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Embaixador critica: “A polícia age diferente quando o jovem é negro"

Primeiro negro a chefiar embaixada na Europa, Sílvio Albuquerque desmonta mitos do racismo

Gilson Jorge

Por Gilson Jorge

30/11/2025 - 0:56 h
Sílvio Albuquerque veio a Salvador lançar o seu livro Cidadanias Mutiladas
Sílvio Albuquerque veio a Salvador lançar o seu livro Cidadanias Mutiladas -

Em maio deste ano o diplomata Sílvio Albuquerque assumiu a Embaixada do Brasil na Bélgica e se tornou o primeiro negro a liderar uma missão diplomática nacional na Europa.

Um feito marcante para esse niteroiense com coração baiano – casado com a jornalista soteropolitana Ludmila Duarte – que ao ingressar no Itamaraty em 1986 encontrou basicamente homens brancos como colegas.

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Às vésperas de celebrar 40 anos de carreira, o embaixador veio a Salvador lançar o seu livro Cidadanias Mutiladas, Dignidades Restauradas (Editora Telha) e conversou com A TARDE sobre racismo, direitos humanos, criação de filhos negros e o papel da ONU.

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Embaixador, como surgiu o projeto desse livro?

Em janeiro, eu completo 40 anos no serviço diplomático, no Itamaraty. E, ao longo dessas quatro décadas, eu lidei muito com o tema dos direitos humanos e, na minha atuação nas Nações Unidas, bastante com o tema do racismo. E fui membro do Comitê para a Eliminação da Discriminação Racial. Tudo isso tem virtudes e defeitos porque me levou a ter uma formação profissional e direcionar minhas reflexões e os livros que eu escrevi para esse tema, que para mim é apaixonante, o tema do combate à discriminação racial, ao racismo. Mas com uma linguagem muito cifrada, muito correlacionada à minha formação profissional e acadêmica. Eu sentia necessidade de escrever um livro que fosse mais direto, que falasse às emoções, ao coração do leitor. E que tratasse do tema da discriminação racial com uma outra perspectiva, em que eu selecionaria fragmentos históricos de pessoas conhecidas e outras desconhecidas que vivenciaram situações profundamente marcantes, desconstrutivas, mas que foram capazes de reconstruir a sua dignidade. A ideia era tratar de temas sobre os quais eu trato ao longo de vários anos de forma diplomática ou acadêmica de forma que sensibilizasse o leitor.

Houve aquele episódio famoso com os jovens negros, filhos de diplomatas estrangeiros no Brasil, que foram maltratados pela polícia. Como foi a repercussão nas embaixadas?

Aquele episódio em Ipanema, no Rio de Janeiro, em 2024, para mim, pessoalmente, teve uma imediata remissão a um episódio envolvendo o meu pai. O que eu conto no livro do médico nos anos 50 que volta para casa e é flagrado pela polícia com o jaleco sujo de sangue. Esse episódio envolve o meu pai. Para mim, o que significou aquele episódio foi uma clara interpretação de que o racismo em cinco ou seis décadas se transmutou.

O racismo tem essa capacidade extraordinária de se adaptar a circunstâncias várias. É um fenômeno social muito mutável. O que chocou naquele episódio foi perceber que a ação policial, que envolveu três filhos de embaixadores africanos em Ipanema, foi repressiva, ela reflete uma visão estereotipada do risco que jovens podem oferecer nos bairros das grandes cidades brasileiras.
Sílvio Albuquerque

E como reagiram os diplomatas?

A repercussão que isso teve no Itamaraty, institucionalmente e pessoalmente entre colegas meus, foi de choque, por isso ter acontecido com filhos de representantes diplomáticos no Brasil, e também pela resposta insuficiente que foi dada naquele momento pelas autoridades do governo do Estado do Rio de Janeiro.

Agora, para todos os brasileiros que vivenciam, ou testemunham através da imprensa, os fatos que ocorrem em grandes cidades brasileiras, não houve surpresa alguma por jovens negros em bairros de elite numa grande cidade brasileira terem sofrido aquele tipo de atitude repressiva pela polícia. Uma abordagem que não seria natural se eles fossem brancos, sendo eles ou não filhos de estrangeiros residentes em Brasília.
Sílvio Albuquerque

O choque maior deve ser encontrado nas declarações da mãe de um dos jovens, que era inegável que a ação foi provocada, embora não de maneira assumida pelos policiais e pelo governo do estado, por uma motivação racial.

O senhor vive no exterior, trabalhou em alguns países, e o racismo e a xenofobia estão crescendo no mundo todo. Pela sua experiência, como é criar filhos negros nesses diferentes lugares?

Primeiro, é importante dizer que, sim, há evidências do crescimento do extremismo e de manifestações racistas mundo afora. No Brasil, na Europa, em diferentes continentes. Mas é importante também dizer que é um raciocínio um tanto perigoso associar o crescimento do racismo exclusivamente ao aumento do extremismo. Porque se perde a perspectiva de que o racismo está presente no mundo moderno pelo menos desde a criação do conceito de estado-nação, com o colonialismo, com o imperialismo do século 19, e também a construção ideológica que justificava o colonialismo e o imperialismo, que está baseada no falso cientificismo sobre a inferioridade dos negros em relação aos brancos. Dito isso, eu diria que o fenômeno do racismo, como afirmei na primeira pergunta, é mutável. O racismo se adapta, inclusive, a circunstâncias de países democráticos. Ele é possível de ser visto em sociedades como a brasileira, por exemplo, em que na vigência da democracia plena, é possível ele se esconder, se escamotear, por trás da falsa noção de democracia racial, que hoje já é algo denunciado como uma falsidade, mas que durante décadas foi uma retórica, uma narrativa que esteve presente.

