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"É difícil falar de machismo sem considerar o racismo", diz educador

Especialista escancara os riscos do avanço da misoginia entre os jovens

Pedro Resende
Por Pedro Resende

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"Todo homem carrega algum traço de machismo, por mais desconstruído que seja", alerta sexólogo
"Todo homem carrega algum traço de machismo, por mais desconstruído que seja", alerta sexólogo - Foto: Raphael Muller | Ag. A TARDE

Para o sexólogo carioca Januário Mourão, o que sustenta o machismo é justamente o que passa despercebido todos os dias. Morador de Salvador há 14 anos, o educador é idealizador do Antimachista Social Club, iniciativa que propõe tirar o debate sobre misoginia do campo das ideias e levá-lo à prática por meio de encontros online e presenciais, abertos ao público.

Nesta entrevista, Januário defende a reeducação coletiva e alerta para a disseminação de discursos machistas entre jovens, além de destacar a importância de envolver homens nesse processo.

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O que, pessoalmente, lhe mobilizou a tirar essa ideia dos encontros do campo da reflexão e colocá-la em prática?

Eu já tinha uma atuação como sexólogo, mas minha formação é como professor. Dei aula de anatomia humana durante muitos anos na universidade, em cursos como medicina e terapia, e por curiosidade dos alunos percebi que havia muitas dúvidas em relação à sexologia. Então pensei: vou me especializar nessa área e começar a tratar desse assunto. Ao longo do tempo, fui percebendo que a sexologia é muito mais complexa do que apenas o sexo biológico ou o ato sexual em si. Ela envolve toda a sexualidade humana, incluindo bloqueios, traumas, medos, vergonha e hábitos. Notei que muitas dessas questões tinham origem nos homens, e comecei a estudar mais a fundo o machismo e o patriarcado, acompanhando também o que aparecia nas notícias, já que o patriarcado é uma estrutura secular, existente há muitos séculos, e não algo novo.

O que acontece é que ele ganhou mais evidência recentemente, principalmente porque os casos de violência aumentaram, assim como as denúncias e os canais para denunciá-las, trazendo o tema mais à tona. Meu interesse pela área surgiu justamente dessa observação: muitos bloqueios, especialmente entre mulheres, estão ligados a mitos, vergonha e até questões como traição, muitas vezes relacionadas aos homens, que também são vítimas do machismo. É possível observar o machismo inclusive dentro da comunidade LGBT, ou seja, ele está presente na sociedade como um todo. Embora seja comum ouvir que “nem todo homem”, a verdade é que todo homem carrega algum traço de machismo, por mais desconstruído que seja, e isso também pode ser visto em mulheres e em diferentes grupos sociais.

Como o encontro se traduz na prática?

Eu acredito que é preciso abrir várias frentes no combate ao machismo: a legislação precisa ser mais dura, as penas mais rigorosas, mas também existe um trabalho educacional fundamental. A sociedade como um todo, seja homens, mulheres, todos nós, precisa passar por um processo de reeducação. E, além disso, é essencial investir fortemente nos jovens, porque temos uma geração que está crescendo com acesso à chamada machosfera, a movimentos como Red Pill [corrente online que afirma “revelar verdades” sobre relações de gênero, mas frequentemente promove visões misóginas e distorcidas sobre mulheres e sociedade], Incel [comunidade online de homens que se definem como “celibatários involuntários” e, em muitos casos, expressam frustração afetiva e visões misóginas sobre mulheres e relacionamentos] e outros que são bastante perigosos.

Como homem, entendo que é importante me posicionar, não apenas por ser pai de duas meninas, casado ou filho de uma mulher, mas porque essa é uma responsabilidade dos próprios homens. É curioso perceber que muitos dos grandes movimentos são liderados por mulheres, enquanto os homens nem sempre participam diretamente. Por isso, meu interesse não é apenas reeducar homens, mas construir um pensamento coletivo, envolvendo todos. Mesmo me considerando desconstruído, reconheço que venho de uma formação machista muito forte e continuo aprendendo, me reeducando constantemente. Por isso, vejo esse movimento como algo que precisa estar centrado na reeducação, no debate e na construção de diálogo com os homens e com a sociedade como um todo.

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Sobre o movimento Red Pill, houve um aumento significativo nas buscas por conteúdos associados a este universo na internet. Como você interpreta esse fenômeno e que riscos ele representa para o debate sobre masculinidades?

