CRÔNICA
Quando as palavras despertam aquilo que os olhos não veem
Veja a crônica deste domingo, 5


Não me apaixono fácil, pelo contrário, eu sou insuportável e em geral não gosto de ninguém desconhecido, mesmo sendo amiga das amigas ou ficante das amigas, e demoro de decidir até se gosto das namoradas, nam orados e cônjuges, porque essa galera, principalmente se for do sexo masculino, chega, se faz de boa praça, depois faz uma grande merda e eu, que não sei separar as coisas, fico ainda com mais ódio se estiver apegada à criatura em questão.
Tem também a possibilidade de minhas amigas, que não são necessariamente flor que se cheire, fazerem a merda e eu ter que olhar para a cara da coitada da pessoa, pensando que ela se lascou, porque alguém que amo é tóxica nas relações amorosas. Por esses e outros motivos, me relaciono com poucas e boas pessoas, entenda boas como sinônimo de pacientes, porque precisa de muita paciência para me aguentar.
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Quando me apaixono, porém, a coisa termina em relacionamento para a vida toda e/ou em casamento, mas os pré-requisitos são muitos. Para começo de conversa, eu não me atraio pelos atributos físicos de ninguém, meu interesse estético nasce do meu interesse pela personalidade. Gosto de quem demonstra honestidade, gentileza, generosidade, de quem está preocupado em cuidar dos amigos na festinha e de quem se diverte mais, quando a diversão é coletiva.
Como sei que elas são assim? Pela postura relaxada do corpo, pelo sorriso afável e pelo brilho contido nos olhos, quando escutam a história de alguém, sobe até um calor só de imaginar! Isso sim é atributo físico que se preze, não o abdômen trincado ou o formato dos genitais de fulano, porque eu sei que quem pensa em sexo na festa, pensa nisso também.
E eu daqui me perguntando: como é possível ter tanto tesão em alguém que nem abriu a boca para dizer nada que preste? Torço a cara, mas fico para assistir o flerte, po rque sempre digo sim a uma boa fofoca.
No que me diz respeito, o desejo não está no que vejo, mas no que ouço, ele acontece no exato momento em que o sorriso afável de olhos brilhantes se põe a verbalizar coisas inteligentes – que deleite! Fico com água na boca só de imaginar as descargas elétricas e os movimentos delicados e húmidos performados pela massa cinzenta de quem fala, desejando que fale bem perto do pé do meu ouvido, para que eu possa ouvir essa nova língua se articular, seus sussurros.
E não se trata de falar de coisas complexas e mirabolantes, eu detesto gente que fica se pavoneando por aí. É sobre me mostrar um raciocínio outro sobre qualquer coisa, uma nova perspectiva de mundo que cabe apenas naquele caixa craniana específica, um universo brilhante a ser explorado. Passo, portanto, a projetar o outro para fora de si e para dentro de mim, a tentar percorrer os caminhos de suas dobras, a me adivinhar nele.
Essa união entre generosidade e inteligência me desmonta e me remonta em outro espaço, em um recôndito canto escuro de meu próprio crânio, iluminado pelas sinapses do outro, da outra, das outras, das outras que torno minhas, eu mesma transformada em outras sinapses, outras línguas, outros textos.
Pois também é pelo tesão que escolho minhas autoras: me apaixono por seus exuberantes corpos cinzentos, seus textos e suas escritas, a ponto de desejar enfiá-las na boca, mastigá-las, engoli-las, digeri-las e regurgitá-las em outros textos, que passo a chamar de meus – citações, paráfrases, paródias – rearticulações de quem somos.
*Escritora


