ABRE ASPAS
Rua Chile quer devolver o Centro Histórico aos soteropolitanos
Nova entidade criada para impulsionar a revitalização da primeira rua do Brasil aposta em segurança


"Se o soteropolitano não voltar a frequentar aquela região, não adianta só o turista estar lá. Nosso principal cliente tem que ser a população da cidade". A frase é de Antonio Barretto Junior, presidente da Associação dos Empreendedores da Rua Chile e Entorno (Arce), entidade criada oficialmente em junho de 2026 para coordenar os esforços de requalificação de uma das áreas mais simbólicas do Brasil.
A Rua Chile, primeira rua oficialmente urbanizada do país, foi durante décadas o coração comercial e cultural de Salvador. Um cenário de vitrines elegantes, personagens folclóricos e da vida pública da cidade. A partir do final dos anos 1960, porém, entrou em decadência, esvaziada pelo crescimento de novos centros comerciais e pelo abandono do Centro Histórico.
A retomada começou timidamente na década de 2010, com a chegada de empreendimentos como o Fera Palace Hotel e o Fasano Salvador, que atraíram um ciclo de investimentos estimado hoje em R$ 1 bilhão entre obras públicas e privadas. A Arce, de acordo com Barretto, nasce para dar organicidade e continuidade a esse movimento.
"Nosso papel é ser um parceiro ativo e propositivo do poder público e privado", diz o empresário, que garante atrair novos negócios para todas as camadas sociais, mas sem perder o caráter popular que a torna única. Nesta entrevista, Barretto ainda fala sobre a estratégia de segurança já em operação na rua, os projetos de moradia em desenvolvimento e os planos para o calendário cultural do segundo semestre.

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O senhor acompanha a transformação de Salvador há décadas, tanto no setor público quanto na iniciativa privada, mas existe uma relação pessoal com o Centro Histórico, além da parte empresarial?
Com certeza. Minha infância foi frequentando a loja Sloper, levado pela minha mãe, morrendo de medo da Mulher de Roxo, que era uma das grandes personagens da Rua Chile, assim como o Guarda Pelé, que ficava naquela esquina da descida da Ladeira da Praça. Tenho memórias afetivas muito fortes dessa época. Essas memórias afetivas pessoais existem.
Depois, tive o privilégio de trabalhar na Secretaria de Cultura e Turismo como diretor executivo de turismo durante seis anos – quatro na gestão de ACM Neto, de 2017 a 2021, e dois na gestão do prefeito Bruno Reis. Nesse período, a gente entregou nessa região equipamentos culturais muito icônicos, como a Casa do Carnaval e a Cidade da Música.
Deixamos também todo o projeto da Casa das Histórias de Salvador com o Arquivo Público totalmente pronto, que os secretários que nos sucederam executaram brilhantemente. Então, essa simbiose com aquela região da cidade é muito intensa.
O grande motivador da Arce é justamente resgatar essa identidade?
Exatamente. É o resgate do contexto histórico e da importância que a Rua Chile tem para o Brasil, não apenas para Salvador. Ela foi e é a primeira rua do Brasil. Essa importância histórica precisa ser resgatada. O glamour dela precisa ser recuperado. E o senso de pertencimento dos soteropolitanos em relação ao Centro Histórico precisa ser retomado. Esse é o maior desafio hoje: fazer com que o soteropolitano entenda o Centro Histórico no seu íntimo. Não é só para o turista. Se o soteropolitano não voltar a frequentar aquela região, não adianta só o turista estar lá.
A gente não vai atingir o principal objetivo. Nosso principal cliente tem que ser a população da cidade. A região passou por uma degradação muito intensa a partir do final dos anos 60 e 70, e ficou abandonada durante muitos anos. Só a partir da década de 2010 é que ela começa a retomar, com empreendedores que efetivamente apostaram na região quando todo mundo achava loucura investir ali. Essas âncoras visionárias trouxeram régua e compasso para essa revitalização, associados, obviamente, ao poder público.
A partir do momento em que a Prefeitura passou a investir na recuperação de monumentos históricos na Cidade Baixa e na própria Rua Chile, com a obra da Avenida 7, e o Governo do Estado resolveu investir na Rua Chile também, as duas obras se encontraram justamente na porta do Fasano. Essa convergência trouxe toda a base necessária para atrair investidores. Aí você vê o Governo do Estado com o leilão do Palácio dos Esportes, depois com o leilão do Palácio Rio Branco. As duas grandes âncoras atraíram uma terceira, o Palacete Tira-Chapéu.
