Busca interna do iBahia
HOME > MUITO

PERFIL

Poeta baiano conquista prêmio da ABL e ganha destaque nacional

Criado na zona rural de Santo Estevão, poeta venceu o Prêmio da Academia Brasileira de Letras

Gilson Jorge
Por Gilson Jorge
Poeta baiano Fabrício Oliveira
Poeta baiano Fabrício Oliveira - Foto: Reprodução

Durante a infância na zona rural de Santo Estevão, Fabrício Oliveira foi acometido por uma inquietação comum a artistas. O menino olhava enfadado para o campo na roça de sua avó e não se via ali por muito tempo, trabalhando com plantação e colheita de feijão e de milho.

"Eu achava aquele trabalho chato, pesado, ruim", conta Fabrício, 30 anos, que na época precisava madrugar para fazer as tarefas rurais antes de ir para a escola.

Tudo sobre Muito em primeira mão! Compartilhar no Whatsapp Entre no canal do WhatsApp.

Às vezes, essa inadequação é vista pela família como preguiça ou arrogância. Mas acontece também de alguém entender o que se passa na cabeça do insatisfeito. Há uma frase atrib uída ao pai do lendário bluesman estadunidense Robert Johnson de que o problema do seu filho, quando pequeno, é que ele não queria ir atrás de uma mula pelas manhãs e arar a terra.

Leia Também:

CRÔNICA

Entre a esfiha e a decisão
Entre a esfiha e a decisão imagem

ABRE ASPAS

Dandara Ferreira: “A pandemia não acabou, simbolicamente, em nosso país”
Dandara Ferreira: “A pandemia não acabou, simbolicamente, em nosso país” imagem

INÉDITO

Salvador recebe 1º Festival de Música de Terreiro com shows gratuitos
Salvador recebe 1º Festival de Música de Terreiro com shows gratuitos imagem

O jovem baiano tampouco queria esse destino para si, estava mais interessado em sentir a beleza do vento soprando nas árvores, que praticamente não existem mais. Um dia, Fabrício, já pré-adolescente, ouviu da avó que ele teria duas alternativas. Seguir manejando a enxada ou deixar aquela vida para trás e ir estudar na cidade.

A essa altura, o menino já lia poemas de Ferreira Gullar e de Cecília Meirelles e a decisão não foi difícil – a mudança de vida, que foi basicamente uma fuga do trabalho no campo, aliás, está lhe rendendo frutos na vida adulta. Fabrício ganhou no mês passado o Prêmio Manuel Bandeira para obras de poesia concedido pela Academia Brasileira de Letras (ABL), com o livro Noite Obscena (Ed. Mondrongo).

O prêmio será recebido no próximo dia 23, na sede da ABL, no Rio de Janeiro, durante as comemorações pelos 129 anos da entidade. "Para alguém que escreve há pouco tempo, receber um prêmio de um a instituição como a ABL é assustador, sendo uma das primeiras pessoas do interior a receber esse prêmio", pontua o poeta.

O primeiro

O primeiro trabalho publicado de Fabrício, Gramática das Pedras, é um livro com textos escritos a partir de 2012. "Eram poemas que falavam de morte, saudade, esperança, amor e ódio, mas eu nunca acreditei que aquilo p oderia virar um livro", conta.

Em 2015, Fabrício foi admitido no curso de letras com português da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), quando conheceu o poeta Roberval Pereyr, pessoa importante em sua trajetória.

"Eu ia mostrando os meus poemas a ele, que dizia: isso aqui é bom, isso aqui presta", lembra Fabrício, ressaltando ter recebido do novo amigo dicas para o aperfeiçoamento da escrita e indicações de leitura, como a obra de Ruy Espinheira Filho, Myriam Fraga, Salgado Maranhão e Alexei Bueno, morto no último dia 27.

Foi Roberval que sugeriu Gramática das Pedras, nome de um poema, como título do livro. Através da professora e crítica literária Regina Dalcastagné, Fabrício entrou em contato com a Editora Patuá, que publicou o seu livro de estreia em 2020.

