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Pagode numa noite de verão

Tatiana Mendonça
Por Tatiana Mendonça
O coletivo B_T_PGDÃO segue a trilha do novo som produzido em Salvador
O coletivo B_T_PGDÃO segue a trilha do novo som produzido em Salvador - Foto: Adilton Venegeroles | Ag. A TARDE

Há uma época do ano em que as segundas-feiras são menos tristes, porque ninguém estranha se houver uma festa marcada para este dia. Além de não estranhar, as pessoas até mesmo vão até lá. Fazem selfies na porta da praça Tereza Batista, no Pelourinho, enquanto o show, marcado para as 21h, não começa. Gente bonita na acepção da palavra, nada daquele pálido conceito no qual nos forçaram a acreditar. De repente, o cantor Caetano Veloso e a apresentadora Regina Casé passam descendo a ladeira, e o pensamento é se aquele não é mesmo o melhor lugar para se estar. Puxados para fotos, Caetano cede uma única vez: “Eu geralmente digo não, porque todo mundo para...”, comenta com o rapaz agraciado. Era mais uma edição do B_T_ VERÃO FAROF_DA, escrito assim desse jeito meio hipster, para combinar com o nome próprio da banda, B_T_PGDÃO, que em verdade se lê da forma mais popular possível: Bota Pagodão.

No palco, pedaços de gentes, um pé, uma mão, um olho, esse gigante e central, como se aconselhasse: “Pega a visão!”, essa gíria baiana que é um mar de maravilhosidade. Arte, né não? Tal qual um embrulho autorizando o som que viria, para tocar não no fim das festas-classe-média, mas em seu princípio, miolos e além. Ora (direis) ouvir pagode gourmet? Pagode eletrônico? Pagode universitário? Axé bass? (Nããããão, pelo amor de Deus, axé bass não!). Nada disso, ou tudo isso, que cena era aquela?

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Primeiro que eles não se chamam de banda, mas de coletivo, formado por artistas que já integram outros grupos. Atenção para a lista: Rafa Dias, produtor musical (ÀTTØØXXÁ); Pedro Marighella, produtor musical e artista visual (SOM PEBA); Mahal Pita, produtor musical e artista visual (BaianaSystem e A.MA.SSA); Bobby, DJ e produtor musical (Mr. Bobby); Wallace Chibatinha, guitarrista (Pagodart); Oz, cantor e compositor (com passagens pelas bandas Oz Bambaz, Leva Nóiz, Dignow e que agora toca no Pagodart); Raoni Knalha, cantor e compositor (Os Nelsons); e Gab Barreto, VJ e videomaker. Esses são os fixos, ok?

Desde a primeira música, antecedida do grito “vamos invadir sua praia”, já mostram a que vieram. O público, que parece saber onde está pisando, se esbalda com o som potente e divertido do coletivo, que mistura pagode, claro, com música eletrônica, arrocha, um tico de funk, hip-hop, samba de roda. Uma fusão inovadora feita de ritmos populares, que Mahal batizou de música popular urbana (ou não seria música preta urbana?), isso para quem faz questão de definições. Seguem a trilha do novo som produzido em Salvador, cujo expoente é a BaianaSystem, mas com um caráter menos político e, digamos, menos marrento.

Um trio de meninos negros dança em cima de uma balaustrada, mesmerizando os presentes, para não usarmos termos negativos como humilhação e inveja. Mais gente se junta ao grupo e, em breve, saberemos que fazem parte do Ballet Vip, grupo de dança do Garcia. A certa altura Raoni, com seu cabelo multicor, alerta ao microfone: “Se não guenta, pra que veio?”, tal qual um cantor de axé. Igualmente emendaria um irritante “tira o pé do chão”. Entremeadas com as músicas autorais, tocam clássicos do pagode, como Conceito, do Fantasmão – Sou filho de preto/ quero respeito/ quem mora no gueto/ não é ladrão! –, e Só as cabeças, do Parangolé (sabemos que essa você já reconheceu de nome).

A coisa vira pré-Carnaval quando a ordem é que todo mundo vá para trás e volte pulando doidamente, numa intitulada “sessão de descarrego”, que tem aquela alegria gratuita de se estar vivo aqui e agora. Para fechar as duas horas de show, no limite da meia-noite, foi a vez de sensualizar com Elas gostam, Black bang e Bota a mão no paredão, todas na linha sexy sem ser (muito) vulgar.

E será que Caetano gostou? O cantor saiu ao fim da apresentação e dava para ver que estava com um protetor de ouvido daqueles laranjinhas. No dia seguinte, Regina Casé postou no Facebook que falou “tanto, tanto, tanto” do grupo para Caetano que ficou com medo de ele não gostar. “Mas ele adorou! Mais um pro meu fã-clube do #BOTAPAGODÃO!!!!! Last night foi demais! Lindo!”. Ninguém teve o que reclamar daquela segunda-feira. É oficial: o pagodão virou cult.

