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Nova edição do Encontro de Artes celebra longevidade e criatividade

Festival será aberto no dia 31 de agosto com a exposição Laerte Tempo Presente, na Esplanada do TCA

Gilson Jorge
Por Gilson Jorge
Dança de gerações: Agnaldo e Paullo Fonseca
Dança de gerações: Agnaldo e Paullo Fonseca - Foto: Uendel Galter / Ag. A TARDE

Em 2008, o dançarino Paullo Fonseca, então com 47 anos, recebeu do governo do Estado o convite para dirigir o Balé do Teatro Castro Alves. Foi o primeiro negro a assumir o posto da companhia, fundada em 1981. Sob seu comando, a instituição ficou dividida entre a insubordinação e a indiferença. Uma parte do corpo não aceitava a sua autoridade e outra se manteve em silêncio até que ele deixasse o cargo, no ano seguinte.

"Foi forte. Foi babado. Uma vez entraram no meu gabinete e disseram que eu não tinha perfil para estar ali. Uma pessoa me disse que não iria me obedecer", afirma o bailarino, que credita a resistência ao racismo e ao contexto político da mudança de governo no estado.

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Parceiro de Paullo em projetos de dança há cinco anos, o também bailarino e coreógrafo Agnaldo Fonseca remarca, entretanto, que o curto mandato de Paullo na direção não foi fruto das resistências. "Foi uma questão burocrática da estrutura de governo, mas ele realizou coisas, projetos foram aprovados”, destaca Agnaldo.

Aos 61 anos, Paullo permanece ativo como dançarino do BTCA e também toca seus projetos paralelos. No seu trabalho atual, Pacífico, ele trata do legado cultural dos povos originários do México, América Central e Amazônia, com sua influência na região Norte do Brasil. Paullo ainda tenta, através da arte, apontar caminhos para a sociedade: "Se você está no meio da selva, não há uma estrada certa. Ela está muito ligada às percepções daquele momento em que você está descobrindo e abrindo".

Político e revolucionário

Agnaldo considera que o trabalho cênico do artista sexagenário é, mais do que estético, político e revolucionário: "O seu padrão de produção artística é muito ligado ao coletivo. Tem ali um pas-de-deux, um solo, mas essa postura que Paulinho tem é para todos nós. Não à toa, estou com ele há mais de cinco anos".

Para os organizadores do IC Encontro de Artes, que este ano comemora sua 15ª edição, com o tema Futuro Tempo Presente, celebrando a longevidade artística, o nome de Paullo se encaixou como uma luva na programação. Além dele, o IC [Interação e Conectividade] deste ano traz o espetáculo de dança Só, com a bailarina Denise Stutz, fundadora do Grupo Corpo, no dia 1º de setembro, na Sala do Coro do TCA, e um show de Tom Zé, na Concha Acústica, no dia 2 de setembro, dentro do projeto Toca!, entre outros. O festival será aberto no dia 31 de agosto com a exposição Laerte Tempo Presente, na Esplanada do TCA. A cartunista, entretanto, não vem a Salvador para o evento.

A ideia de celebrar a longevidade artística, com foco em personalidades com mais de 60 anos, tem muito a ver com as dificuldades que a Dimenti Produções, organizadora do IC, encontrou ao longo desses 15 anos de festival. "A gente vem falando muito sobre a dificuldade que é continuar existindo, ainda mais quem trabalha com arte. É uma tarefa hercúlea ter um trabalho continuado em meio a tantas descontinuidades", afirma a produtora e gestora cultural Ellen Mello, co-fundadora e diretora da Dimenti.

Incertezas

No caminho do grupo, como da maioria dos artistas, a dificuldade de financiamento e as incertezas quanto a políticas públicas para o setor. "Nós tínhamos muito a celebrar e aí ficamos pensando no mote curatorial dessa edição, que é falar menos sobre o que tinha passado e mais projetar o que ainda está chegando", afirma Ellen.

Também fundador da Dimenti, o dançarino e mestre em artes cênicas Jorge Alencar sublinha que o mote é uma longevidade que continua apontando para novas perspectivas e novos futuros. "Não é sobre idade. É um enquadramento sobre quem continua mobilizando, provocando, desafiando. É sobre ancestralidades, mas também sobre futuridades, como aponta o professor Renato Nogueira", afirma Jorge, refererindo-se ao professor e filósofo fluminense.

Um outro aspecto ressaltado por Jorge, sobre os percalços de quem tem mais de 60 anos, foi a experiência da pandemia. "Houve um descaso com essas pessoas, inclusive por parte do poder federal", acentua o pesquisador, que descarta a ideia de que o IC esteja fazendo uma homenagem a quem já produziu e , portanto, não teria mais contribuições a oferecer.

A exaltação da juventude corporal é uma questão espalhada por toda a cultura, mas Ellen Mello considera que há interseccionalidades que agravam a situação de alguns perfis profissionais, notadamente mulheres, sobretudo na dança. "Há uma apologia ao corpo jovem", afirma.

Mas mesmo os profissionais da dança ponderam que existem duas questões em jogo: a limitação física imposta pelo tempo e o mero preconceito. "Estamos nos perguntando o que pode o Corpo? Quais são as potências de um Corpo?", questiona Jorge Alencar.

