MUITO
Salvador nas obras de ficção de escritores baianos contemporâneos
Novos autores trazem à tona questões, desafios e contradições de uma cidade em constante transformação


Uma nova geração de escritores de ficção na Bahia está se destacando por suas obras com representações da cidade de Salvador, trazendo à tona questões, desafios e contradições da contemporaneidade, explorando a riqueza cultural e social de uma cidade em constante transformação.
Jorge Amado (1912-2001) certamente foi o autor que mais plasmou o imaginário sobre Salvador e seu povo para o mundo e, embora permaneça, ao lado de nomes como os poetas Gregório de Mattos (1636-1696) e Castro Alves (1847-1871), como grandes referências para a literatura brasileira, é como se a própria cidade, que está completando 474 anos, pedisse por novas narrativas.
Novos autores têm explorado temas como a diversidade cultural, a violência cotidiana, a desigualdade social e as transformações urbanas. O escritor e jornalista Breno Fernandes já publicou sete livros desde 2002, quando tinha apenas 15 anos.
Desde 2017, ele vem publicando praticamente um livro por ano, o primeiro intitulado Mendax, o ladrão de histórias, seguido por Os fanzineiros (2018), A mão do poeta (2019), Se eu pudesse, Danila, te levava pra tomar banho de mar em Guarajuba (2021) e As fotos roubadas (2022).
Todos esses últimos livros, com exceção de Os Fanzineiros, têm Salvador como pano de fundo. Para o autor, isso é deliberadamente uma escolha. Breno explica que a cidade entra nesses quatro livros a partir da ideia de que já existe uma Salvador que foi escrita no passado, portanto ele busca atualizar essas visões.
“Já existe uma carga histórica, já existe um registro literário, e o que posso fazer é meio que atualizá-lo, não necessariamente entrar em confronto com ele”, conta Breno.
O autor acrescenta que no começo dos anos 2000 houve um certo rechaço por parte de sua geração às publicações de Jorge Amado. “Houve uma ideia de que tudo o que Jorge fez era uma espécie de 'folclorização', havia uma imagem um pouco negativa, pelo menos eu me lembro”, diz.
Hoje, Breno acredita que isso mudou e existe um “olhar mais agradecido pelo o que Jorge Amado fez, porque ele meio que abriu o caminho”. Esse senso de “não folclorizar” acabou ditando bastante a escrita de Breno, que para além de pensar a geografia e o espaço da cidade, pensa na forma de falar dos soteropolitanos. “O dialeto de Salvador também é a cidade”, afirma o escritor.
Numa de suas obras recentes, Danila, ele trata sobre a “uberização das profissões”. É a história de um entregador por aplicativo que mora na comunidade da Polêmica e fica circulando pela Tancredo Neves. Esse rapaz acaba se apaixonando por uma recepcionista de um dos prédios da região e a dinâmica dessa relação é mediada pelo ritmo dos aplicativos.
“Para mim, contar essas histórias é uma forma de não cair no esparro do folclore. Tentar pensar a cultura, mas também o que é que está acontecendo no mundo hoje, o que é do mundo, o que é da sua época, mas também é de Salvador, como essa uberização”, explica Breno.
Atualmente, Breno vê uma linguagem mais ampla entre seus contemporâneos, citando entre eles a obra do escritor Ian Fraser, que trabalha com uma literatura que é “predominantemente pop”, de acordo com o autor de A mão do poeta. “Ian lançou um negócio que é meio Guardiões da Galáxia versão baiana”, diz Breno se referindo ao livro A vida e as mortes de Severino Olho de Dendê (2022).

“Acho que cada um está negociando com as suas referências, com o seu projeto. O mais legal, na verdade, é ver essa diversidade, porque tem gente que vai se identificar mais com isso, gente que vai achar que isso talvez fique velho daqui a 10 anos, então, no final das contas, tem Salvador para todos os gostos da literatura”, analisa Breno.