A preocupação com esses movimentos está, principalmente, no alcance que eles têm hoje. Esses discursos sempre existiram, não são novos, mas antes não contavam com os mesmos veículos de disseminação que existem atualmente, como as redes sociais e os cursos online, que ampliam muito esse alcance. O que me preocupa é a capacidade de propagação do conteúdo Red Pill aliada à falta de filtro. Com o crescimento da internet, passamos a ter muito mais informação disponível, tanto boa quanto ruim, mas as pessoas, de modo geral, não estão preparadas para filtrar esse conteúdo. Isso fica evidente quando vemos jovens validando discursos misóginos. Recentemente, por exemplo, surgiram dados mostrando que milhões de homens acessaram conteúdos ligados à chamada “academia do estupro”, que ensina práticas criminosas como dopar e estuprar uma parceira, o que é extremamente grave.

Você acredita que esse crescimento de conteúdos misóginos está diretamente ligado a uma crise de identidade masculina?

O grande problema está em uma crise de identidade que o homem sempre teve. Essa necessidade de se afirmar como “macho”, de sustentar um determinado perfil, é algo construído pelo patriarcado e pelo machismo, que impõem ao homem a ideia de que ele precisa ser dominante o tempo todo. Quando ele encontra validação em discursos misóginos, sexistas e machistas, acaba se identificando e seguindo esse caminho. Sempre foi um tema difícil para os homens, especialmente por conta do que se chama de masculinidade frágil, essa necessidade constante de autoafirmação, seja pela virilidade, pelo tamanho do pênis, ou até por comportamentos e símbolos, como evitar certas roupas ou cores associadas ao feminino. Com o crescimento desses movimentos na internet e a atuação de influenciadores, essas ideias acabam ganhando força e, em alguns casos, se tornam quase como uma espécie de crença.

Recentemente, o ator Juliano Cazarré anunciou um encontro voltado para homens, com uma abordagem mais conservadora de gênero. O que pensa desse tipo de iniciativa no cenário atual?

Olha, isso me preocupa muito, porque não há uma necessidade real desse tipo de movimento. Quando você reúne grupos como esses, você acaba juntando pessoas que pensam de forma semelhante, ou que buscam pensar igual, muitas vezes para validar um pensamento que, no fundo, sabem que é problemático. Os homens acabam se apoiando mutuamente nesse tipo de discurso. O que é mais perigoso é o alcance que o machismo está ganhando. Ainda assim, não é algo novo: são ideias baseadas nessa noção de masculinidade que impõe que o homem precisa ser viril, provedor, e que a mulher não deve ocupar certos espaços. Isso aparece em diferentes dimensões da vida, dentro de casa, nas relações de trabalho e até nas relações sexuais. No fim, vejo isso como mais uma forma de autoafirmação masculina, uma tentativa de “ensinar” o que é ser homem, quando, na verdade, esse conceito é profundamente patriarcal e bastante antigo.

Eu não estou falando especificamente de religião, mas esse discurso de “Deus, família” e essa lógica mais conservadora acabam colocando a mulher em um papel cada vez mais submisso, o que é muito perigoso. Isso também tem relação com o avanço de um ambiente mais conservador no Brasil, e independentemente de viés político, é um fato. Dados recentes mostram, por exemplo, que uma parcela significativa das mulheres que sofreram violência doméstica está em contextos religiosos. Cerca de 44% são evangélicas e 38% são católicas. E aqui não se trata apenas de violência física, mas também de outras formas de violência, como a patrimonial e a psicológica. Existe uma percepção equivocada de que o homem não é machista apenas porque não agride fisicamente, mas há muitas outras formas de violência. Esses comportamentos podem escalar para situações mais graves, como a violência física e até o feminicídio, mas começam muitas vezes de forma sutil e naturalizada dentro da sociedade.

Por que é importante que esse debate saia do ambiente digital e ganhe corpo em encontros físicos?

Eu acho isso importante porque muitas pessoas se sentem mais à vontade para falar presencialmente. A proposta do Antimachista Social Club, na verdade, envolve dois formatos: teremos encontros online e presenciais. Nos encontros online, a ideia é reunir diferentes grupos que são afetados pelo machismo, como a comunidade LGBT, mulheres, pessoas da cultura e pessoas negras, que também vivenciam esse atravessamento de forma muito forte. É difícil, inclusive, falar de machismo sem considerar o racismo, porque são questões que estão profundamente interligadas.

Já os encontros presenciais terão um foco maior no diálogo direto, especialmente com homens e jovens, que considero fundamentais nesse processo. Teremos um formato chamado “laboratório antimachista”, que busca criar espaços de conversa real, rodas de diálogo abertas, com participação de homens e mulheres, para discutir essas questões de forma mais direta e coletiva. [Mais informações sobre a agenda de encontros no site antimachistasocialclub.com.br]

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