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Hilton Cobra chega aos 70 anos como referência máxima do teatro baiano e do movimento negro

Aos 70 anos, Hilton Cobra reafirma sua genialidade na televisão, no teatro e na gestão cultural

Gilson Jorge
Por Gilson Jorge
De Feira de Santana para o Brasil: as sete décadas de talento e resistência de Hilton Cobra
De Feira de Santana para o Brasil: as sete décadas de talento e resistência de Hilton Cobra - Foto: Divulgação

São 11h05 de uma terça-feira ensolarada. Em um flat da Barra, o ator e diretor baiano Hilton Cobra acaba de se sentar à mesa, depois de abrir a porta do apartamento para os seus convidados, repórter e fotógrafa, e ainda insiste um pouco para que ambos se sintam à vontade antes da conversa agendada com a sua assessoria, que encontrou um horário antes do almoço. São poucos dias na capital baiana e o artista feirense que interpreta o conselheiro Chinua na novela A nobreza do amor, exibida pela Rede Globo no horário das 18h, tem uma quantidade de amigos que precisa rever em sua curta estadia na cidade.

De calça e camisa pretas, Hilton tem que ir para o Comércio logo depois da entrevista, e mantém o celular na mesa, ao alcance das mãos, durante a conversa. Também por perto estão dois pares de óculos que, voluntariamente, ele alternaria depois com o que estava no rosto, quando começaram os cliques fotográficos.

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O ator, que completa 70 anos de idade amanhã, no Dia da África, demonstra estar feliz. No início deste ano, Cobra foi anunciado como um dos 50 contemplados com o Prêmio Funarte Mestras e Mestres das Artes 2025. O prêmio reconhece o legado de artistas com mais de 60 anos em diferentes linguagens: música, dança, artes visuais, circo e teatro, a grande causa da vida desse baiano que se tornou artista já perto dos 30 anos de idade.

O prêmio coroou a exitosa carreira teatral de Hilton Cobra, ou Cobrinha, que teve como um dos pontos mais altos o monólogo Traga-me a cabeça de Lima Barreto, escrito por Luiz Marfuz e dirigido por Onisajé, diretora e dramaturga que se tornou sua grande amiga. Mas além de seu sucesso nos palcos, que inclui as peças Candaces, Policarpo Quaresma e Bakulo, o artista virou referência nacional como gestor cultural e ativista.

Um dos maiores motivos de orgulho para o artista baiano, por exemplo, foi a criação da Companhia dos Comuns, grupo de teatro com atores negros, que depois de anos de luta foi reconhecido com um Prêmio Shell de Teatro em 2024 pelo conjunto da obra e pela sua luta antirracista.

Foi a partir do combate da Companhia dos Comuns, por exemplo, que foram adotadas cotas étnicas para os editais de cultura e a presença de avaliadores negros nas bancas de julgamento dos editais. "O peso de Hilton Cobra na cultura brasileira é imenso até hoje. Em alguns momentos históricos, ele foi de um protagonismo exemplar", avalia Luiz Marfuz, que destaca a sua atuação à frente da Fundação Palmares, durante o mandato da presidente Dilma Rousseff, quando o baiano liderou políticas afirmativas para artistas negros.

Marfuz define o amigo como um ativista do dia a dia, alguém capaz de defender a sua fala com a mesma contundência no palco, na tribuna do Congresso Nacional ou em uma mesa de bar com os amigos. "É uma fala convincente, arrebatadora, carregada de emoção. Essas fronteiras entre o palco e a vida em algum momento se dissolvem", diz Marfuz, para quem o amigo tem uma das vozes mais ouvidas do meio artístico por ressoar credibilidade. Uma credibilidade sempre enfática.

O vínculo com a arte surgiu cedo, ainda que estivesse claro. Durante a infância, em Feira de Santana, Hilton aproveitava os momentos de ausência dos pais para se divertir à vontade com os irmãos. Sambava e imitava Elza Soares. O pequeno Hilton não tinha noção do que era teatro, mas gostava de se expressar e o ambiente familiar estava repleto de alfaiates e de pés-de-valsa.

"A arte sempre me rondou. Com meus irmãos, eu pegava roupa para contar historinha, mas eu não sabia que estava fazendo teatro. Eu pegava o revólver de meu pai, armava e desarmava. Não sabia que aquilo era perigoso", conta Cobra, sorrindo.

