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LITERATURA

Balada Literária celebra literatura negra e homenageia Mãe Stella

Este ano, a iniciativa ocorre entre quinta-feira, 27, e sábado, 30

Pedro Hijo
Por Pedro Hijo
Mãe Stella de Oxóssi
Mãe Stella de Oxóssi - Foto: Fernando Amorim | Cedoc A TARDE

O fôlego da Balada Literária em Salvador é medido em ancestralidade e comemoração. Criado em São Paulo há duas décadas, o evento completa 10 anos desde que começou a ser realizado na capital baiana com um circuito pulsante de encontros, filmes, debates e performances.

Este ano, a iniciativa ocorre entre quinta-feira, 27, e sábado, 30, e homenageia Mãe Stella de Oxóssi, líder religiosa, escritora e intelectual.

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A edição baiana da Balada, como explica o escritor e curador Nelson Maca, nasceu de um desejo afetivo e de uma lacuna no cenário local: “Eu queria uma festa mais próxima, em que autores e público pudessem sentar juntos depois da mesa e conversar”.

Ele conheceu a versão paulistana da Balada em 2010, idealizada pelo escritor Marcelino Freire, e encantado com a informalidade potente do formato, decidiu trazer a proposta para Salvador. “A ideia era homenagear os 10 anos da Balada de São Paulo”, afirma. “Fizemos essa pré-balada, deu certo e ficou até hoje”.

O evento baiano se moldou ao território e às vozes que o cercam. Produzida pelo coletivo Blackitude, a Balada sempre colocou as expressões negras no centro, diz Nelson. Ele destaca alguns homenageados, como o cantor Lazzo Matumbi e o educador Juraci Tavares.

Mãe Stella estava no radar há alguns anos, afirma o curador. Com a chegada do centenário da líder religiosa, a escolha tornou-se inevitável. “Era o momento”, diz. A equipe do evento procurou o Ilê Axé Opô Afonjá, pediu permissão à gestão do terreiro e a parceria nasceu.

Tributo

A homenageada deste ano será lembrada no evento não só como presença religiosa, mas também como escritora. Ao longo de oito livros e anos como articulista do jornal A TARDE, Mãe Stella traduziu mundos. Quem explica isso é a jornalista Cleidiana Ramos, que integra o painel Odé Kaiodê, dedicado à obra da ialorixá.

“O que Mãe Stella faz é uma tradução”, diz. “Ela conta as coisas em um código que é o da comunidade tradicional, traduzindo para esse nosso código ocidental, da literatura, do jornalismo”.

Isso fica claro tanto nos livros quanto nos artigos assinados pela homenageada, afirma a jornalista. Para Cleidiana, esses textos eram, ao mesmo tempo, registro de cosmovisões de matriz africana e conversas acessíveis sobre a vida cotidiana. “Ela fala de coisas do dia a dia, mas na perspectiva de quem está no Candomblé”.

No painel, estudiosos irão revisitar títulos como Meu Tempo é Agora, E Daí Aconteceu o Encanto e Osósi: O Caçador de Alegrias. A proposta abre espaço para pensar o impacto de uma ialorixá que escreveu para dentro e para fora da comunidade à qual pertencia. “A obra dela é humanista”, afirma Cleidiana.

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“Isso é muito marcante nas comunidades de terreiro: viver cada fase do que é essa grande complexidade que é a vida com serenidade, porque está tudo muito entrelaçado”.

Ao discutir o lugar da obra de Mãe Stella na literatura negra contemporânea, Cleidiana lembra que autores baianos carregam o traço de escrever de dentro das comunidades, dos movimentos e das tradições que integram. “Os terreiros de Candomblé são quilombos”, afirma.

Essa percepção ecoa a própria vocação da Balada Literária da Bahia, que sempre buscou nomes ainda pouco visíveis no circuito nacional, mas fundamentais para compreender a pulsação criativa do país.

“A Balada tem isso de trazer gente jovem, autores de várias regiões, e colocar ao lado de nomes mais conhecidos”, explica Nelson Maca. Eventos assim, diz ele, correm na contramão da indústria cultural, que tende a privilegiar poucos nomes e grandes editoras.

Arquivo

Um dos pontos de destaque desta edição será o lançamento, em Salvador, do documentário Cadernos Negros, dirigido por Joel Zito Araújo. O filme recupera a história da publicação homônima criada no fim dos anos 1970.

“Minha maior intenção foi contar a história da literatura negra paulistana, que teve na constituição do coletivo Quilombhoje um dos marcos mais significativos”, explica Joel Zito.

Ele destaca que o livro e o movimento estão intimamente ligados a acontecimentos maiores do período, como o surgimento do Movimento Negro Unificado. Sobre o impacto da coletânea e a adaptação para o audiovisual, o diretor é categórico: “O impacto da publicação na formação de novas gerações é evidente”, afirma. “Espero que o filme possa dar muita visibilidade para essa publicação tão importante”.

O documentário venceu o prêmio do público na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e, segundo o diretor, ajuda a revelar “o xadrez do esquecimento e da invisibilidade” que ainda cerca a produção cultural negra no país. “Me impressiona como elites tacanhas conseguiram reduzir a história do Brasil e do protagonismo negro a visões tão redutoras”.

Celebração

Para Nelson, a literatura é encontro. “Às vezes tem pessoas mais interessantes na plateia do que na mesa”, afirma, rindo. A programação inclui também o monólogo Escarro Início, de Leno Sacramento; rodas de poesia; lançamentos de livros; uma sessão de curtas-metragens afetivos; e um show de encerramento que mistura a cultura do Recôncavo baiano, reggae, repente e samba-rock.

A abertura do evento será no terreiro Opô Afonjá, no bairro de São Gonçalo do Retiro, na quinta-feira, às 19h, com uma edição especial do Sarau Bem Black.De sexta a domingo, a programação da Balada ocorre no complexo da Biblioteca Central dos Barris.

Cleidiana resume que a literatura de Mãe Stella continua ecoando porque recusa dicotomias. “São textos que falam de vida”. Nelson concorda: “Essa passagem que é múltipla, política, estética e espiritual e que a Balada busca celebrar”.

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Tags

Ancestralidade Balada Literária literatura negra

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