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FIM DE UMA ERA

Por que escolas infantis tradicionais de Salvador estão fechando as portas?

Famílias de Salvador lutam para manter viva a educação antirracista e lúdica

Gilson Jorge

Por Gilson Jorge

25/01/2026 - 6:06 h
Escola Maria Felipa chegou a encerrar atividades
Escola Maria Felipa chegou a encerrar atividades -

Na noite de 22 de dezembro, a dois dias da noite de Natal, pais de alunos do Centro Educacional Gira Girou, na Pituba, participaram de uma reunião virtual convocada às pressas pela direção. Funcionários já haviam sido avisados do teor da conversa e as famílias que tinham feito pré-reserva de vagas precisavam ser avisadas logo. Depois de 17 anos de funcionamento, a escola encerraria as suas atividades por não ter garantido o número de matrículas necessário para o pagamento das contas. E as famílias deveriam estar prontas para buscar uma alternativa para os seus filhos em 2026.

A gestora pedagógica da Gira, Andrea Alves, leu, à frente da tela do computador, uma carta em que explicava a situação da escola e a sofrida mas necessária decisão de fechá-la. A Gira, que antes da pandemia de covid-19 teve 130 alunos, sofreu uma drástica redução de matrículas após o fim do período de isolamento. Justamente quando havia alugado uma outra casa para expandir o ensino e as atividades de pesquisa.

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Recuperou-se depois, mas não voltou a atingir uma centena de estudantes. No momento da leitura da carta, 20 famílias que tinham feito a pré-reserva optaram depois por mudar de escola, o que inviabilizaria o início do ano letivo nessa unidade.

O pai de uma aluna de seis anos reagiu à notícia do fechamento, propondo um esforço coletivo para manter o projeto pedagógico da Gira e recebeu apoio de outros familiares. No dia seguinte, houve mobilização, com pais tentando convencer outras famílias a matricular seus filhos na escola, que ocupa dois casarões contíguos, alugados, na esquina das ruas Guillard Muniz e Dálias, em uma região com bares e restaurantes. Um espaço total de 1,6 mil metros quadrados, com área verde e brinquedos. Na corrente que se formou, uma mãe gravou um vídeo para o Instagram, elogiando a Gira e incentivando matrículas na escola. Mas foi insuficiente. No dia 12 de janeiro, uma mensagem emotiva no Instagram, em forma de carrossel, avisa ao público o fechamento da instituição.

A Gira não foi a única escola infantil particular alternativa da cidade a lutar intensamente pela sua continuidade. Todos os anos, nesse estressante período de matrículas, acontece um intenso movimento de troca de escolas, por motivos variados: busca de um projeto pedagógico diferente, enfoque nas instalações físicas, condições de pagamento das mensalidades, manutenção dos vínculos com coleguinhas que trocaram de instituição. E, naturalmente, o tipo de formação que os pais querem para seus filhos. Um futuro que, às vezes, é decidido em poucos dias, na correria para assegurar vagas para as crianças.

De um ano para outro, os estudantes podem desaparecer da lista de chamada. Atraídas por instalações físicas, oferta de currículo diferente e descontos generosos para o primeiro ano em uma nova escola, muitas famílias pulam de barco no período da matrícula. Comenta-se que pelo menos três tradicionais escolas infantis de Salvador estejam prestes a fechar as portas, embora, por luto ou esperança em reverter o quadro, os responsáveis pelas unidades não publicizem as suas dificuldades. E o avanço das grandes redes de ensino, adquirindo pequenas escolas, é visto por educadores e pais como a maior ameaça ao setor.

O tecnólogo de gestão pública Diego Melo foi o pai que pediu a palavra na reunião virtual da Gira para propor um esforço para a manutenção das atividades. Diego estranhou o encontro virtual às vésperas do Natal, mas não ficou exatamente surpreso. "A gente percebia um movimento de esvaziamento não só da Gira, mas de outras escolas que estão sofrendo um pouco com a chegada das grandes corporações de educação, que têm como premissa formar minigestores, CEOs", afirma o tecnólogo, que vê um novo cenário no ensino infantil com grandes redes oferecendo um currículo já voltado para a futura competição no mercado de trabalho.

A notícia do fechamento da escola mexeu com o tecnólogo que teve uma educação tradicional, mas não queria o mesmo para a sua filha, nascida dois meses antes do confinamento da pandemia, o que, de certa forma, levou posteriormente Diego e sua companheira, a psicóloga Caroline Aboboreira, a repensarem a educação da filha Isabela, apelidada de Bela, que apresentava dificuldade em socializar, após tanto tempo vendo pouquíssimas pessoas.

"Eu vi na Gira que era possível aprender brincando. E eu comparei Bela com crianças da mesma idade em outras escolas e não percebi déficit algum de conhecimento", declara Diego, que também cita o ganho em autonomia por sua filha. Foi através de Bela que a família começou a fazer coleta seletiva em casa. " A perda da Gira foi uma perda enorme para Bela", afirma o pai da menina, que critica o modelo de competitividade que, a seu ver, atropela a infância.

Com o avanço da inteligência artificial, Diego e Caroline reforçaram a sua crença no construtivismo e no desenvolvimento do senso crítico nas crianças. E esse é um fator que eles levam em consideração na educação da filha.

Mas no momento em que o casal decidiu buscar um plano B, Diego se incomodou também com o perfil de algumas escolas visitadas, onde a presença de pessoas negras se limitava ao corpo de funcionários. "A gente já vive em uma bolha e nós não temos interesse em colocar a nossa filha em um lugar em que ela enxergasse pessoas negras como meras serviçais", disse Diego.

