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"Toda compulsão é uma tentativa de aliviar conflitos internos", diz psicólogo

Especialista desvenda a origem do comportamento compulsivo

Pedro Resende
Por Pedro Resende
Veja o impacto das telas e das apostas na saúde mental do brasileiro
Veja o impacto das telas e das apostas na saúde mental do brasileiro -

“Vivemos em uma civilização muito compulsiva, que empurra o sujeito para uma sensação permanente de insuficiência, como se ele estivesse sempre em dívida com os próprios desejos e precisasse alcançar mais alguma coisa para, finalmente, se sentir satisfeito”. A frase é do psicólogo e diretor de conhecimento da Empresa Brasileira de Apoio ao Compulsivo (Ebac), Cristiano Costa. A organização é voltada ao acolhimento e prevenção de comportamentos compulsivos, especialmente ligados a apostas.

Para ele, o avanço das compulsões contemporâneas está diretamente ligado às angústias produzidas por uma sociedade hiperconectada, individualista e marcada pelo consumo constante. Nesta entrevista, Cristiano explica como a pandemia transformou a forma como as pessoas enxergam a saúde mental, ampliando o acesso à terapia online e reduzindo o estigma em torno de sintomas como ansiedade, depressão e comportamentos compulsivos.

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O profissional também analisa a diferença entre desejo, obsessão e compulsão, mostrando como hábitos aparentemente comuns, como compras, trabalho e alimentação, podem se transformar em mecanismos repetitivos de alívio emocional. Na conversa, ele discute ainda o impacto das bets, dos algoritmos e da publicidade na construção de uma sensação permanente de insatisfação, além dos limites da força de vontade diante de um sistema que estimula excessos e lucra com a vulnerabilidade emocional.

“As pessoas precisam de apoio, seja da rede afetiva, seja do acompanhamento psicológico e psicoterapêutico”.

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O que mudou na forma como as pessoas enxergam a saúde mental nos últimos anos?

A primeira mudança foi uma adesão muito especial e ampla ao atendimento online. É como se cada psicólogo tivesse um consultório em outros estados e até em outros países. Por estarem familiarizadas com o ambiente digital, as pessoas também entenderam que esse acesso poderia facilitar o cuidado com a saúde mental. Como o ambiente que vivemos na pandemia foi um momento de muito confinamento e isolamento, e a gente já vinha de uma experiência digital muito profunda, as pessoas tiveram, grosso modo, essa surpresa de poder ter acesso ao psicólogo com mais facilidade, mais conforto e mais sigilo, sem precisar se deslocar no trânsito da cidade, aquela coisa de que, para cumprir um compromisso, você tem que sair horas antes.

A segunda mudança, que eu acho que está mais ligada à sua pergunta, é que, de fato, as pessoas começaram a falar mais sobre os seus sintomas e sobre as suas emoções difíceis. Hoje não é mais vergonhoso admitir que está sofrendo de ansiedade, que está com sintomas depressivos, que anda muito nervoso, ou mesmo falar dos efeitos dessas diversas compulsividades, como a compulsividade pelas telas e pelas compras. Isso criou um ambiente mais aberto e mais receptivo. Saúde mental, até 2020, era um assunto sobre o qual ninguém gostava muito de falar.

Quando alguém perguntava se você fazia terapia, a resposta muitas vezes vinha carregada de defesa. “Por quê? Você acha que eu tenho algum problema? Você acha que eu sou maluco?”. Hoje em dia, quando se pergunta a alguém se ela faz terapia, a pessoa responde ou que tem muita vontade, ou que está procurando fazer. Ou até diz, naturalmente, que faz. Então, na linguagem técnica, diminuíram as defesas e as barreiras das pessoas em relação ao interesse pela psicologia e pela psicoterapia.

Quais angústias contemporâneas estão mais associadas a um comportamento de exagero?

A solidão e o isolamento. Está cada vez mais difícil entrar em espaços de consenso, de convivência e de troca e de compartilhamento. Ainda que o verbo “compartilhar” seja muito conjugado, essa prática muitas vezes se limita às redes sociais, porque, no cotidiano, a gente observa essa angústia de não ter figuras de referência e de confiança. A rede de apoio é outro elemento muito forte nas angústias atuais.