José Hilton Almeida começou a vida profissional aos 15 anos, na contabilidade de uma construtora em Feira de Santana. A notável habilidade com a datilografia levou seus colegas a apelidarem-no de Cobra. "E também diziam que eu parecia uma cobra", conta o artista, sorrindo e renegando a semelhança. Mas o apelido o acompanhou no posterior trabalho no Polo Petroquímico e, depois, seria adotado como nome artístico.

Em 1974, quando completou a maioridade, Cobra foi transferido para o escritório da firma em Salvador. Alguns dos seus novos colegas eram alunos da Escola de Administração da Ufba e também faziam aulas de teatro. Um desses colegas era Luiz Marfuz, que leva o amigo Hilton Cobra a se aproximar do teatro. "Foi engraçado porque aí eu já queria ser artista e ele demorou muito a me convidar a fazer parte", lembra Cobra.

Ainda trabalhando no setor privado e depois na Prefeitura de Salvador, Cobra atua com protagonismo em obras de arte. Em 1978, no filme O julgamento de Tião, de Anselmo Serrat, e em 1979 estreia no teatro, também como ator principal, na peça Solta minha orelha, um espetáculo de criação coletiva dirigido por Marfuz e encenado no Teatro do Icba, ainda sob a tensão da ditadura militar. "Era uma peça que questionava o regime, a religião, essas coisas que podavam as nossas liberdades", explica Cobra.

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Um elã

Imagem ilustrativa da imagem Hilton Cobra chega aos 70 anos como referência máxima do teatro baiano e do movimento negro
Foto: Divulgação

Se o ator costuma creditar sua iniciação artística ao convite de Marfuz, o diretor afirma, brincando, que não foi ele quem descobriu Cobra, mas ao contrário. "A gente que escolheu essa carreira de diretor, às vezes tem uma percepção de atores e atrizes que às vezes não estão no palco, mas a gente sente que têm um elã", declara Marfuz, ao falar sobre o início da carreira do amigo.

Em 1984, Hilton Cobra encena no Solar do Unhão a peça O Arquiteto Imperador da Síria, que o próprio artista qualifica como o maior fracasso do teatro baiano. "Tinha domingo que não ia ninguém. Teve um dia que só foram Aninha Franco e Rita Assemany", lembra Cobrinha.

Depois de viajar a Belo Horizonte e Brasília com o grupo La Nave Va, de Jorginho de Carvalho, para encenar uma peça na primeira metade da década de 1980, Cobrinha pede demissão do emprego na Prefeitura de Salvador e se muda em março de 1985 para o Rio de Janeiro, onde inicialmente trabalha com iluminação para espetáculos teatrais, função aprendida com Jorginho de Carvalho, pioneiro do ramo.

Em 2001, junto com o amigo Márcio Meirelles, Cobrinha cria no Rio de Janeiro a Companhia dos Comuns. Curiosamente, a ideia de montar o grupo surgiu em um momento em que Cobra estava encantado com o seu trabalho como iluminador, por deleite profissional e também por receber uma remuneração que lhe permitia viver bem.

Mas à medida em que direcionava os canhões de luz para os palcos cariocas, Cobrinha foi se inquietando com a ausência de atores negros nas principais produções teatrais. Nessa época, ele já estava familiarizado com as discussões sobre racismo, um tema que não foi presente na sua adolescência em Feira de Santana.

A questão racial aflorou em 1976, paralelamente ao teatro, quando conheceu a intelectual gaúcha Luiza Bairros, então uma jovem administradora de empresas que veio a Salvador fazer intercâmbio com os colegas de Luiz Marfuz na Ufba e acabou se tornando amiga de Cobra, com quem passeava pela cidade.

"Olha que privilégio da minha vida ficar na década de 1970 com essa mulher, conversando, batendo papo", declara o ator, que atribui ao convívio com a amiga três anos mais velha, morta em 2016, a sua conscientização racial. "Até então, eu não sabia que era preto. Luiza me disse: você é negro, você é um artista e você tem a obrigação de levar essa consciência negra para o seu ofício", afirma o ator.

Em visita ao Rio de Janeiro, Luiza ajudou Cobrinha a escrever o projeto da Companhia dos Comuns e apresentou o ator a outra intelectual negra, a antropóloga e ativista Lélia Gonzalez. "Lelia participou de toda a construção do projeto", conta o baiano.