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Antirracista

A questão antirracista foi fundamental para que a pedagoga Bárbara Carine abrisse, em 2017, a Escola Afro-brasileira Maria Felipa. Mãe de uma menina negra que se aproximava da idade escolar, a professora se lançou na ideia de um modelo de ensino que valorizasse a cultura negra, acolhesse crianças neurodivergentes, cultivasse a cidadania e promovesse a educação em três linguagens: português, inglês e libras.

Com uma sócia carioca, Bárbara abriu há pouco tempo uma unidade da Maria Felipa no Rio de Janeiro. Mas a escola soteropolitana não conseguiu manter um número de matrículas suficiente para sua continuidade e, no último dia 7, foi anunciado encerramento das atividades na capital baiana, gerando a solidariedade de artistas como a atriz baiana Edvana Carvalho e a cantora Zélia Duncan.

Dois dias depois, a escola, que mantém uma vaquinha virtual com a meta de R$ 40 mil mensais, recebeu de um artista que se manteve anônimo a doação de R$ 400 mil. E, paralalemente, as sócias optaram por transformar a escola em um instituto, o que permite o aporte legal de verbas públicas.

Barbara admite que o seu projeto em Salvador tem dificuldades em atrair alunos." No nosso caso, é uma escola antirracista, fora dos padrões, que vai ter um público bem reduzido. Nas escolas tradicionais, não há uma questão ideológica. A perspectiva é apenas que a criança vá para a escola, se forme e passe ao estágio posterior", avalia Barbara.

Escola da pequena Bela a partir de agora, a Lua Nova está em atividade há 40 anos e, em diferentes graus, está vinculada a pautas da Gira Girou e da Maria Felipa, com a especificidade de ser uma unidade maior e de classe média alta. "A gente conseguiu favorecer um ambiente de formação de gente, pensando em valores que são cruciais para o que a gente acredita", afirma a gestora Walkyria Rodamilans, que cita o fato de crianças que passaram por um tipo de escola que ela define como "artesanal" terem alcançado postos de destaque no mercado de trabalho, como Victor Bustani Valente, que hoje é gerente de uma empresa alemã de desenvolvimento sustentável.

Nessas quatro décadas de existência, a Lua Nova passou por graves crises financeiras e ainda não conseguiu ter um imóvel próprio, uma das grandes fontes de insegurança das escolas. Mas Walkyria, que afirma ter incluído a cultura afro-brasileira no currículo antes que a lei 10.693 tornasse isso obrigatório, garante que ao receber famílias interessadas em matricular seus filhos avisa que a Lua Nova não abre mão de seus princípios pedagógicos, como autonomia das crianças, subjetividade e cultura.

"Nós não negamos a tecnologia e as coisas da modernidade. Mas reafirmamos que só em uma cultura institucional em que preservamos valores como o olho no olho, o acompanhamento, da percepção das pessoas, você pode fazer uma diferença em educação", declara Walkyria. "É uma luta. Defender valores dentro do fraccionamento social que a gente tem hoje, valores mais humanitários, mais solidários, voltados mais para o ser, é uma escolha de vida", completa a educadora.

A pedagoga Bárbara Carine
A pedagoga Bárbara Carine | Foto: .José Simões | Ag. A TARDE

Crise no ensino

Convicto de que a solução passa pela melhoria e ampliação da oferta do ensino público desde a creche, o professor Nelson Pretto, da Faculdade de Educação da Ufba, Faced, aponta a mercantilização do ensino e o nível de rendimento das famílias como fatores cruciais para a atual crise no ensino infantil particular. "Como a Constuição não proíbe a existência de escolas particulares, o que acabou acontecendo é que estes grupos encontraram na educação, da creche à universidade, um grande mercado", declara o professor, destacando que isso está sendo evidenciado pela compra de escolas privadas pelos grandes grupos.

Pretto aponta que, às vezes, a escola troca de nome mas, quando tem uma marca consolidada, o nome é mantido e acrescido de uma outra nomenclatura, não raro em inglês. "A escola passa a integrar uma rede com ativos nas bolsas de valores", pontua o professor.

Ele assinala que a despeito do esforço que vem sendo feito pelo Governo Federal e alguns governos estaduais e municipais, a educação continua sendo tratada como mercadoria. "Isso é inadmissível", protesta o professor, que não vê solução sem a presença forte do estado. "O que nós precisamos é fortalecer a educação pública, da creche à universidade", afirma Pretto.

Em fase de desmonte da Gira Girou, a gestora pedagógica Andrea Alves se mantém indo ao imóvel para gerenciar o processo de fechamento da unidade. Esta semana, prepostos de uma outra escola infantil que continua em atividade passaram por lá para recolher móveis que poderiam ser reaproveitados.

Andrea confirma o movimento de aquisição de escolas infantis por grandes grupos ao longo dos últimos três anos, mas nem considerou essa alternativa para a Gira Girou. "Quem sofre são as pequenas escolas infantis, porque são românticas, se posso usar essa palavra. É muito mais ideologia do que princípios financeiros”.

Mas mesmo perdendo os alunos, os imóveis e o mobiliário, e tendo em frente um cenário cada vez mais desafiador, a pedagoga não desiste do legado acumulado de 17 anos do método pedagógico inspirado no modelo Reggio Emilia, criado pelo italiano Loris Malaguzzi, depois da Segunda Guerra Mundial, com ênfase nas explorações, nas descobertas e no lúdico. "Um dia esse catavento vai voltar a girar", declara Andrea, em referência à logomarca da escola que criou.

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Educação Antirracista educação infantil

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