As pessoas se queixam muito das suas redes de apoio. Vivemos em um mundo hiperindividualista, em que cada um precisa dar conta do próprio recado, e isso tem sido um grande objeto de angústia. Sem falar das questões clássicas, como as econômicas e as limitações de natureza material. A gente vive em um mundo em que existe um convite muito forte para uma demonstração de felicidade a partir do consumo. Essa também é uma questão muito forte. As redes sociais também trazem comparações, e comparações que, muitas vezes, são baseadas no consumo.

O psicólogo e diretor de conhecimento da Empresa Brasileira de Apoio ao Compulsivo (Ebac), Cristiano Costa
O psicólogo e diretor de conhecimento da Empresa Brasileira de Apoio ao Compulsivo (Ebac), Cristiano Costa | Foto: Shirley Stolze | Ag. A TARDE

Qual é a linha que separa desejo, obsessão e compulsão? Como diferenciar, na prática, um hábito comum de consumo de um comportamento compulsivo que exige atenção?

Todo hábito saudável traz algum nível de saciedade. A pessoa consegue parar na primeira taça de vinho, compra apenas o que precisa ou joga sem transformar aquilo no centro da vida. O que diferencia a compulsão é, justamente, a ausência desse limite. Existe uma dinâmica de repetição e insatisfação permanente. Freud chamava isso de “compulsão à repetição”. O fumante acende um cigarro atrás do outro, quem aposta não consegue parar de jogar, quem compra sente necessidade constante de consumir, e o mesmo acontece com a compulsão alimentar. Hoje, as canetas emagrecedoras ajudam a entender isso.

Existe um desejo social muito forte de continuar comendo sem lidar com as consequências emocionais e físicas desse comportamento. O problema é que, muitas vezes, se trata apenas o sintoma, sem olhar para a origem psicológica da compulsão. Toda compulsão funciona como uma tentativa de aliviar conflitos internos através de comportamentos que, em si, não têm relação direta com a angústia original. A pessoa encontra um alívio momentâneo e, por isso, repete o comportamento continuamente.

Existe um poder individual capaz de vencer um comportamento compulsivo apenas com força de vontade? Ou há uma assimetria de forças entre o indivíduo e toda a máquina de consumo – alimentada por publicidade, algoritmos e pelo capitalismo digital – que estimula angústias e oferece caminhos rápidos, como bets e canetas emagrecedoras, para aliviar essas dores? Como você enxerga essa relação entre responsabilidade individual e influência do sistema?

De jeito nenhum. É claro que, ao final, quem precisa encontrar forças para se reorganizar é o próprio indivíduo. Mas em nenhum lugar se afirma que alguém consegue dar conta sozinho das próprias angústias. Ao contrário. As pessoas precisam de apoio, seja da rede afetiva, seja do acompanhamento psicológico e psicoterapêutico. Vivemos em uma civilização muito compulsiva, que empurra o sujeito para uma sensação permanente de insuficiência, como se ele estivesse sempre em dívida com os próprios desejos e precisasse alcançar mais alguma coisa para, finalmente, se sentir satisfeito.

Por isso, embora seja importante acreditar na força individual, ela não basta sem suporte. Uma pessoa em sofrimento compulsivo, por exemplo, já dá um passo importante quando consegue conversar com alguém. A fala ajuda a elaborar emoções, perceber padrões e compreender conflitos internos. E isso se fortalece ainda mais quando esse diálogo chega aos especialistas. A psicologia acumula mais de um século de estudos e diferentes abordagens capazes de ajudar as pessoas em suas travessias emocionais.

O grande problema, no entanto, é o acesso. Mesmo valores considerados baixos para a psicoterapia ainda estão fora da realidade da maior parte da população brasileira. Isso revela um descaso histórico com a saúde mental no país. O Sistema Único de Saúde (SUS) enfrenta limites profundos, especialmente porque o teleatendimento em psicologia ainda não é incorporado de forma consistente à rede pública de atenção psicossocial. E isso é contraditório, porque hoje o atendimento online tem qualidade semelhante ao presencial e permitiria alcançar populações inteiras em lugares onde a presença física de profissionais é praticamente inviável, como comunidades ribeirinhas da Amazônia.

Também é preciso discutir a responsabilidade de setores econômicos que lucram com comportamentos compulsivos. No caso das bets, por exemplo, parte da arrecadação passou a ser destinada à saúde mental, mas o percentual recebido pelo Ministério da Saúde ainda é muito pequeno diante da dimensão do problema. O debate precisa avançar não só sobre tratamento, mas também sobre prevenção, investimento público e ampliação do acesso ao cuidado psicológico.

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