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Muito além do relaxamento: como o yoga se tornou essencial para a saúde mental dos soteropolitanos
Conheça os estilos de yoga que estão ganhando cada vez mais adeptos na Bahia

Cresce em Salvador um movimento de quem tenta sair do descompasso da correria do dia a dia. A prática do yoga deixou de ser um hábito restrito a nichos e passou a ocupar a rotina de uma maior parte de pessoas, que busca algo cada vez mais raro: respirar com presença.
A psicóloga Thaís Prado testemunha o aumento desta busca na clínica. Para ela, há um conflito estrutural nesse cenário contemporâneo. “O nosso organismo não foi feito para sustentar esse nível de aceleração constante”, explica. O resultado aparece em forma de sintomas. “Vai criando um conflito interno e aí aparecem ansiedade, depressão, como uma tentativa de o corpo se organizar”.
A leitura da psicóloga aponta para um descompasso entre o ritmo biológico e as exigências externas. É justamente no intervalo entre o cansaço e a tentativa de reorganização que práticas como o yoga ganham espaço.
A influenciadora Nathalia Bulcão, de 27 anos, encontrou no kurunta yoga uma forma de aliviar as tensões da semana. A modalidade utiliza cordas presas à parede para sustentar o corpo, permitindo aprofundar posturas com mais apoio, alinhamento e relaxamento. “É a minha válvula de escape", diz Nathalia. "Me sinto menos relaxada quando não vou, parece que lá me liberto de tudo aquilo que não preciso carregar”.
A ideia de acolhimento aparece com frequência entre praticantes do exercício. O engenheiro civil Bruno Almeida, por exemplo, não se via nesse universo. Acostumado a uma rotina de alta responsabilidade, ele acreditava que não dava para desacelerar. “Eu sempre achei que era muito difícil parar, respirar e relaxar”, lembra.
A aproximação com a yoga restaurativa foi, inicialmente, uma tentativa e acabou se tornando hábito. “Você começa a entender como o seu corpo funciona, mostra para ele que você precisa descansar", conta.
A modalidade praticada por Bruno utiliza posturas sustentadas com apoio de acessórios, como almofadas e blocos, para promover relaxamento profundo e descanso do corpo e da mente.
Os efeitos foram percebidos de forma concreta no cotidiano dele. “Toda vez que eu faço aula, volto para casa e consigo dormir maravilhosamente bem”, diz. Mais do que um momento pontual, a prática passou a atravessar sua rotina. “São exercícios que eu consegui levar para meu dia a dia”.
Se antes o yoga era associado a um imaginário específico, com corpos muito flexíveis e em ambientes silenciosos, hoje a modalidade se apresenta de forma mais diversa. Professora de yoga há cinco anos, Renata de Gino observa essa mudança no perfil dos alunos. “A principal busca é por saúde mental", testemunha. "A maioria chega ansiosa, acelerada, com excesso de pensamentos e desconectada do próprio corpo”.
Para ela, o crescimento dessa procura está diretamente ligado ao modo de vida contemporâneo. De acordo com Renata, existe uma urgência em aprender a viver com mais conforto dentro do próprio corpo. Nesse contexto, ferramentas simples ganham protagonismo. “Respirar de forma lenta e consciente é um luxo que deveria ser comum”.
A fala de Renata toca em um ponto central: a dificuldade de sustentar a pausa. Em um ambiente marcado por estímulos constantes, parar exige quase um esforço ativo. “As pessoas relatam uma dificuldade muito grande de desacelerar e de sustentar momentos de presença”, completa.
Esse cenário ajuda a explicar por que práticas contemplativas deixaram de ser apenas uma tendência e passaram a ocupar um lugar mais estrutural na vida de muitas pessoas. Ainda assim, especialistas alertam para o risco de tratar essas ferramentas como soluções rápidas.
Para Thaís, é preciso olhar para a questão de forma mais profunda. “As pessoas tentam desacelerar com técnicas pontuais, sem reorganizar o próprio funcionamento", explica. "Vem o alívio imediato, mas não sustenta”. A proposta, segundo ela, é integrar. Ou seja, não deve ser só relaxar, mas reorganizar a mente, o corpo e as relações.

