CRÔNICA
Tenha a santa paciência
Leia a crônica deste domingo, 12


No grupo do condomínio todos reclamam do barulho no prédio e nas ruas próximas. Uma vizinha posta uma foto de tampões de ouvido e escreve:
— Já faz um tempo que durmo com esses protetores. Em cima do meu apartamento vive um Satanás que adora fazer zoada após às 22h e isso nunca foi resolvido. Infelizmente, a falta de educação e desrespeito durante a noite aqui é um absurdo, descarga, liquidificador, TV, som alto. Fazem o que querem.
Sim, tem horas que o caldo entorna, e até o mais doce dos anjos explode.
Vejo aqui no documentário 3 obás de Xangô (direção de Sérgio Machado) Jorge Amado dizer que aprendeu com o povo da Bahia “que é melhor você viver na cumplicidade da vida do que viver na peleja da vida, na luta de uns contra os outros, nessa ânsia de superar os demais”. E eu, que também amo o povo, bem posso ser testemunha de que essa fórmula é boa, mas nem sempre funciona.
Muitas vezes a mágoa parece silenciada, mas continua ali, escondida, na fofoca, na maledicência, no olhar atravessado, na prece negativa que pessoas religiosas fazem muito empenhadas nos seus pensamentos, o que elas chamam de “guerra espiritual”. Depois, num dia trivial, o conflito explode a olhos vistos.
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Deus me livre de botar mais lenha na fogueira das querelas, ainda mais porque creio que alguém lá em cima gosta de mim (não no apartamento de cima, exatamente, um pouco mais além, no céu profundo). Mas o ser humano não é mole mesmo, para o bem e para o mal, principalmente no meio dos brasileiros, tantas vezes dissimulados.
Por falar em céu profundo, num dia desses eu andava pelas ruas do Centro de Salvador, quando vi um homem apontar para o céu e falar para outro:
— Fosse um bem-te-vi, batia nele.
Com algum jeitinho perguntei o que havia acontecido, e me explicaram que um gavião passara por ali perseguindo uma jandaia, ave que é parecida com um papagaio, mas que fala bem menos. Disseram que o gavião é feroz mas não ataca o bem-te-vi, porque esse pássaro, embora muito pequeno, é valente e reage à caça.
Outro dia, ainda pelo Centro, eu cantava pela calçada, em voz alta, aquele velho sucesso de Ângela Maria, Tango pra Tereza (composição de Jair Amorim e Evaldo Gouveia). Assim que entoei a frase “Trago a vida agora calma”, um idoso, de aparência bastante maltratada e com cara de poucos amigos, surgiu no caminho e gritou:
— A vida não é calma não, coroa, a vida é uma desgra…
Surpreso, desviei o olhar e segui o meu rumo, tentando segurar nos lábios o refrão da música, “A luz do cabaré já se apagou em mim”...
Mas voltando aos brasileiros, todo dia o malandro e o otário saem de casa e convivem muito bem, fazendo novos pactos, zerando o jogo, sem ressentimentos da parte de quem recebe os golpes. O povo é crédulo e cúmplice. Acredita em qualquer profeta de carrão e em qualquer história de disco voador. Joga em qualquer aposta eletrônica. No seu conto de fadas, sonha com a volta da monarquia, e alguns colocam no trono famílias de políticos. Outros acham que é pecado ter direitos, e saem pregando o sofrimento como virtude.
Quem me lê aqui e no grupo do condomínio, sabem que eu sempre evito polêmicas, ainda mais quando as pessoas não querem mudar. Na maior parte do tempo sou jandaia. Falo, mas sempre repetindo frases curtas.
No entanto, tenho também por dentro algum temperamento de bem-te-vi, e um par de olhos que pode amargar as pessoas mesmo quando eles, os olhos, fingem sorrir.
Isso deve ser coisa do meu signo, ou sinal de azedume do homem moderno. Ou sou mesmo assim, às vezes arisco.
Tem hora pra tudo.
*Franklin Carvalho é autor de Tesserato – A tempestade a caminho (Ed. Noir)


