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Muito além do São João: onde curtir forró o ano inteiro em Salvador
Conheça festas que mantêm o ritmo em alta fora da época junina


Comida e música são elementos que conectam as pessoas. Em um almoço de família, em jantares românticos, em mesas de bares ou celebrações populares, uma trilha sonora quase sempre faz parte do menu principal. Por isso mesmo, uma das épocas mais queridas para os brasileiros, especialmente os nordestinos, é o São João. Além das delícias culinárias do período, o protagonista do mês é o forró que, para muitos, parece que só tem vez e voz no sexto mês do ano. Mas em Salvador existem diversas iniciativas que mostram que o gênero musical se desdobra ao longo do ano.
Sanfoneiro e compositor, Jó Miranda foi o criador do Domingo com Jó, um forró que acontecia todos os domingos, desde 2009. O público se deixava levar pela batida da música, mas uma das casas onde o evento era realizado tinha o piso aderente demais para dançar. Então ele veio com a ideia de jogar pó de talco pelo salão, e a técnica foi tão bem-sucedida que os frequentadores da festa já não mais chamavam o projeto de Domingo com Jó: tornou-se o Forró do Talco.
Atualmente, a festa é considerada o maior forró de Salvador por quem frequenta eventos do gênero. Jó realiza o evento com esse nome desde 2011, todos os domingos, com raríssimas interrupções. Mesmo na pandemia, o forró acontecia no formato on-line – foi a forma que o forrozeiro encontrou para não parar o xote. Ele acredita que o forró é um estilo de vida.
“É um ritmo, é um modo de vida. A pessoa que gosta de samba, vai para o samba o ano todo. A pessoa que gosta de rock, vai para o rock o ano inteiro. Então, a pessoa que vai para o forró, ela não vai curtir forró só em junho. No carro, em casa, durante a faxina, ela continua ouvindo. Não é o forró que precisa do São João para existir, é o São João que precisa do forró”, reflete.
Atualmente, o evento acontece na casa de shows Primeira Saída, na Pituba, e se prepara para programações especiais para a celebração de 15 anos de projeto no segundo semestre.
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Projetos novos
Na festa já passaram artistas como Flávio José, Adelmário Coelho, Estakazero, Genival Lacerda, Maestrinho, além de outros nomes conhecidos e bandas que foram impulsionadas pelo Forró do Talco, como U Tal do Xote. Jó também busca abrir portas para novos artistas com o projeto.
“Eu me importo muito com a questão de abraçar projetos novos. Tem muita gente assim que quando está começando me procura, e a gente abre espaço. Para eles, nós fazemos a mesma divulgação que fizemos para anunciar Flávio José, não tem essa distinção. Todo mundo é bem-vindo no forró”, declara.
Pessoas de todo o mundo já passaram pelo Forró do Talco, além de outros projetos da cidade, mostrando que o compasso das músicas é tão contagiante que é capaz de movimentar pessoas de todos os lugares.
A noção de que a música reúne as pessoas vem da compreensão de que fazê-la é um processo subjetivo, pessoal e muito íntimo. Quando o público se conecta a esses elementos, especialmente em pistas de dança, não importam distinções, só se quer dançar. Foi esse encantamento que fez os olhos do baiano Paulo Góes brilhar, quando foi a um show de forró e ficou fascinado com o envolvimento das pessoas com o ritmo.
A partir daí, começou a colecionar CDs e coletâneas de grandes forrozeiros. Hoje, Paulo é DJ e produz o evento Quinta do Baião, no qual a pista é conduzida pela discotecagem de CDs das mais diversas vertentes do forró.
Periodicamente, ele convida trios e artistas para fazerem sons ao vivo. Desde 2018, a Quinta do Baião acontece quinzenalmente, na Casa da Felicidade, no Rio Vermelho. Com a próxima edição marcada para o dia 3 de junho, o DJ afirma que o projeto é um sonho realizado.
“É um baile alternativo e independente, eu faço quase tudo sozinho, desde redes sociais até a organização do evento. Também pesquiso e estudo muito, não toco só o que é famoso. Gosto de levar outras músicas não tão conhecidas para o público. Eu faço por paixão, uma paixão que está dando certo”. Ele encara o forró como um transe, e observa que na pista de dança as pessoas se esquecem das diferenças: “A galera da Quinta é diferentona, tem gente de todo jeito. Porque a dança faz com que você não tenha vergonha. Então, são pessoas que se expressam sem vergonha. Todo mundo está ali só para se envolver com a dança e curtir o momento”.
Fusão de ritmos
Além da dispersão geográfica e dos diferentes ouvintes, o forró também é diverso em sonoridade. Para Ricardo Buruá, explorar as possibilidades rítmicas dentro do gênero é parte essencial de seu trabalho. Ele cresceu ouvindo MPB e forró, passou a adolescência ouvindo rock e quando se mudou para Salvador para seguir a formação em música, teve contato com ainda mais faces musicais. Assim, ele foi se desenvolvendo como multi-instrumentista, compositor e musicista: bebendo de diferentes fontes, mas mantendo o forró no eixo central.
“Os ritmos se comunicam muito. Na MPB existem vários exemplos de como eles se unificam. Eles partem de matrizes parecidas e aparecem de várias maneiras hoje também, porque a cultura vive, ela é praticamente como a vida, vai em ondas. Tem hora que ela cresce, tem hora que ela diminui, mas sempre se renova.”
Atualmente, Ricardo se prepara para iniciar a nova temporada do seu projeto Forró Não Para, que ele realiza bimestralmente. A última edição do evento aconteceu no mês de maio, e a próxima está agendada para julho.
Com esse projeto, ele levanta a bandeira de que o ritmo não é sazonal e que não acaba em junho. Ele também aponta para outros projetos e artistas com a mesma proposta, como o Forró da Gota, a DJ Preta, e escolas de forró como a Ecoar, que é parceira do projeto.
“O forró realmente não para. É uma sinalização, uma constatação, eu não cheguei com isso, eu não criei isso. Existem inúmeros projetos na cidade, e o que eu e todos os outros fazemos é impulsionar esse movimento, não deixar o forró escondido em junho. E é preciso continuar, pois nós forrozeiros precisamos continuar, e o público também precisa continuar se alegrando, se envolvendo com a música”.
Mais informações sobre a agenda dos projetos nos perfis do Instagram: @forrodotalco, @quintadobaiao e @forro.nao.para.
*Com supervisão do editor Marcos Dias


