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Maragogipinho além da cerâmica: o brilho das mulheres que criam moda

Estabelecimento é passagem quase obrigatória para quem visita o maior polo cerâmico da América Latina

Gilson Jorge

Por Gilson Jorge

30/11/2025 - 1:29 h
Dona Dadá e seus netos
Dona Dadá e seus netos -

Boa parte dos clientes do Restaurante Visão do Manguezal, em Maragogipinho, na terça-feira passada, elegeu almoçar nas mesas de plástico da varanda, à margem do Rio Jaguaripe. Sob um calor de 30° centígrados, o ar livre parecia a melhor opção. Instalado há mais de 20 anos estrategicamente entre o pequeno porto e a Praça Matriz, o estabelecimento é passagem quase obrigatória para quem visita o maior polo cerâmico da América Latina.

No salão principal, com mesas de madeira cobertas por toalhas verdes, havia apenas um homem sentado, sem pratos ou talheres por perto. Camiseta branca, short azul e chapéu preto, o homem não era um cliente, mas o proprietário do estabelecimento: Laurindo Arouca dos Santos, conhecido no distrito como Laranjão.

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Ele já foi vereador, ceramista e um grande incentivador da cerâmica, atividade que ocupa boa parte de sua família. Sua sobrinha Iseilde Arouca, inclusive, é uma das duas criadoras de biojoias que participaram da edição de número 60 da São Paulo Fashion Week, em outubro passado, no desfile da marca baiana Meninos Rei.

Após se levantar da mesa e, mesmo com dificuldades na audição, dar informações sobre ceramistas, o dono do restaurante entra em seu automóvel e vai embora. A garçonete une-se à conversa sobre cerâmica, aponta para uma mulher que desce caminhando a Rua do Porto e a identifica como "a filha de Saborosa", outra artesã que esteve na São Paulo Fashion Week.

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Trata-se, na verdade, de Leila Dultra, uma soteropolitana com raízes em Maragogipinho que há cinco anos se instalou definitivamente no distrito e se tornou uma referência na produção de biojoias, embora para boa parte da comunidade seja a filha de Saborosa, um aposentado apreciador de aguardente que é muito querido pelos moradores.

Leila é a mais experiente do grupo na produção de biojoias, algo que já faz há dois anos, bem antes que se iniciasse um movimento coletivo. A artesã, que carrega o legado da avó paterna, também ceramista, começou no ramo meio por acaso. Sua família se ofereceu para hospedar uma artesã chilena que queria ficar mais tempo em Maragogipinho, mas não tinha onde ficar.

Isleide Silva Araouca, artesã, e as biojoias criadas por ela
Isleide Silva Araouca, artesã, e as biojoias criadas por ela | Foto: Uendel Galter/ Ag A Tarde

Em uma saída com a hóspede, Leila manuseou um pouco da argila e pronto! Veio o comichão e ela acabou moldando um brinco, que usa até hoje. A soteropolitana do corpo tatuado passou a ser reconhecida não só pelo apelido do pai, mas também por produzir acessórios a partir da argila.

Depois de um curso de formação em biojoias que durou três meses, as artesãs construíram uma coleção, por meio da cocriação das peças com a Meninos Rei, para o desfile da marca em São Paulo. E foi uma votação das próprias mulheres que decidiu as duas integrantes que viajariam para acompanhar o desfile da Meninos Rei.

O curso de formação foi ministrado por duas entidades. Em julho, pela Fábrica Cultural, que ensinou biojoias em argila e piaçava. E em agosto e setembro pela Associação Beneficente Ilé Axé Ojú Oniré, de Santo Amaro. A ideia das biojoias empolgou tanto as artesãs que o grupo está formalizando a Associação das Mulheres do Barro de Maragogipinho (Amubam).

Renda

Quando veio o convite para participar do curso, Leila não hesitou. "Com o projeto, a gente pôde se unir mais, dar força às mulheres e trazer o empoderamento feminino a partir da renda", afirma a artesã, que se mudou para Maragogipinho na pandemia e acabou ficando.

