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Fotografia baiana ganha panorama inédito em mostra no Pelourinho

Mostra em cartaz no Pelourinho apresenta cerca de 100 fotografias de 25 artistas

Cristina Damasceno** | cristinafath2@gmail.com
Por Cristina Damasceno** | [email protected]
Exposição de fotografia chega ao Pelourinho com obras de 25 artistas
Exposição de fotografia chega ao Pelourinho com obras de 25 artistas - Foto: Elis Tuxá | Divulgação

Na história da arte, muitas vezes, nos deparamos com conceitos como: movimentos, escolas ou gerações para definir mudanças estilísticas decorrentes de novas formas de expressões de uma época.

Neste contexto, a ideia de geração, que até então tinha um significado biológico, de pais para filhos, passou a ser adotado principalmente no começo do século 20 como uma ferramenta analítica para agrupar semelhantes visões de mundo.

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A princípio, a expressão geração pode ser encontrada no Velho Testamento indicando que um século equivaleria a cerca de três gerações. Por volta do século 19, seu significado foi absorvido na soc iedade como conjunto de pessoas que partilhavam características de um momento histórico análogo.

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Mesmo sem nenhuma evidência sólida científica, passou-se a considerar indivíduos nascidos a cada 30 anos como de uma geração, partilhando mesmas crenças e práticas.

A premissa determinante que gerações jovens trazem novos modos de comportamentos e reflexões sobre a realidade, descartando costumes e valores antigos, é questionada por um dos mais importantes pesquisadores do tema no Reino Unido, Bobby Duffy.

O professor do King's College, em Lon dres, autor do livro Mito das Gerações, colocou a teoria das gerações em xeque ao constatar que indivíduos de distintas faixas etárias são mais parecidos do que se imagina. Ele atribui que a tendência de criar estereótipos geracionais é fruto basicamente da indústria de consultoria.

O intervalo de corte geracional na atualidade, em decorrência do seu uso na indústria do marketing e economia, foi reduzido consideravelmente, passando a ser aproximadamente de 15 anos. Quem já não ouviu falar sobre as gerações X, Y ou Z? Nos meios de comunicação, referências a estas classificações são corriqueiras.

O que muitos não sabem é que estas designações foram cunhadas para representar grupos etários em pesquisas de análise de comportamento de consumidores, no sentido de conhecer tendências e criar perfis para produtos no mercado.

No entanto, categorizar produções artísticas dentro de um recorte temporal metodologicamente pode ser uma alternativa. Museus e galerias utilizam regularmente este artifício para montar exposições temáticas.

Seguindo esta perspectiva, a exposição Ecologia de sentidos – Panorama da 3ª Geração da Fotografia da Bahia, depois de quase três anos transitando em diversas capitais do país, chega finalmente ao Centro Cultural Solar Ferrão, no Pelourinho.

Três eixos

A mostra é resultado de uma pesquisa feita pelo fotógrafo Marcelo Reis, no período da pandemia, quando entrevistou vários fotógrafos. Para a exposição, ele selecionou cerca de 100 fotografias de 25 artistas.

Como curador da exposição, Marcelo criou três eixos temáticos: Corpo, representado por fotografias de Akira Cravo, Alex Oliveira, Ananda Nunes, Edgar Azevedo, Emanoel Saravá, Isabel Ramos, Lucas Moreira e Renan Benedito; já o eixo Memória reúne as fotografias de Adalton Silva, Adriano Machado, Cristina Cenciarelli, Juh Almeida, Ivã Coelho, Paulo Coqueiro e Raimundo Cavalhier e Shai Andrade; e Sagrado, constituído pelos registros de Andrea Fiamenghi, Arthur Seabra, Elis Tuxá, Ismael Silva, Gilucci Augusto, Hugo Martins, Leila Chandani, Tacun Lecy e Vinícius Xavier.

Marcelo Reis considera o fator cronológico para seu conceito de geração. Ele define os fotógrafos que inicialmente chegaram à Bahia, na metade do século 19 e adentraram os meados do século 20, como a primeira geração de fotógrafos na Bahia.

Para o curador, a noção de cidade e a participação da construção da paisagem baiana e brasileira foi uma das características deste período. De acordo com sua interpretação, foi posteriormente que elementos humanos, o corpo propriamente foi inserido na paisagem, demarcando a segunda geração.