A região abraçou hotéis, restaurantes e empreendimentos de alto padrão. É uma estratégia deliberada de se aproximar de uma camada social de maior poder aquisitivo?
É uma estratégia, sim, porque o marketing é sempre feito pelo aspiracional. Mas não é só para atender essa classe social. A Rua Chile é do povo. O Centro Histórico é do povo. A gente precisa ter todas as camadas sociais frequentando aquela região. Esses empreendimentos de luxo trazem o balizador aspiracional, mas já estamos atraindo outros segmentos.
O Silva, por exemplo, é um restaurante de classe média e está lá. Essa semana, depois de a Arce ser inaugurada, já fomos procurados por dois outros chefs querendo se instalar na região, atendendo também a outras camadas da população, não só a mais abastada.
É natural que, a partir do momento em que você começa uma revitalização com a régua alta – como foi a instalação dos hotéis Fera e Fasano – empreendedores desse perfil acabem sendo atraídos primeiro. Mas isso não significa que a Rua Chile vai ter só esse padrão.
Do outro lado do Fera Palace, você tem o Hotel Colonial Chile, que é de classe média. O artista plástico Menelaw Sete, festejado na Itália, abriu um ateliê de vendas ali ao lado da Casa do Boqueirão. A gente acaba atraindo vários segmentos, e é isso que queremos: a revitalização em várias camadas sociais.
Quais são os primeiros passos concretos da Arce?
A primeira coisa foi tornar a Rua Chile a rua mais segura de Salvador. Não basta dizer que é segura. É preciso transmitir a sensação de segurança. A Polícia Militar e a Guarda Municipal entenderam nossa proposta de integrar uma segurança privada aos efetivos já atuantes no território.
Trouxemos monitoramento digital por câmeras com reconhecimento facial, ligadas a uma central 24 horas por dia, 7 dias por semana. Instalamos dois postos de vigilância privada fixos: um na bifurcação da Rua Ruy Barbosa com a Rua Chile, em frente ao painel de Carybé no edifício Bráulio Xavier, e outro na esquina da entrada da Rua da Misericórdia. Além de totens de vigilância ao longo das ruas Chile e da Ajuda, e uma motocicleta com vigilante circulando entre a Castro Alves e a Praça da Sé.
O segundo ponto é atrair investidores para repovoar a Rua Chile do ponto de vista de moradia. O Palácio Castro Alves está oferecendo moradias de alto padrão, com unidades de 90 a 170 m². Mas temos outros projetos em fase final de desenvolvimento com dois e três quartos. A moradia é fundamental para sedimentar o comércio local e atrair novos empreendedores.
E como fica o eixo cultural?
Hoje estamos muito bem servidos. Temos três galerias tradicionais – a Galatea, a Ernesto Bitencourt Galeria e a Fala Espaço das Artes. Há um polo gastronômico que se formou organicamente e continua crescendo. E trouxemos como associada honorária uma empresa de administração de shopping centers – que administra o Shopping Barra, o Paseo e o Itaigara – justamente para olhar a região e seu entorno como um grande shopping a céu aberto.
Estamos nesse momento atraindo comerciantes com propostas efetivas de implantação de comércio qualificado. Vários empreendedores de shopping estavam presentes no nosso evento de lançamento e já estão olhando a região para seus próximos investimentos.
No calendário cultural, a Prefeitura vem fazendo um trabalho bacana e muito alinhado com o perfil atual da Rua Chile. Temos um coreto na Praça Municipal com atrações familiares, forró pé de serra, ou seja, fugimos daquele modelo de megaeventos com megapalcos, o que foi muito salutar para o território. Estamos dialogando com a Prefeitura para ter uma convergência nesse calendário. E posso dar um spoiler: junto ao Cine Glauber Rocha, estamos com uma proposta de lançar o segundo Festival de Cinema da Rua Chile para o segundo semestre.
Além disso, vamos conversar com Fernando Guerreiro, da Fundação Gregório de Matos, sobre o projeto Coro Comeu, na Ladeira da Barroquinha, que está sendo um grande sucesso. O entorno da Rua Chile também está muito bem contemplado, a Associação Comercial da Bahia entrou como parceira institucional, e já estamos conversando com investidores que fizeram aportes significativos na compra de seis prédios no Comércio.
Eles estão vendo que o movimento está muito bacana e procurando a gente para somar forças para que o bairro do Comércio entre também nessa esteira de desenvolvimento. A região está num momento de retomada real, não pontual. O que a Arce quer é ser o fio condutor que une poder público, iniciativa privada e a cidade para que a primeira rua do Brasil volte a ser, de fato, de todos os soteropolitanos.

