros que veem os desfiles de escolas de samba, e outro tanto internacionalmente. De maneira que ela passou a ser uma traviarca, uma matriarca transexual.

O próprio autor do samba-enredo disse que quando ele escreveu a letra, que foi cantada na Sapucaí, ele estava incorporado pelo espírito da Xica Manicongo. Depois que houve a denúncia, o inquisidor não se interessou por ela, não aconteceu nada com ela e ela se perdeu na história. Certamente, não vai se encontrar nenhum manuscrito sobre a existência de Francisco Manicongo. Mas já pertence à história como um ícone de luta pela cidadania, pelo direito à travestilidade, à transexualidade e o direito à identidade de gênero.

Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia. Google Noticias Siga o A TARDE no Google Noticias

Compartilhe essa notícia com seus amigos

Compartilhar no Whatsapp Compartilhar no Facebook Compartilhar no Email

Tags

Xica Manicongo

Relacionadas

Mais lidas