“Foi a partir da publicação, por Voltaire Fraga, dos seus primeiros trabalhos na revista O Cruzeiro, e logo em seguida da chegada de Pierre Verger. Então, eu considero que esses dois fotógrafos seriam, então, meio que o marco dessa segunda geração”, afirma.

Já a nova geração da fotografia baiana surge, na conceituação do curador, supostamente, a partir dos anos 2000, e tem como marco o elemento da subjetividade do imaginário e a forte presença do pensamento.

Segue um curto comentário sobre uma breve seleção dos trabalhos expostos: a começar com o fotógrafo homenageado Akira Cravo (in memoriam), filho mais novo do artista Mario Cravo Neto, que, infelizmente, teve uma breve trajetória na fotografia.

Nos trabalhos exibidos, pode-se notar o vigor de suas composições na escolha da luz, na intensidade das cores e proximidades dos planos. Percebo nitidamente as influências estéticas derivadas de seu pai, particularmente na série Laroyê, publicada em um fotolivro, nos anos 2000.

Corpo

Ainda no núcleo temático sobre o corpo, o ensaio de um jovem promissor, o artista visual Emanoel Saravá se destaca. Intitulado Águas Marginais, as imagens foram produzidas em três fontes antigas de Salvador, onde o artista construiu uma fotoperformance. Nos espaços, as paredes descascadas apontam para as camadas do tempo, o chão escuro e desgastado espelha o descaso com a história.

No meio deste cenário, um corpo ou corpos de jovens homens dão vida ao local, tornando o ambiente cheio de poesia. No entanto, o trabalho nos leva, também, a pensar sobre estes monumentos que tiveram um papel importante no fornecimento de água no período colonial. Hoje eles se encontram em um estado deplorável, esquecidos pelo poder público.

No eixo Memória, o artista visual Adriano Machado apresenta o ensaio Cobra Verde, com título inspirado por um sonho de sua avó. A série é composta por quatro fotografias e foi criada a partir de histórias e lembranças familiares do artista. O trabalho reflete uma fabulação, no qual os personagens, envoltos em um véu, revelam e ocultam sentidos propondo uma atmosfera misteriosa.

Natural de Feira de Santana, Adriano Machado é doutorando em Artes Visuais no Programa de Pós-graduação em Artes Visuais da Ufba. Ele possui uma carreira estruturada com exposições nacionais e internacionais, al&eac ute;m de algumas premiações no campo artístico.

Já o ensaio intitulado “ihendzi tuxá”, da fo tógrafa Elis Tuxá, é sobre as memórias sagradas do povo originário da aldeia Tuxá, localizada no norte do estado da Bahia, às margens do Rio São Francisco.

A série de quatro fotografias que compõe o eixo Sagrado na exposição aborda a representação da Grande Árvore no corpo de uma mulher que nasce nas águas do Rio Opará, nome dado historicamente pelos povos indígenas ao Rio São Francisco.

No ensaio, a cor vermelha de um manto vestido por uma jovem mulher representa as águas do rio que com a saída do povo Tuxá de suas terras se transformou em lágrimas e saudade. Nas fotografias, a autora deixa transparecer a busca por sua ancestralidade.

Recorte temporal

A tentativa de conceituar novas gerações de fotógrafos pode ser vista, também, no livro intitulado Geração 00: A nova fotografia brasileira, de Eder Chiodetto. A publicação relaciona a produção fotográfica publicada na primeira década do século 21 por cerca de 49 artistas que na sua maioria pertencem ao eixo sul e sudeste do Brasil. O livro propõe um recorte temporal justificado pelas mudanças entre a tecnologia analógica e digital.

Finalizando, sem dúvidas a iniciativa de propor exposições e publicações dando visibilidade a jovens fotógrafos é vital para a difusão da arte e a produção histórica da fotografia, entretanto, não podemos deixar de considerar a fragilidade de algumas classificações que podem implicar em sérios erros analíticos.

*Doutora em Artes Visuais, professora de Fotografia na Escola de Belas Artes (Ufba)

*O conteúdo assinado e publicado na coluna Olhares não expressa, necessariamente, a opinião de A TARDE

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