GASTRONOMIA
Restaurantes de Salvador unem gastronomia e arte em experiência única
Mais do que decoração, obras de artistas baianos ganham protagonismo em restaurantes da capital


Ainda antes do garçom chegar com o cardápio, o cliente do Silva já fez uma pausa diante de uma tela e pergunta de quem a obra é. Esse é um hábito comum no restaurante localizado na Rua Chile, de acordo com o chef Ricardo Silva. "Muitas vezes a conversa segue sendo sobre a arte e sobre o prato".
Em pelo menos mais quatro endereços de Salvador, a cena se repete. Não são galerias que resolveram servir comida, nem restaurantes que penduraram quadro por acaso na parede vazia. São casas que decidiram que a experiência à mesa também passa pelos olhos.
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O fenômeno não é exatamente novo, mas o que muda nesses endereços baianos é o grau de intenção. Em vez de obra como pano de fundo, ela vira parte do roteiro da visita. A curadoria, aqui, é tratada com o mesmo cuidado dedicado ao cardápio.
No Silva, a coleção não nasceu de um projeto de decoração, e sim, da convivência. "A arte sempre fez parte da essência do Silva", diz o chef. "Sempre recebemos muitos artistas como clientes e j&a acute; tinha o hábito de adquirir obras que me emocionavam". O acervo foi crescendo de forma muito natural, de acordo com Ricardo, a partir de encontros com artistas, visitas a exposições e amizades construídas nesse universo.
Não há linha curatorial fechada nem estilo único: pinturas, esculturas e fotografias dividem espaço, a maioria de artistas baianos que retratam a Bahia "sem clichês". O critério, resume, é simples. "A qualidade do trabalho e a conexão que aquela obra cria comigo".
Se no Silva a curadoria foi se formando aos poucos, na Casa de Tereza ela nasceu como conceito. A chef Tereza Paim organiza a experiência da casa em torno de quatro verbos: ver, sentir, provar e viver a Bahia. O primeiro deles é que empresta o vocabulário à arte espalhada pelos salões.
"'Ver' é a ambientação dos espaços da casa que foram pensados para representar conexão com arte e cultura da Bahia", explica. O salão batizado Galeria Yemanjá tem mesas pintadas por artistas baianos; o salão Bel Borba dialoga, como o nome sugere, com a obra do baiano que Tereza chama de "artista do coração"; no andar de cima, dois salões – um dedicado à matriz africana, outro ao catolicismo – colocam lado a lado, "de forma natural", o sincretismo religioso que atravessa o cotidiano baiano.
O acervo reúne nomes de peso como Carybé, o ceramista de Maragogipinho Taurino e Eder Kalango, que Tereza descreve como "o 'the best' do grafite na Bahia". A curadoria, diz ela, é inevitavelmente atravessada pela religiosidade de matriz africana e pelo catolicismo. "Nossas obras de forma geral acessam um universo muito grande", pondera.
"Aqui temos nosso acervo, mas pontualmente acontecem exposições, pois tenho estreita relação com artistas e adoro tê-los na casa". A vocação deve ganhar ainda mais destaque este ano: em setembro, quando a Casa de Tereza completa 14 anos, a chef prepara uma programação especial sob o tema "14 anos de Arte", reforçando o diálogo entre gastronomia e produção artística que marca a identidade do restaurante.
A chef recusa qualquer leitura meramente decorativa do gesto. "Eu enxergo a arte não apenas como expressão estética, mas como uma manifestação profunda da alma e da sensibilidade humana", diz. "Arte e gastronomia caminham lado a lado e ambas nascem da sensibilidade, da criatividade e do desejo de proporcionar experiências memoráveis".
Fases
Na recém-chegada Une Cozinha, da chef e proprietária Cris Une, a lógica é outra: a curadoria muda junto com o cardápio, estação a estação. A proposta da casa é ser uma "galeria viva". "A ideia nasceu de uma inquietação muito pessoal", pontua. "Sempre enxerguei a gastronomia como uma forma de expressão, assim como a pintura, a música ou a literatura porque um prato também conta histórias, desperta memórias, provoca emoções".