O racismo não é novo e a virulência com que ele se manifesta hoje e a desfaçatez com que muitos manifestam o seu racismo sem cordialidade, como era característico. Isso quem disse foi Lélia Gonzalez. Uma característica básica do nosso racismo, válida para outros países, era que ele se escamoteava por trás da cordialidade. A desfaçatez hoje é um sinal dos tempos, muitos não se acanham em discriminar. E aí não só racialmente. Isso vale para outras manifestações de ódio, de intoletância, que envolvem os homossexuais, a comunidade LGBT+, mulheres. É uma característica atual.
Sílvio Albuquerque

Sobre criar filhos negros fora do Brasil, a resposta que eu poderia dar a essa pergunta está muito associada ao lugar em que essa criança, esse adolescente, fossem criados. Na minha trajetória recente, eu passei pelo Canadá, pelo Quênia e agora estou na Bélgica. Eu posso lhe assegurar que a resposta que eu daria sobre criar filhos nesses três países teria que ser diferente. Eu acredito que o problema do racismo, e aí a leitura que eu quero lhe dar, depende muito da inserção do negro nas sociedades em que ele circula, seja como imigrante, regular ou irregular, ou como cidadão desse país. Ela é muito díspare em relação ao tratamento que se dá em cada país. A reação que se dá ao fenômeno do racismo.

O senhor menciona no livro as ofensas racistas envolvendo Vini Jr nos estádios de futebol da Espanha. Até pela nossa experiência aqui na América do Sul, nas competições continentais, nota-se que em outros países os insultos raciais no esporte são mais tolerados. Como o senhor vê essa cultura de tolerância ao racismo no futebol?

No meu livro, além do fragmento de história relacionado a Vini Jr, eu também falo de cânticos racistas que emanaram da boca de jogadores da Argentina quando eles ganharam a Copa América, falo do Lamine Yamal, e basicamente o que eu penso disso é que, sendo o futebol o esporte mais popular do mundo, com uma capacidade de agregação única, e da paixão, que vai do Brasil aos países mais díspares do mundo, sim, eu concordo que há uma reação insuficiente das autoridades, isso vale para a Fifa, para as confederações regionais e das federações nacionais ao fenômeno do racismo no futebol.

Embora a retórica é de que há uma resposta, de que há campanhas que reprimem o racismo e estimulam os torcedores e atletas a não compartilhar ideários e práticas racistas, o que se percebe claramente é que as medidas são absolutamente insuficientes. O Itamaraty conseguiu aprovar meses atrás, no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, em Genebra, uma resolução tratando justamente do racismo no esporte. É um tema da maior relevância.
Sílvio Albuquerque

Quando eu fui membro do Comitê pela Eliminação da Discriminação Racial, por quatro anos, até 2022, era um tema também de nossa preocupação. Éramos 18 peritos das Nações Unidas lidando com esse assunto. Para mim, no nosso espaço geográfico, as punições da Conmebol (Confederação Sul-americana de Futebol) são muito brandas. Não são só os atletas que sofrem atos que são impactados pelo racismo.

Eu penso no meu neto que é fanático por futebol aos cinco anos de idade, no meu filho jovem que também ama o futebol, nos jovens de Salvador, de Niterói, do Canadá, da Bélgica, que presenciam atos de racismo dentro do futebol, de novo, o esporte mais popular do mundo, que não tenham respostas devidas por parte das autoridades, isso fragiliza muito a luta contra o racismo.
Sílvio Albuquerque

Falando em direitos humanos, de forma mais ampla, temos vários conflitos e guerras pelo mundo. Temos o genocídio em Gaza, guerra civil no Sudão. Mas em termos de resolução de conflitos, o que parece importar mesmo é a vontade dos Estados Unidos e de outras superpotências. Ainda existe um futuro para a ONU em termos de mediação de conflitos no mundo?

Eu acho que a ONU nunca foi tão necessária. A ONU é uma criação dos estados após a maior tragédia que o mundo conheceu no Século 20, que foi a Segunda Guerra Mundial. E o caso mais extremo que o mundo conheceu de violação de direitos humanos foi o holocausto. Após a sua criação em 1945, a ONU aprova em 1948 a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que tem dois princípios fundamentais. A crença na igualdade e a crença no princípio da não-discriminação. Dito isso, o papel da ONU na resolução dos conflitos, Gaza e todos os demais, há um conflito silencioso no Sudão hoje, eu atesto a forma desigual como são vistos os conflitos no mundo. Eu não acredito que apesar da tensão internacional provocada por radicalismos entre grandes potências, da descrença de muitos na força do multilateralismo, a pregação do poder da força sobre o poder das negociações, eu acho que nada disso anula a necessidade premente que o mundo tem cada vez mais de apostar nas Nações Unidas. O mundo sem as Nações Unidas significa um mundo anárquico.

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