Celebração

O B_T_PGDÃO é um projeto recente. Foi criado em março do ano passado a partir de uma conversa inbox no Facebook que inicialmente reuniu Pedro, Rafa e Bobby. Rafa queria fazer uma festa e soube, meio em cima da hora, de uma pauta que estava vaga. Muitos dos que hoje compõem o coletivo já foram convidados ali para se juntar ao grupo, como se só estivessem aguardando a oportunidade de tocarem juntos. “A coisa do Bota é nada mais do que uma celebração. A gente já sentia muita falta dessa proximidade física das produções e dos produtores. Geograficamente, a gente não tinha o convívio. Eram pessoas que estavam tendo o mesmo entendimento da coisa, mas que não estavam conversando”, conta Mahal.

Tratava-se, portanto, mais de estar junto do que de pensar em produções muito diferentes das que já vinham fazendo nos seus projetos de origem. “Por incrível que pareça, não tinha muito a ver com som, não. Tinha mais a ver com raciocinar sobre as coisas que estavam acontecendo. O som era só como a gente conseguia concretizar esses pensamentos”.

Pedro emenda que a ideia é que o coletivo seja multidisciplinar, trabalhando outras linguagens que não apenas a música, para não “esvaziar a capacidade de expressão” e para não perder de vista que gêneros como o pagode, “escola” que une os integrantes, estão para além do ritmo. “Tem toda uma expressão corporal, uma estética. E hoje você não pode pensar em pagode sem pensar em YouTube ou WhatsApp, por exemplo”.

Como cada integrante vem de um canto diferente da cidade, fica mais fácil não perder a conexão com a rua. Apesar disso, nem sempre é possível estar onde o povo está, ao menos não pelas vias oficiais. Como anunciado ao final do show, o coletivo acabou ficando de fora da programação do Carnaval. Eles contam que tentaram participar do edital estadual que selecionou as bandas para a festa, mas não puderam porque não se enquadravam nos gêneros previstos.

A portaria do governo de credenciamento para serviços artísticos no Carnaval elencava apresentações de grupos de afro, reggae, arrocha, pop rock, axé, antigos carnavais, samba, hip-hop e guitarra baiana, além de bandas de sopro e percussão. Eles põem a restrição na conta do preconceito e “perseguição” que o pagode ainda sofre. “Hoje o pagode dessa maneira eletrônica está dentro do repertório de vários artistas independentes. É a grande parada. Mas eles não se dizem pagode... E muitos desses artistas entram, entende?”, alfineta Mahal.

Eles também não conseguiram fechar com nenhum grande patrocinador e, portanto, estão pensando em fazer ações mais espontâneas e independentes, para não ficarem totalmente de fora do Carnaval. Capaz de você os avistar ali pelas bordas da Mudança do Garcia, fazendo um som, ou então na beira da praia. Para financiar a participação, talvez criem um crowdfunding.

Os shows seguem igualmente suspensos, à espera de uma temporada do ano em que os locais para apresentações na cidade sejam menos disputados. Com a dificuldade de circular, vieram outros projetos. Um deles é o LAB Pagodão, criado para mostrar o processo de produção das músicas. Funciona meio como uma roda de samba, com equipamentos eletrônicos e instrumentos acústicos, que acaba virando uma seção de criação. “As pessoas ficam ali vendo como a gente toca. Se pegar a visão, é a real mesmo”, conta Oz, que se sente “livre” no Bota para fazer o som que quiser.

Outra ação é o ensaio na laje, que acontece na casa de Pedro e já entrega o conteúdo no nome. Os encontros são transmitidos ao vivo pela internet e podem ser recuperados nas redes sociais do coletivo. E ainda no nível das ideias está o Papo Pagodão, espaço para discutir temas relacionados ao universo do pagode. “Tem essas questões da mulher, do negro, mas percebo que as pessoas que discutem isso não fazem parte genuinamente da coisa. É sempre gente de fora. A gente quer abrir essa roda de conversa, com demandas definidas pelo público”, adianta Mahal.

Apesar de novo, o B_T_PGDÃO não quer ser visto como novidade. “A novidade aqui na Bahia, em Salvador, é toda hora, é todo dia. E o que a gente faz, baseado nas pesquisas, já é algo quase cansado... A novidade está nessas coisas contemporâneas que a gente consegue ir anexando. A indústria fez cair no entendimento que a música popular é algo fugaz. É meio ser o bobo da corte. Quando é para falar de coisa séria, acabou o pagode, o arrocha, acabou tudo. Vamos aqui ouvir Construção [de Chico Buarque]...”. No fim das contas, é de diversidade que se trata.

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