CRÔNICA
Entre a esfiha e a decisão
Por que buscamos receitas prontas para a vida? Uma reflexão sobre o consumo imediato


Passava outro dia pela rua quando avistei o letreiro de uma lanchonete com a imagem de esfihas abertas recheadas, do tipo fast-food, que mais pareciam uma pizza de mercado do que, de fato, uma esfiha árabe. A visão foi rápida, enquanto dirigia, retornando da escola dos meus filhos para casa. Bastou para me fazer pensar o quanto somos guiados pelo paladar e a promessa do prazer embalado em consumo rápido.
Não sou fã de esfihas abertas, menos ainda desses lanches que têm mais realçador de sabor do que comida de verdade… O que me fez questionar: o que, afinal, as pessoas veem nisso? Fiquei imaginando aquela massa sendo preparada, diversos ingredientes adicionados para dar consistência e textura, além dos recheios gordurosos e cheios de insumos para torná-los mais palatáveis. O resultado é um produto vendido a preço acessível feito pra comer sem pensar. Aliás, quem quer pensar antes de comer? Muitos de nós se deixam levar apenas pelo paladar; pouco importa o que vai dentro.
A nossa cultura alimentar industrializada é um termômetro atual da própria sociedade. Tudo pronto, empacotado e cheio de apelo visual e sensorial – o que os olhos veem com muitas cores e estímulos até o paladar sente. Pois é assim também em outros âmbitos. Temos muita pressa, baixo discernimento, pouco pensamento crítico e uma busca incessante pelo próximo prazer imediato.
Leia Também:
Não vou negar que, quando se trata de comida, sou craque em salvar vídeos de receitas fáceis, cuja maioria não ponho a mão na massa, mas gosto de ter no meu acervo de ideias práticas para cozinhar. Vai que um dia…? Antes fosse só com comida. Já reparou como nas redes sociais as pessoas estão sempre em busca das receitas mais fáceis? Pra viver a própria vida. Se estão mesmo vivendo, ninguém sabe.
Muita gente já falou do aumento no número de coachs e gurus que ensinam desde ganhar dinheiro e viver uma vida com mais propósito até como ser um bom marido, uma boa esposa, pais mais presentes, irmãos sem conflitos familiares. Mas, se esses profissionais estão aí pra ajudar é porque tem público pra isso. A tal demanda de mercado.
Aprender sozinho é sempre mais difícil, a gente quer alguém que pegue na mão e nos leve, ou melhor, nos puxe, nos sacoleje e empurre. ‘Como eu faço pra escolher entre A e B?’ ‘Como eu sei que um relacionamento já acabou?’ ‘Como eu digo não?’ ‘Como eu descubro meu propósito?’. Faça um passeio pelas redes sociais e veja todo tipo de perguntas como essas. Desaprendemos a tomar nossas próprias decisões?
Quando nos permitimos ser guiados apenas pelo paladar, nossa capacidade decisiva baixa. Deixamos de usar a nossa razão e entender se aquilo nos serve, se vai fazer bem, se é a melhor opção. Nosso sistema sensorial é importantíssimo, mas não dá para nos governar apenas por ele.
Da mesma forma como não damos atenção aos rótulos dos pacotinhos do supermercado, dos ingredientes embutidos na lanchonete, também não paramos para pensar naquilo que compõe a nossa própria vida. Não só nas nossas dores, nas nossas dificuldades, nos nossos anseios, mas naquela substância oculta, pouco propagandeada, uma certa capacidade, uma espécie de força interior para olhar bem dentro e nos conduzir em nossas escolhas neste mundo de tantos apelos.
*Luisa Sá Lasserre é autora do livro de crônicas “Pensei, mas não disse” (Ed. Patuá)


