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O feitiço de Rita Lee: por que a ovelha negra do rock ainda vive
A ovelha negra não sai de moda: psicanalista reflete sobre o legado de Rita Lee


Provocações. Sinto uma falta inexorável das entrevistas pontiagudas, cortantes, certeiras. Abujamra atravessava os convidados com suas perguntas repletas de farpas e profundidade. Ele me fisgava com o produto interno bruto das tramas da sua sobrancelha. Era o algoz da minha fantasia. O mago Ravengar. Para além dele, sua obra reverbera como música. Assisti a uma exibição do seu rebento. Um fazedor de sons, um escutador de timbres. Um mago da identidade auditiva. Sempre tive um sonho secreto. A música é o veículo, mas o motor é a radiola. Melhor dizendo, a mesa de edição. Queria muito ser DJ, mas me disseram que era preciso saber mais que matemática. Era necessário tocar instrumentos e um não sei o que de outras tantas coisas. Outro dia vi uma senhorinha japonesa que agita a madrugada em Tóquio. Senti inveja da sua capacidade de agitar as massas. Ser capaz de assumir outra roupa, outro sonho, outra perplexidade.
Tudo isso me provoca. E para me acalmar, escrevo.
Desta vez, a propósito de Rita. Não é seu aniversário, nem nada. Rita é, em si, um acontecimento. E acontece que a musa do rock tocava flauta e teremim. Mutatis, mutandis, entregou performances e contagiou gerações ora com pitadas, ora com porções recalcadas de irreverência. Sobreviveu à ditadura, driblou a censura e extasiou a crítica com sua ousadia explicita. Ovelha negra autodeclarada, contribuiu decisivamente para a discografia do rock nacional. Sobreviveu às altercações da indústria e aos códigos e gêneros musicais. Viveu uma vida extravagante e escolheu se recolher discretamente antes que as cortinas se fechassem sobre si.
A Rita não cabe em palavras. Ela se deslocou pelo tempo, sustentando um feitiço que aquilata. Ela é uma efeméride. No palco, esbanjou irreverência, rebeldia e sensibilidade. Provocou inúmeras saias justas enquanto integrou o programa da GNT durante o biênio de 2002 até 2004. Ensinou a não menos encantada Fernanda Young a utilizar um preservativo. Velhice, finitude, intimidade e perplexidades circulavam livremente no sofá daquele programa.
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Rita não se deixou seduzir pelo chamado narcísico da beleza. Fina, usou e abusou do deboche, da sinceridade e da ironia. Respondeu com humor ao envelhecimento, sem encobrir as dificuldades. Ameixa pode se reidratar. Difícil mesmo é ser conduzida entre acordes, sem perder a relevância. A gente ainda segue com disposição para escutar Rita e suas provocações melódicas. Rita é do balacobaco. Nenhum assunto era proibido. Mandou, no ar, uma ode à flatulência. Escatológica até a última gota. Na crista da treta, criticou a uber model brasileira que desfilou com casaco de pele de foca. Mandou a bela tomar naquele lugar (a tonga da mironga do kabuletê?). Não há registros desse momento icônico, mas a experiência ficou registrada em seu livro de memórias.
Rita amava os bichos. Ela mesma, um bicho esquisito que sangra, teima e não morre. Porque vive dentro da gente. Provoca fortes identificações e é rememorada independente da data do seu aniversário ou passamento. Rita não passa. Não sai de moda. Ela foi entretecida atravessando gerações. Foi assim que a gente se constituiu na esperança de um encontro lança-perfume, que nos desbaratine e nos encha de amor.
*Psicanalista