Denise Stutz, que completa 67 em dezembro, admite as limitações impostas ao bailarino depois dos 30 ou 40, pelo corpo e pelo mercado de trabalho, e aponta para a variação na formação. "Meu percurso na dança está muito ligado ao fato de eu ter estudado teatro. Eu me coloquei também como atriz", pontua Denise, que no IC protagoniza o espetáculo Partida, com direção de Debora Lamm.

O texto é inspirado na carta real de uma mulher de 74 anos que, enquanto assiste a uma peça de teatro, tem uma epifania e começa a escrever ao amante 30 anos mais jovem, encerrando o relacionamento. Escrito pela própria Denise, o espetáculo aborda o passar do tempo e o envelhecimento.

Língua brasileira

Se a dança de Paullo Fonseca remete ao Oceano Pacífico, a música mergulha no Atlântico. Um dos destaques da programação do IC este ano, Tom Zé chega na esteira do lançamento de seu novo disco/show Língua Brasileira, um minucioso trabalho de pesquisa sobre o nosso idioma, este que praticamos na costa Ocidental do Atlântico.

Tom Zé explica que Língua Brasileira persegue uma série de respostas, que classifica como complexas, delicadas e contundentes. "Os próprios episódios da história da construção da língua são inesperados e eram desconhecidos antes da investigação de especialistas como Caetano Galindo, Eduardo Navarro e a própria e eficiente baiana Yêda Pessoa de Castro, cuja brilhante história pessoal foi escrita justamente por desobedecer a instrução de seus professores quanto aos passos que devia dar depois de sua graduação", afirma.

O artista conta que Yêda foi desestimulada a estudar e discutir a influência das línguas africanas no português do Brasil, principalmente na vida cultural da Bahia, povoada por diversos falares do continente africano. "São falares trazidos pelo candomblé, pela cultura iorubá, que desde os anos 50 povoavam e salpicavam até a Igreja e o catolicismo, no conhecido sincretismo", afirma.

Sobre os aportes ao português corrente, vindos da língua inglesa e da rapidez da internet, Tom Zé é taxativo: "Essa influência é de outro caráter completamente diverso. Há a invasão da língua norte-americana através da Internet e de suas siglas idiotas, que mesmo assim são levadas em consideração".

Apesar de deixar clara sua oposição ao atual governo federal, Tom Zé evita mencionar o nome do presidente e recorre ao teórico da comunicação Marshall McLuhan para se explicar: “No livro O Meio é a Mensagem já se propalava que falar citando nomes e atitudes daquilo que se combate, resulta em propaganda, não em combate. A tradução simplória disso é ‘falem mal de mim, mas falem de mim’. O que se vê diariamente em todos os meios de comunicação".

Sobre a questão da longevidade artística, Tom Zé diz que é uma iniciativa do IC que ele não desaprova. E se declara animado: "Estou contente, entusiasmado por participar desse Festival e por levar o show Língua Brasileira à Bahia. Viva a Bahia!", conclama o músico nascido em Irará.

Com o assassinato de Glauco, em 2010, e a aposentadoria de Angeli em abril deste ano por questões de saúde, Laerte se tornou a remanescente do trio de cartunistas que causou furor na década de 1980 com Los Três Amigos, personagens da mítica revista em quadrinhos Chiclete com Banana. Posteriormente, o gaúcho Adão Iturrusgaray aderiria ao grupo.

Durante duas décadas os três dividiram harmonicamente o espaço nas páginas de opinião da Folha de São Paulo, retratando com humor a política, a cultura e a sociedade, até que o assassinato de Glauco, em 12 de março de 2010, o tirou de cena.

Criadora dos Piratas do Tietê, Laerte, 71 anos, tornou-se nos últimos anos uma referência obrigatória da charge, por seu engajamento em temas políticos e de direitos humanos. Mesmo com a proliferação dos memes, não é raro ver um desenho da Laerte circulando nos ambientes digitais. Mas a cartunista refuta o posto de símbolo de uma época.

"Posso ser representante de geração, mas não sou a única! Aliás, acho que a internet contribui para que essas fronteiras geracionais fiquem diluídas. Em termos de modalidades, a charge continua tendo mais ou menos o mesmo contorno que tinha na época de mídia impressa exclusiva. Talvez não haja tanta quebra de formato, afinal. Penso aqui em memes como uma linguagem claramente internética. E a internet tem significado um alcance e uma velocidade maiores, claro", afirma.

Público

A 15ª. Edição do IC Encontro de Artes marca a retomada do público. Em 2020, o evento não aconteceu e, no ano passado, foi realizado virtualmente. Desde 2012, o evento tem apoio financeiro do Fundo de Cultura do Governo do Estado através do Edital de Eventos Culturais Calendarizados. A programação acontece de 31 de agosto a 4 de setembro na Concha Acústica do TCA, Sala do Coro, Esplanada do TCA e no Pátio do Goethe.

Há atrações gratuitas, como a exposição Laerte Tempo Presente, e as do pátio do Goethe Institut, como a apresentação Serenatas dançadas: instalação e exibição do filme homônimo de Soraya Portela, e a Roda de Samba das Mulheres de Itapuã. O show de Tom Zé custa R$ 80 (inteira), e apresentações de dança na Sala do Coro custam R$ 40 (inteira). Programação completa: www.icencontrodeartes.com.br.

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