A exposição inaugural do espaço foi do artista Vírus Carinhoso, cuja pesquisa passeia por ancestralidade, espiritualidade e afeto, temas que, segundo Cris, também atravessam a gastronomia. O critério para convidar o s próximos artistas prioriza produções contemporâneas, especialmente baianas, que dialoguem com temas humanos, como memória, território, identidade, pertencimento, afeto e transformação.
"A expectativa não é que as pessoas procurem uma relação direta entre um prato e uma obra, mas que se permitam estar presentes naquele momento". O plano declarado é de permanência.
"Temos interesse em ampliar esse diálogo constantemente, seja com novas exposições, encontros, performances, lançamentos, conversas ou outros formatos que aproximem artistas e público", afirma Cris, que aposta no restaurante como vitrine de circulação para a produção artística contemporânea da Bahia.
Identidade
No Jota Gastronomia, no Rio Vermelho, a r elação entre cozinha e artes visuais faz parte da identidade do restaurante desde a primeira operação do chef Jota Moraes. Ainda nos tempos do Casa de Farinha, restaurante anterior, ele criou o projeto Degust'art, levando obras para dentro do salão.
A proposta ganhou novo fôlego com a parceria do galerista Nino Nogueira, que assinou a seleção de peças do acervo e ajudou a transformar as paredes da casa em uma extensão da experiência gastronômica.
A curadoria reúne trabalhos de artistas como Mário Cravo, Bel Borba, Leonel Mattos e Calazans Neto, dialogando com a proposta do restaurante de valorizar a cultura brasileira.
As obras ocupam diferentes ambientes, fazem referência ao próprio Rio Vermelho e não foram pensadas apenas como decoração: a intenção é que despertem contemplação, aproximem o público dos artistas e, futuramente, possam até ser adquiridas pelos clientes. Para Jota Moraes, a montagem de um prato se aproxima da criação de u ma obra visual. "Uma louça é como um quadro em branco", diz.
Se as quatro casas anteriores tratam a curadoria como projeto, no CGC ela é, antes de tudo, herança de família. O espaço funcionou como tabacaria no Pelourinho antes de virar restaurante, e as telas na parede – quase todas com uma figura fumando charuto – vêm justamente desse período. "Essas obras foram oriundas da convivência que o meu pai tem no Pelourinho, são mais de 50 anos aqui", conta Alberto Prado Junior, sócio-gerente da casa, cujo pai, Alberto Prado Oliveira, é o chef.
As pinturas são encomendas feitas ao artista Reginaldo Bonfim (1950–2007), pedidas para fugir do repertório mais óbvio do pintor – que costumava pintar mais em barro – em direção a um tema mais ousado, puxado pela memória da tabacaria e das casas de espetáculo que o pai frequentava no Pelourinho. O exemplo mais citado da casa é uma releitura da Mona Lisa fumando charuto.
As telas ficaram penduradas na fachada, atraindo turistas muito antes de o negócio virar restaurante, e sobreviveram à mudança de nome e de cardápio. A curadoria, hoje, segue informal. "Meu pai tem algumas obras guardadas e aí ele me diz: 'Bora trocar essa aqui por essa'", conta. Não tem ninguém por trás, não, é da gente mesmo". Para Alberto, o gesto também é uma forma de reconhecimento a um artista local. "Acho que é uma forma de exaltar o que temos de mais bonito na nossa cidade, que é a arte" .
Serviço
Casa de Tereza
- Endereço: R. Odilon Santos, 45, Rio Vermelho, Salvador
- Instagram: @casadetereza_
Jota Gastronomia
- Endereço: R. da Paciência, 295, Rio Vermelho, Salvador
- Instagram: @jota.gastronomia
CGC Restaurante – Cantinho Gourmet do Centro
- Endereço: Praça da Sé, s/n, Centro, Salvador (BA)
- Instagram: @cgc_restaurante
Une Cozinha
- Endereço: R. Alexandre de Gusmão, 57, Loja 01, Rio Vermelho, Salvador
- Instagram: @unecozinha
Silva Cozinha
- Endereço: R. Chile, 7, Centro Hist&oacu te;rico, Salvador
- Instagram: @silva_cozinha


