MUITO
Rua famosa de Salvador recebe festival gratuito com mais de 40 bares
De licuri a mel de cacau: festival em Salvador aposta em sabores da Bahia


“A gente já vê Salvador sendo reconhecida pela música, pela culinária, pelo Carnaval, mas por que não também pelos nossos bares?”, pergunta o empresário Jonatan Albuquerque, idealizador do Salvador Cocktail Festival.
De 10 a 16 de novembro, a primeira edição do evento reúne bartenders brasileiros e estrangeiros em estabelecimentos da capital baiana, promove um congresso profissional no Palacete Tira-Chapéu e leva mais de 40 bares, música e gastronomia para uma festa gratuita na Rua Chile.
À frente do Purgatório, bar soteropolitano que realiza o festival, Jonatan acompanha uma cena que, segundo ele, vem amadurecendo. Mais profissionais investem em técnica, os estabelecimentos desenvolvem cartas autorais e o interesse pela coquetelaria ganha espaço para além dos drinques tradicionais. Faltava, na avaliação do empresário, um encontro capaz de conectar essa produção a outras cenas do Brasil e do mundo.
A programação foi pensada para circular pela cidade. Durante a semana, bartenders convidados assumem os balcões de bares locais, criando encontros entre diferentes repertórios.
Nos dias 15 e 16, o Palacete Tira-Chapéu recebe palestras, painéis, masterclasses e expositores em um congresso voltado ao setor, com ingressos pagos. Já a festa de rua, aberta ao público, terá cerca de 20 bares por noite, além de apresentações musicais e opções gastronômicas.
Sabores
Licuri, mel de cacau, umbu, seriguela, dendê e frutas do Recôncavo são alguns dos ingredientes que podem inspirar criações ligadas à Bahia. A diversidade, porém, não garante uma identidade automaticamente.
“Não é simplesmente colocar um ingrediente baiano no copo e dizer que aquilo representa a Bahia”, afirma Jonatan. “A técnica pode vir de qualquer lugar do mundo, o que precisa ser nosso é a identidade”.
A reflexão ajuda a deslocar o debate da simples utilização de ingredientes regionais para a construção de uma linguagem própria. Um dos sócios do Exímia Bar, de São Paulo, Nicholas Fullen, vai participar do evento e considera que o Brasil tem a vantagem da diversidade de biomas, ingredientes e tradições gastronômicas. “Existe a nossa maneira de receber, a informalidade, a criatividade e o que chamamos de brasileirismo”, diz.
Nicholas observa que os mercados regionais têm muito a aprender uns com os outros. “Às vezes, ficamos tão concentrados no nosso próprio mercado e nas referências internacionais que deixamos de olhar para a riqueza do que está acontecendo dentro do país”.
O que diferencia um bar não está apenas no líquido servido. A qualidade dos ingredientes, o domínio técnico e a criatividade são fundamentais, mas o ambiente, a música, o serviço e a relação com o público também influenciam a experiência.
No Exímia, conta Nicholas, a intenção é desenvolver uma interpretação própria da coquetelaria brasileira, acompanhando o que acontece nos grandes centros sem reproduzir automaticamente suas tendências.
Em Salvador, a relação entre bebida e território ganha outra dimensão quando a programação deixa os balcões e ocupa o espaço público. A festa na Rua Chile pretende reunir bares, música, gastronomia e manifestações artísticas no Centro Histórico, convidando também quem não costuma frequentar casas especializadas.
Para o CEO do Palacete Tira-Chapéu, Robson Almeida, receber o festival dialoga com a proposta de manter o edifício histórico ativo e conectado à vida contemporânea da cidade. O espaço, restaurado ao longo de sete anos, reúne atividades ligadas à gastronomia, à hospitalidade e à cultura.
“A Rua Chile tem um valor histórico e simbólico extraordinário para Salvador”, afirma Robson. Na avaliação dele, a programação pode estimular a circulação de moradores e visitantes, movimentar o comércio e criar oportunidades para profissionais e empreendedores.
O desafio, como observa Robson, é fazer com que essa movimentação não se restrinja aos dias de evento. “Queremos contribuir para consolidar o Centro Histórico como um destino permanente de experiências gastronômicas, culturais, artísticas e de convivência”, diz.
Legado
A expectativa é que o contato entre bartenders, empresários e fornecedores favoreça a circulação de conhecimento e abra novas possibilidades de negócio. Para Jonatan, o resultado mais importante será percebido depois que o festival terminar: na qualificação de profissionais, no investimento dos bares em criações autorais e nas conexões que continuarem existindo entre Salvador e outras cenas da coquetelaria.
A tarefa não é pequena. A presença de convidados internacionais pode gerar visibilidade, mas transformar essa exposição em reconhecimento duradouro depende da capacidade de fortalecer os profissionais locais e valorizar o que a cidade já produz. Também exige que ingredientes e referências culturais sejam tratados com pesquisa, e não apenas como recursos para tornar uma receita mais exótica.
A aposta do festival é que Salvador possa ser reconhecida não só por receber nomes de fora, mas por desenvolver experiências que façam sentido em seu próprio contexto. Entre frutas regionais, técnicas compartilhadas e a maneira baiana de acolher, a identidade da coquetelaria local ainda está em construção.
Serviço:
Salvador Cocktail Festival
Quando: 10 a 16 de novembro de 2026.
Festa de rua gratuita: 14 e 15 de novembro, na Rua Chile, no Centro Histórico.
Congresso: 15 e 16 de novembro, no Palacete Tira Chapéu, com ingressos pagos.
Informações e ingressos: salvadorcocktailfestival.com. e @salvadorcocktailfestival