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Festival Yogas
A professora Juliana Barrena é uma das idealizadoras do Festival Yogas, que vai ocorrer em Salvador nos dias 16 e 17 de maio, e pretende reunir diferentes práticas e linguagens em um mesmo espaço, ampliando o acesso e desconstruindo estereótipos.
Ela percebe essa demanda crescente no dia a dia das aulas que oferece. “A gente vive tempos em que a cultura da produtividade excessiva prevalece”, analisa. Para ela, há uma sensação constante de urgência. “É como se estivéssemos sempre atendendo a uma demanda externa infinita".
O festival, que será realizado no Museu de Arte da Bahia (MAB) aposta na pluralidade como eixo central. Diferentes estilos de yoga – do Vinyasa ao Kemetic – convivem com atividades como rodas de conversa, mantras, práticas de respiração e experiências sonoras.
A ideia é mostrar que não existe uma única forma de praticar. “O yoga é plural, vivo, se adapta a cada território e cultura”, diz Juliana.
Além das práticas, o festival também incorpora elementos culturais e de convivência, aproximando o yoga de outras expressões artísticas e do cotidiano da cidade. A escolha do MAB como sede reforça esse diálogo entre corpo, arte e consciência, de acordo com Juliana.
Esse tipo de iniciativa revela que o crescimento do yoga em Salvador não acontece de forma isolada. De acordo com a professora, ele está conectado a um movimento mais amplo de busca por bem-estar, mas também a uma necessidade concreta de lidar com os impactos de uma vida acelerada.

Para Juliana, a confusão da rotina pode esconder um cansaço coletivo. “Está todo mundo sofrendo por exaustão”, afirma. Nesse contexto, o yoga aparece como caminho possível para redirecionar a atenção: “Quando a gente olha para dentro, entende que essa pressa não é nossa, é algo externo".
Ao mesmo tempo, a expansão da prática levanta reflexões importantes sobre acesso e mercado. Juliana destaca a importância de valorizar os profissionais da área e de construir uma relação mais consciente com o consumo dessas experiências. “Aquilo que a gente escolhe movimentar é onde a gente move o mercado”, afirma.
No cotidiano, no entanto, a transformação acontece em pequenas escalas, de acordo com a psicóloga Thaís Prado [veja dicas da profissional no box ao lado]: na respiração mais consciente, no sono que melhora, na relação que se torna mais leve. Nathalia resume essa mudança de forma simples: “Uma pessoa mais leve tem relações mais leves também, vejo isso no meu dia a dia".
Serviço
Festival Yogas – Programação
Atividades gratuitas e pagas no auditório do MAB, com programação cultural e feira BaZá RoZê, feira que valoriza o empreendedorismo feminino com opções gastronômicas, artesanais e artísticas na área externa do museu
Endereço: Museu de Arte da Bahia (MAB), Avenida Sete de Setembro, 2340, no Corredor da Vitória, em Salvador, Bahia
Dias: 16 e 17 de maio
Sábado
Horários:
8h: abertura com roda de mantras
9h15: Vinyasa Yoga
14h: roda de conversa sobre pluralidade
16h: Kemetic Yoga
17h: Hatha Yoga
Domingo
Horários:
9h: Ashtanga Yoga
10h30: Budokon Yoga
14h: soundhealing
15h15: Iyengar Yoga
17h45: aula de rebolado
5 caminhos para desacelerar no dia a dia
(Dicas da psicóloga Thaís Prado)

Desacelerar não significa parar completamente, mas encontrar um ritmo mais possível dentro da rotina. Em uma cidade como Salvador, onde a vida pulsa em muitos sentidos, pequenas mudanças já podem fazer diferença. Confira cinco caminhos simples para começar:
1. Comece pela respiração
Reserve alguns minutos do dia para respirar de forma consciente. Inspirar e expirar lentamente ajuda a regular o sistema nervoso e trazer o corpo para o presente.
2. Crie pausas reais
Não basta “dar uma olhada no celular” entre tarefas. Pausas efetivas envolvem se desconectar por alguns minutos — pode ser alongar o corpo, tomar um café com calma ou simplesmente não fazer nada.
3. Encontre uma prática corporal
Yoga, caminhada, dança ou qualquer atividade que conecte corpo e mente pode ajudar a liberar tensões acumuladas e aumentar a percepção sobre si.
4. Observe seus limites
Nem toda demanda precisa ser atendida imediatamente. Aprender a dizer “não” e reconhecer o próprio cansaço é parte essencial do autocuidado.
5. Cultive constância, não perfeição
Desacelerar é um processo. Pequenas mudanças feitas com regularidade tendem a ser mais eficazes do que grandes tentativas que não se sustentam.
Vários tipos de yoga
Do mais dinâmico ao mais introspectivo, o yoga reúne diferentes estilos e propostas. O Vinyasa conecta movimento e respiração em fluxos contínuos e criativos. O Hatha é mais tradicional, com foco no equilíbrio entre corpo e mente. O Ashtanga segue séries fixas e intensas de posturas. O Iyengar valoriza o alinhamento preciso, com uso de acessórios.
A yoga restaurativa, como a praticada por Bruno Almeida, utiliza apoios para promover relaxamento profundo. Já o kurunta yoga (ou kurunga), praticado por Nathalia Bulcão, usa cordas presas à parede para dar suporte ao corpo, facilitando alongamentos e ampliando a percepção corporal. O Kemetic, por sua vez, resgata bases ancestrais africanas com movimentos geométricos e consciência respiratória.
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