CRÔNICA
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Tinha tudo pra dar certo. Fim de semana na praia com a família...


Tinha tudo pra dar certo. Fim de semana na praia com a família... aquele solzinho aquecendo a pele, sem muito calor, a maré baixa, as crianças gastando energia na areia. Tudo corre bem até ganhar contornos de realidade. O cenário idílico começa a se dissipar na estrada, ao nos depararmos com um céu cada vez mais acinzentado. A chuva começa fraca e vai engrossando à medida que nos aproximamos da chegada.
Saímos com destino à praia e chegamos às montanhas (ou algo parecido) em pleno litoral baiano. Ainda é inverno, eu sei. Mas depois de uma semana inteira ensolarada, tinha que virar o tempo logo agora? Na bagagem, vasculho em vão à procura de uma calça que não trouxe. Por sorte, tenho um casaquinho fino em mãos que gosto de carregar por precaução.
Adianta reclamar? Muitas vezes é isso mesmo: a vida é um fim de semana de céu nublado na praia. Você sonha com sol e mar, mas acorda com chuva. E precisa aprender a se virar com o que tem. É então que descobre o prazer de ler um romance de época na cama, embaixo das cobertas, ouvindo o barulho da água escorrendo pelo telhado. Quem disse que só dá pra ser feliz no verão, aproveitando o dia lá fora?
A vida é segunda a sexta, bem mais do que sábado e domingo. É fila pra comprar ingresso que esgota bem na sua vez. É o sabor preferido de sorvete que está em falta. É arquivo perdido por não ter sido salvo a tempo. É burocracia com a operadora de telefonia e trânsito congestionado justo quando há horário a cumprir. Claro que não é só, mas é tudo isso também. Não dá pra comprar o produto sem levar o pacote completo.
Pode até parecer que há mais alegria nos festejos, nos grandes encontros de amigos, nas viagens extraordinárias. Ou então nas imagens de redes sociais, em que o céu é sempre azul e a paisagem perfeita, na aparência desfilada para os outros. O que a gente vê é só recorte. Mas e na rotina diária, entre cozinhar o almoço, atender as demandas de trabalho e lavar a louça? Dá pra ser feliz dentro de casa sem plateia e sem curtidas?
Quem faz da escrita o seu ofício sabe que adjetivos e superlativos devem ser usados com moderação. Um texto cheio deles acaba enfraquecido. São os verbos e os substantivos que dão força à narrativa. Na vida também funciona assim. Não dá pra viver de gogó, já diria a sabedoria popular.
Grandes declarações, discursos inflamados, arrebatamentos e muita eloquência podem soar bem como ficção. No dia a dia, o que vale mesmo é aquela conversa despretensiosa no café da manhã depois de uma semana puxada e poucas horas de sono, é o gesto que ninguém aplaude, é aquilo que você faz quando não há ninguém observando.
Em um fim de semana de céu nublado, pode não dar praia, mas talvez role um mergulho na piscina na estiagem ou um banho de chuva mesmo. Pode ter conversa na varanda, café quentinho e roda de violão em família. Os planos não acontecem conforme o imaginado, e tudo bem.
Se as coisas não saem como esperamos, isso é o que também nos faz melhores leitores, melhores ouvintes, melhores apreciadores de silêncios. Um fim de semana na praia com céu nublado, que tinha tudo pra dar certo... de repente, deu.