Leila produz brincos, colares e pulseiras com o uso de cordões naturais, tecidos de algodão e linhas ceradas e palhas. O sucesso de sua produção a levou a ceder dois brincos de uso pessoal por falta de estoque. A artesã deu um de presente durante a São Paulo Fashion Week e foi impelida a vender outro a uma cliente baiana que não queria esperar mais.

A produção de biojoias a partir da cerâmica precisa seguir algumas regras. Uma delas é que uma peça não deve pesar mais do que seis gramas. "Os brincos que foram para São Paulo pesaram um pouco mais. Só que a gente fez brincos de pressão para reduzir o peso", explica Leila.

Verônica Assis, artesã, e as biojoias criadas por ela
Verônica Assis, artesã, e as biojoias criadas por ela | Foto: Uendel Galter/ Ag A Tarde

A artesã soteropolitana aposta na formalização da associação. "As oportunidades serão maiores com a gente formalizando o grupo", afirma Leila, que tem sua própria loja em Maragogipinho e está em contato com alguns lojistas do Sudeste.

Quem nunca imaginou ir a São Paulo foi Isleide, que quase nunca sai de Maragogipinho e ri ao falar que malmente viaja a Salvador. "A experiência foi boa. Eu nunca imaginei sair daqui e ir para lá mostrar peças de barro. Ai, meu Jesus!", exclama a artesã às gargalhadas.

A possibilidade de uma viagem a São Paulo foi aventada durante o curso. "No início, a gente nem acreditava mesmo. Quando teve a votação, foi uma alegria, né?", declara a artesã antes de soltar outra gargalhada.

Imagem ilustrativa da imagem Maragogipinho além da cerâmica: o brilho das mulheres que criam moda
| Foto: Uendel Galter/ Ag A Tarde

Até o ano passado, Isleide trabalhava com parentes e a amiga Graça em uma olaria familiar. Mas quando o seu pai sofreu um AVC ela passou a trabalhar em casa mesmo, para poder tomar conta dele.

Isleide fazia pintura em tabatinga e, com a oferta do curso, decidiu arriscar a produção de biojoias e está animada com os resultados. "A gente colocou uma barraquinha no 3º Festival de Cerâmica de MAragogipinho [que ocorreu de 14 a 16 de novembro] e foi um sucesso, graças a Deus. Estamos caminhando, né?", comemora Isleide.

Tauá

A primeira biojoia feita por Veronica Assis durante o curso foi um colar moldado a partir da proposta feita pelos designers da Meninos Rei. "A gente trabalha muito com mandalas aqui e eu juntei com o tauá (argila vermelha) e a tabatinga (argila branca)” , justifica a artesã, que mantém um ateliê com a sua família na Praça Matriz. Surgiu assim o colar Mandala de Tauá.

Iseilde, Leila e mais algumas mulheres se reuniram no meio da tarde na sede da Associação de Auxílio Mútuo dos Oleiros de Maragogipinho. Elas estão fazendo agora o curso de gestão e mercado, ministrado pelo agrônomo, professor e consultor Medson Janer da Silva, que dura até 18 de dezembro. Ele já ministrou os dois primeiros módulos, de precificação estratégica e outro de associativismo e cooperativismo.

Dona Dadá e seus netos
Dona Dadá e seus netos | Foto: Uendel Galter/ Ag A Tarde

"Este curso mostrou à comunidade que o barro pode ir muito além do uso tradicional", considera a assistente social maragogipense Daionã Luz Vila Nova, que cita como exemplo a ressignificação da tradição local de pintura em cerâmica. "A produção de biojoias mostrou novas possibilidades", afirma Daionã, que foi contratada como assistente pedagógica pela Associação Beneficente Ilê Axé Ojú Oniré.

