CRÔNICA
Sayuri e a arte dos encontros que desaceleram o tempo
A delicadeza e o afeto no novo texto de Evanilton Gonçalves


Ela vem de longe, passou por muitos lugares. Caminha entre o vai e vem da vida. Encontra um banco de praça, desses raros, seguros e silenciosos. Não há cansaço físico em seu corpo. Não agora. Ao seu redor, o farfalhar de um verde acolhedor. As árvores brincando com o vento em plena tarde. Ela remove as gotículas de chuva de outrora. Seu rosto está menos molhado agora. Não mais um tomatinho.
Recuperou sua cor natural. É junho. O frio tenta se apoderar de suas mãos. Sentada com sua sandália de oncinha, calça azul e blusa branca com um caranguejinho vermelho bordado na altura do peito, ela recebe o vento que ondula ainda mais seus cabelos pretos, cujas mechas brancas e charmosas lhe dão um toque especial. Seu corpo marcante e poderoso recebe o abraço amoroso de alguém que a estima. Que sou eu, nesse caso.
Ela é imponente, e eu desejo que ela descanse a cabeça sobre meus joelhos enquanto faço carinho em seu cabelo. Sou um homem carinhoso. Gosto de afago. E então as sobrancelhas dela desenham o espanto. Mas é possível, real, concreto. As crianças que habitam o interior de nosso ser acenam para o nosso eu adulto nesse instante. Não somos fortes o tempo todo. Nem precisamos ser. O abraço também é colo e aquece.
Noto que os pelinhos de seus braços se arrepiam. Da folha grande e verde cai uma gotinha de água que a terra absorve. Ela acentua no ar o cheiro de terra molhada. Essa água invisível aos nossos olhos alimenta agora as raízes das plantas e retornará no futuro para saciar a nossa sede. Nem sempre é possível compreender os mecanismos da vida. Nossas mãos unidas formam um abrigo contra o frio. Estamos no pomar. Cadê as frutas, eu lhe pergunto. E então ela dá uma risada gostosa diante das coisas inusitadas da vida. Uma das coisas mais bonitas neste mundo é o seu sorriso. Eu o admiro com o fascínio de quem é surpreendido e aquecido por um raio dourado de sol que desceu por entre as nuvens para me encontrar.
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Nossas palavras atravessam as camadas do tempo com a coragem e a tranquilidade de uma sabedoria milenar. Ela observa a paisagem e parece encontrar aquilo que procura. Então se levanta e me estende a mão. Não faz um movimento brusco. Já entendeu que devagar também se chega. Ela tem a iniciativa de me dar um beijo, um beijo que presentifica no mundo a existência do sossego. É bom ter a sua companhia. Queria que ela nunca esquecesse disso. Estamos rodeados pela natureza. Somos a natureza. Estou zen e feliz. Ela sente o aroma que brota da alegria de viver. A ternura também faz parte de seus gestos. Ela arrisca um passo incerto (como o é todo passo nessa vida), que abre caminho naquela direção desejada e desconhecida. Estou ao seu lado. Sim, como é bom estar ao seu lado. O tempo abriu. Agora o céu está muito limpo.
No chão, a água da chuva formou espelhos mágicos que revelam o tom azul entre as pequeninas nuvens brancas. Em um deles, ao se aproximar com curiosidade, ela vê refletido, como se fosse algo simples, um pequeno lírio que floresce. Lembra de seu nome de origem japonesa com seu significado delicado e poético. Eu repito seu nome para captar a beleza de sua sonoridade: Sayuri.
Como é bonito, penso. E digo. Ela me olha com seus olhos arredondados e expressivos. De sua boca, vem o sorriso como um raio de sol. Então repito tranquilamente seu nome como um mantra. Assim invoco a elegância e a delicadeza que a constitui. Com todo sorriso e com todo olhar, ela me vê e enxerga a luz que irradia de seu próprio rosto, com amor, com sincero amor.
*É autor de Ladeira da Preguiça (Todavia)