O livro Severino..., de Ian, a princípio não se passa em Salvador, somente próximo ao final que o leitor tem um vislumbre da capital. Na ópera espacial de Ian, a cidade de Salvador se torna uma espécie de centro galáctico, algo como o planeta Coruscant é para a franquia de Star wars.
“No livro, Salvador é o que Nova Iorque é atualmente para o cinema estadunidense, aquele centro cultural e econômico. Eu faço isso com Salvador em Severino”, explica Ian em termos mais terrestres.
Em 2020, ele lançou também outros dois livros que se passam em Salvador: Mar 1.0 e Noir carnavalesco. No primeiro, a cidade está completamente destruída, no outro aparece como uma cidade pulsante e festiva. Dois lados completamente opostos de um mesmo lugar.
“Mar 1.0 fica muito mais no subtexto, não é tão bem trabalhado como cidade, já em Noir carnavalesco Salvador é a que a gente conhece, e se passa durante o carnaval, um evento onde o povo vive a cidade. É ao mesmo tempo colorida, no sentido dos abadás, das festas, das luzes, mas ela também é suja, da sarjeta, com aquele cheiro de urina, aquelas latas no chão. Salvador vira um personagem no sentido desse encanto que é humano”, conta Ian.
Terror, suspense
Diferente de Breno, que busca retratar esse cotidiano mais próximo da realidade, as obras de Ian brincam com a fantasia, a ficção-científica, o terror e o suspense. “Eu gosto de transitar por essa literatura do especulativo, que abraça esses gêneros. O realismo mágico, que é o movimento latino-americano, uma coisa nossa”, acrescenta.
O autor de Severino lembra que uma vez assistiu um vídeo onde Jorge Amado falava sobre Salvador. Segundo Ian, no vídeo, o autor dizia que “o tempo em Salvador é diferente”, e ele concordou. “Minha carreira teria sido muito melhor se eu tivesse ido para São Paulo. É um fato isso. Já tenho isso testado, o mercado pulsa lá. Então, Salvador vira um propósito, a cidade vira um propósito da escrita”, pontua Ian.
Ele acredita que escritores nascidos em Salvador vão bater muito mais na tecla de que são soteropolitanos do que um autor porto-alegrense, paulista ou carioca. “Eles vão falar isso como um terceiro aposto, um quarto aposto. O escritor soteropolitano acha que ele é soteropolitano-escritor. Vira meio que um hífen, ao invés de uma vírgula”, justifica.
Ian diz acompanhar as possibilidades literárias atuais como um cenário de mais multiplicidade, justamente por ter mais vozes. Sejam elas vozes divergentes e com mais perspectivas de diferentes narrativas, entre elas a de mulheres.
“Hoje em dia temos um cenário em que estamos vendo mais mulheres participando, acho que não tem tanto quanto a gente merecia, mas temos, sem dúvidas, mais espaço para mais vozes e mais possibilidades artísticas”, defende Ian.
Novos sujeitos
A autora Luciany Aparecida traz em suas obras esse olhar. Ela acredita que o que diferencia a geração dela para a anterior é, justamente, uma narrativa que olha para novos sujeitos.
"O foco da minha narrativa tem como ponto de visão uma mulher, sempre. Então, eu vou estar escrevendo sempre a partir do olhar de uma mulher sobre a cidade, de como é que essa mulher está pensando o trânsito do seu corpo na cidade”, explica Luciany.
Doutora em letras com pesquisas nas áreas de teoria, criação e crítica literária, Luciany publica também sob o pseudônimo Ruth Ducaso, e entre suas obras se destacam os livros Florim (2020) e Joanna Mina (2022), ambas em que Salvador se torna parte central da narrativa.
“Se em Florim Salvador é uma cidade contemporânea, que vai falar da violência, tráfico de drogas, em Joanna Mina é uma cidade mais nessa relação com a história, contando a história de uma mulher que vendia coisas na rua no pós-escravidão”, diz Luciany, comparando as histórias.