O projeto da companhia ficou pronto em 1992. Luiza foi fazer doutorado nos Estados Unidos e Lélia inicia, por intermédio de Cobrinha, uma parceria com Aninha Franco para o texto de um monólogo que seria interpretado pelo ator baiano. Lélia morre em 1994, sem conhecer Aninha pessoalmente, e o projeto do monólogo não chega a ser concluído. A Companhia dos Comuns, por sua vez, sofre com a falta de patrocínio e só consegue sair do papel em 2001.

Cobrinha também se destacou como gestor da Fundação Cultural José Bonifácio, autarquia da Prefeitura do Rio e centro de referência da cultura afro-brasileira. "Eu encontrei a instituição com três funcionários e a deixei com vinte e seis", conta o artista, que orgulha-se de ter movimentado a instituição cultural, uma experiência que o credenciaria a assumir a Fundação Palmares no Governo Dilma Rousseff. Uma curiosidade é que a primeira das novas funcionárias contratadas por Cobrinha na instituição carioca foi uma moça chamada Conceição Evaristo, ainda desconhecida, que se tornaria depois uma reverenciada linguista e escritora.

A dramaturga Aninha Franco considera que talentos como Cobrinha, Rita Assemany, Carlos Betão e Lázaro Ramos, companheiro de elenco de Cobrinha em A nobreza do amor, são projetados ao sucesso em momentos ricos da política cultural.

"Nós tivemos um boom de política cultural nos anos 90 que, nossa, todo mundo estava fazendo teatro. E o público estava enlouquecido com o teatro bom que estava assistindo. Cobrinha faz parte desse momento maravilhoso do teatro baiano", observa a dramaturga. Aninha destaca uma qualidade especial do ator. "Ele tem uma verve para a comédia, que poucos atores têm, de nos fazer rir com praticamente nada. E ele nos deu momentos lindos com esse poder", afirma Aninha.

Influência

Imagem ilustrativa da imagem Hilton Cobra chega aos 70 anos como referência máxima do teatro baiano e do movimento negro
Foto: Divulgação

Diretora de Traga-me a cabeça de Lima Barreto, Onisajé lembra que viu Hilton Cobra pela primeira vez em 2005 durante o Fórum Nacional de Performance Negra, uma iniciativa em conjunto da Companhia dos Comuns e do Bando de Teatro Olodum.

Cobra e Onisajé foram apresentados durante o fórum, mas só se aproximaram em 2008, quando ele estava fazendo Policarpo Quaresma, dirigido por Marfuz, e ela era assistente de direção. "Cobrinha me chamou para ser tipo uma assistente pessoal, para bater texto", lembra Onisajé, referindo-se a um jargão do teatro que significa decorar as falas dos personagens. E ressalta a influência do amigo em sua vida.

"Cobrinha é um mestre para mim, uma figura de grande orientação no teatro e potencialização também", diz ela, que vê o ator como uma referência artística e também na questão de identidade racial. Onisajé, que é doutora em Artes Cênicas pela Ufba, teve a dissertação do seu mestrado, Ancestralidade em cena: candomblé e teatro na formação de uma encenadora, baseada na Companhia dos Comuns.

Um dos autores de A Nobreza do amor, o baiano Elísio Lopes Júnior, cobre o conterrâneo de elogios. "Cobrinha é um ator virtuoso, que ama a palavra, o sonho de qualquer autor. Ele tem um entendimento íntimo com o texto, e escolhe os caminhos para moldar as emoções", afirma o dramaturgo, que ressalta o prazer de trabalhar com Cobrinha e revela um desejo: "Agora quero escrever para ele no teatro e quem sabe um dia dirigi-lo".

No flat da Barra, Cobrinha interrompe a entrevista para atender o telefone. Alguém o espera para almoçar no Juarez, no Comércio. O ator pergunta quanto tempo mais a entrevista vai durar e confirma o compromisso social. Mas a pressa não o impede de aprofundar o seu raciocínio. Com olhar fixo e dedo em riste, o ator fala sobre política cultural como se estivesse conversando com a ministra da Cultura, o presidente da República, o plenário do Congresso ou a plateia do teatro, e cobra do Governo Federal que tenha o mesmo empenho para aprovar recursos para a cultura que teve para aprovar a reforma tributária. Tragam-nos o espírito de Hilton Cobra.

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