Regina, que leciona na Universidade de Brasília, leu poemas de Fabrício no Facebook, elogiou o trabalho e perguntou se o poeta tinha editora. "Eu disse que nem sabia como funcionava esse processo", lembra Fabrício, que teve a obra elogiada por Itamar Vieira Junior, consagrado autor de Torto Arado. "É um escritor que eu já conhecia antes da fama. Eu li A Oração do Carrasco, que é um livro de contos muito bom, que saiu pela Mondrongo", conta o poeta.

Em 2018, antes de estourar nacionalmente, Itamar foi a Santo Estevão promover Torto Arado e o poeta o conheceu pessoalmente. “Eu publiquei um livro chamado Viração (2022), um livro prosaico, sobre a vida na zona rural, que tem muito a ver com Torto Arado, só que em outra linha", afirma Fabrício.

Um mundo inteiro que nasce

Itamar acabaria por assinar um texto de apresentação do livro de poemas Corações Arenosos (2023), de Fabrício. "Em meio ao labor do trabalho sobre a terra – ‘a enxada banhada de suor e esperança’ – Fabrício Oliveira ergue o véu da paisagem camponesa, que em seus versos se revela sonora e imagética. Um mundo inteiro que nasce do assobio de uma avó ‘enquanto catava o bredo, distraída, no terreiro varrido’. Vivos e mortos, pássaros e plantas, roças e casas despontam nestes poemas carregados da força sertaneja, ‘tudo é sertão em meu triste caminho’. Despontam também a solidão de homens e mulheres e o milagre que é descobrir a vida. Corações Arenosos é um livro escrito com terra e chuva, atravessa campos, singra por rios e deságua na dimensão mais profunda de nossa existência", escreve Itamar.

O texto, escrito a pedido de Fabrício, foi parar na contracapa do livro. "Para mim, que escrevo há pouco tempo, receber o elogio de um dos maiores escritores contemporâneos é um prêmio", afirma Fabrício .

Outra voz a referendar o trabalho desse jovem talento baiano é a escritora Rita Santana, que aponta as nuances desse gênero literário. "O poeta transfigura a realidade num exercício que abrange o tempo e o espaço, onde tudo adquire um caráter arcaico, inclusive as personagens dos seus poemas que são modelados com a síntese essencial dos arquétipos", descreve a escritora.

Sobre o trabalho do jovem colega, Rita observa: "Há em Fabrício Oliveira a consciência da necessidade de uma artesania lírica em cada poema a fim de que o resultado seja uma peça pronta para a fruição do leitor; há uma modelagem planejada e um refinamento estético perseguidos incessantemente pelo jovem poeta e que resultam em obras onde a literariedade acontece indubitavelmente", descreve Rita.

Confira dois poemas de Fabrício Oliveira do livro Noite Obscena

Rasga-mortalha

Ainda há pouco, uma flor nasceu no lajedo.

Meu pai me tomou pelas mãos, fui com ele.

Alucinação.

O canto da rasga-mortalha o passado.

Sinto um frio se enrolar nos ossos.

Os dentes do irmão mais novo

(que dorme no colo) rangem

um gemido abafado. As mãozinhas ingênuas

(dormindo postadas) tateiam o peito murcho.

O leite que sai arrasta consigo

a sombra azeda da casa, da tarde e da alma.

A alma: um prego enferrujado sobre a mesa.

Vagando cego pelo continente,

o vento inventa o caminho de casa

e leva nos braços o corpo do filho morto.

Fábula do destino

Um novelo de luz

entrelaça as mãos de Oxóssi

e desperta mil atabaques.

(Há mãos risonhas e beijos antigos

acariciados pelo ritmo

do coração dos pássaros).

Há mãos risonhas e beijos antigos

emoldurando o silêncio das árvores

às margens do Rio Paraguaçu

que aprende, lentamente,

o sotaque dos meus passos.

Minha voz alarga as margens do tempo.

Enquanto minha mãe chora,

torcendo nossas roupas,

seu coração se abre em catedrais

para acolher minha ausência.

Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia. Google Noticias Siga o A TARDE no Google Noticias

Compartilhe essa notícia com seus amigos

Compartilhar no Whatsapp Compartilhar no Facebook Compartilhar no Email

Tags

literatura muito

Relacionadas

Mais lidas