Festival

Mexer com cerâmica no distrito é, tradicionalmente, uma ocupação masculina, com raras exceções. Às mulheres, cabia basicamente fazer o polimento das peças e a pintura em tauá e tabatinga, características da região.

Com a criação do Festival de Cerâmica, em 2023, a Secretaria do Trabalho, Emprego e Renda (Setre) levou até Maragogipinho um curso de biojoias, acessórios artesanais feitos a partir de elementos naturais. Algo que já era comum na Amazônia, por exemplo.

O diretor de Cultura de Aratuípe, Luciano dos Santos, é um exemplo da força da cerâmica na região. Nascido em um sítio em Jaguaripe, Luciano tinha quatro anos de idade quando seus pais levaram a família para Maragogipinho em busca de escola para os filhos. No total, o casal teve 15 crianças, mas três não sobreviveram. Com a ajuda de Laranjão, os meninos foram conseguindo trabalho à medida em que cresciam. Mas os sete filhos do sexo masculino acabaram se dedicando à cerâmica.

Os ventos mudaram nos últimos anos e o recorte de gênero na atividade está desaparecendo com a ajuda das biojoias. Luciano destaca o desempenho das alunas do curso. "Foi uma surpresa muito grande, a gente viu um destaque no geral", afirma o diretor.

Luciano Marago, diretor de cultura de Maragogipinho
Luciano Marago, diretor de cultura de Maragogipinho | Foto: Uendel Galter/ Ag A Tarde

Maragogipinho tem uma população estimada em cerca de 3 mil pessoas, o que representa um terço dos aratuipenses. A produção de cerâmica na região, que remonta ao período colonial, era ecoada basicamente através da Feira dos Caxixis, em Nazaré das Farinhas. Nos últimos anos, o distrito tem buscado ser protagonista na comercialização de seus produtos e as biojoias são uma aposta nessa direção. "Depois do festival, houve uma evolução para a gente no sentido econômico e no sentido produtivo, porque hoje a gente está expandindo para o Brasil inteiro", afirma o diretor.

O coordenador de Fomento ao Artesanato da Setre (Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte da Bahia), Weslen Moreira, destaca que essa ação está baseada no tripé qualificação, promoção e vendas. "Para além disso, está a possibilidade de inserir as mulheres de Maragogipinho na cadeia produtiva do artesanato", afirma o gestor.

Entre as artesãs maragogipenses, há uma notável exceção à regra de que mulheres não são protagonistas. Aos 94 anos, Dona Dadá, que continua ativa, sempre criou as próprias peças.

No ateliê que funciona dentro de sua própria casa, a veterana hoje conta com o auxílio empolgado da neta Luna, de 6 anos, para criar acessórios e, há poucos meses, as biojoias que começaram a ser produzidas após o curso, que ela fez questão de fazer. "O curso foi maravilhoso. Eu agradeço o apoio do governo. É algo que nunca tivemos", exalta a matriarca.

Seus colares estão à venda em três lojas no centro de Maragogipinho. Um dos aspectos positivos do curso para Dona Dadá é, justamente, o apoio às artesãs do distrito. "Esse curso deu um valor danado às mulheres. Muito mesmo", afirma.

Dona Dadá diz que já não produz no mesmo ritmo, mas no final da tarde de terça já haviam sido produzidas, com a ajuda de Luna, 50 flores de cerâmica. Ao saber que a vovó artesã estava sendo fotografada, Luna corre para o ateliê junto com outro neto, Guilherme, e o bisneto Benjamim, ambos de 5 anos. Dentro e fora de casa, não falta em Maragogipinho quem possa herdar o seu legado.

  • Biojoia ceiada por dona Dadá
    Biojoia ceiada por dona Dadá |
  • Maragogipinho além da cerâmica: o brilho das mulheres que criam moda
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  • Maragogipinho além da cerâmica: o brilho das mulheres que criam moda
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  • Verônica Assis, artesã, e as biojoias criadas por ela
    Verônica Assis, artesã, e as biojoias criadas por ela |

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