A inspiração para a escrita de Luciany vem da arquitetura dos prédios históricos, e esses ambientes entram na narrativa como um cenário que vai revelar essas tensões de raça, de classe e as tensões patriarcais. “Meu impulso é tentar entender o agora. Eu quero muito entender a vida agora e, para mim, um dos jeitos de entender o agora é me voltar para o passado”, diz a escritora.
Segundo Luciany, Salvador é uma cidade propícia para se voltar ao passado porque ainda se encontram estruturas muito parecidas com a de séculos anteriores. “E o impulso passa desde observar estruturas arquitetônicas e pensar determinados vícios da cidade. Pensar 'Por que isso é assim?’”, analisa.
Hoje, ela acredita que Salvador é uma imagem muito importante para o trabalho dela, porque, segundo a autora, a cidade oferece um panorama bom para se pensar o Brasil. “Qualquer pessoa brasileira ou não brasileira que queira pensar o Brasil, pode começar pela Bahia e uma das cidades pontuais para isso é Salvador”, afirma Luciany.
Cidade complexa
O jornalista e escritor soteropolitano Flávio VM Costa mora em São Paulo desde 2011 e já publicou dois livros, Caçada russa (2016) e Você morre quando esquecem seu nome (2020). Atualmente, ele é editor-chefe do Intercept Brasil, e afirma: “Você não consegue escapar de Salvador”.
É por isso que ele, atualmente, se divide entre a capital paulista e a baiana, tentando viver seis meses em cada local. Em seus contos, Salvador está quase sempre presente. Flávio busca ambientar suas histórias onde estão suas memórias mais fortes, como o bairro de Pernambués, onde foi criado.
“As minhas primeiras histórias se passavam muito no meu bairro. É um bairro com maioria de gente pobre, mas tem uma classe média, é um bairro muito grande, e eu acabei começando as primeiras histórias lá”, lembra. Quando iniciou no jornalismo, conheceu muitos outros bairros da cidade e estes também entraram nas histórias.
Flávio conta que à medida que foi escrevendo, percebeu que a cidade era muito presente em sua obra. Nunca foi um plano escrever tanto sobre Salvador, ele só não conseguiu escapar.
“Salvador é isso, uma cidade que te envolve muito, é muito complexa, uma cidade muito violenta. Ela sedia vários conflitos de ordem social, de conflitos humanos. No meu caso, eu tentei escapar de Salvador, mas não consegui. Eu deixei claro isso”, afirma.

No entanto, o escritor também não acredita que faça um retrato da cidade. Flávio escreve ficção, e para ele a ficção é uma “deformação”, uma visão que ele tem da cidade. “Essa cidade de Salvador só existe em meus contos, por mais que tenha uma ligação direta com a Salvador real”, explica.
Para Flávio, entre os autores de uma outra geração, as obras de Gregório de Matos são as que ainda são muito atuais. Ele acredita que, mais do que escrever sobre a cidade, é preciso escrever sobre a mentalidade de Salvador, algo que Gregório fez muitas vezes.
“Não só escrever a Salvador física, descrever lugares, eventos, mas também a história das pessoas de Salvador, como as pessoas pensam, como as classes sociais interagem, entram em conflito”, analisa Flávio.
O escritor lembra que quando começou a escrever sobre Salvador sentia falta de uma ficção urbana e atual, algo que ele encontrou nos trabalhos de Tom Correia e Mayrant Gallo. No entanto, ele acredita que ainda há muito sobre o que ser escrito sobre Salvador.
“Acho que temos aí uma série de histórias não contadas porque não acho que a cidade foi tão bem retratada assim. Acho que tem uma visão muito hegemônica nessa Salvador de Jorge Amado que ainda persiste, mas ainda acho que a gente precisa de um contraponto”, destaca Flávio.