MUITO
Salvador total
Um garoto e seu guarda-chuva enfrentam a enxurrada que escorre numa ladeira da cidade. Um homem caminha (rumo ao trabalho, a sua casa?) e camufla-se no muro – nítida está a cidade de casebres amontoados ao fundo. Uma escultura aos pedaços parece rezar na calçada. Meninos são arrastados por policiais. E as mãos de um homem laceram as guelras de um peixe.
São registros feitos por Antonello Veneri, 43, o fotógrafo italiano que, uma vez radicado na cidade, resolveu percorrer seus bairros periféricos e centrais, distanciando-se da orla. “Os contrates e os opostos andam juntos por aqui. O sagrado e o profano; a beleza e a miséria; a energia boa e a energia ruim. É como se um precisasse de outro. São inseparáveis”, diz, enquanto espalha os frames das fotos na varanda de sua casa, em Itapuã.
Foto: Antonello Veneri / Divulgação
Nascido em Trento, a cidadezinha italiana espremida pelos Alpes – organizada demais, limpa demais –, ele estudou literatura italiana, mas logo começou a trabalhar como jornalista e, depois, fotojornalista. Viajante, veio ao Brasil há dez anos. Quando responde por que escolheu Salvador para morar, põe um pouco de desorganização e sujeira na história. “Ela é o contrário da minha cidade natal. Aqui tem energia demais. E eu preciso disso”, diz. “Ao mesmo tempo, esta é uma cidade pouco fotografada. As festas são fotografadas, mas o cotidiano não”.
Viva
Além de trabalhar para jornais e agências, Veneri faz parcerias com ONGs, como a Lua Nova, localizada em São Paulo, e com o Ministério da Saúde (Fiocruz), em projetos de documentação social. Desde 2011, ele vem desenvolvendo dois projetos autorais: o Vidas Extra-ordinárias, em que documenta o dia a dia dos moradores de rua nas principais cidades do Brasil, e o Interiores, onde registra famílias nas favelas e subúrbios das capitais do país.
Foto: Antonello Veneri / Divulgação
Há poucos meses, iniciou mais um ensaio de fôlego. “Pescadores Urbanos” é um documento da última colônia de pescadores que sobrevive em Mucuripe, na beira-mar de Fortaleza. “Ao longo dos últimos 30 anos houve uma forte redução do número dos pescadores e a lenta substituição das jangadas pelo conjunto de condomínios e prédios”, conta Veneri. Em suas fotos, a gentrificação e a especulação imobiliária avançam sobre os pescadores, que tentam resistir à ação do mar, do vento e dos interesses políticos.
Em Salvador, ele já registrou a Ladeira da Preguiça (série vencedora do prêmio National Geographic Itália, em 2014), o subúrbio ferroviário, os moradores dos casarões decrépitos do Centro, as travestis (projeto ainda em curso e sem data para acabar). “Salvador é uma cidade que não cuida muito de si. E, ao mesmo tempo, é uma cidade intensamente viva”, diz ele, que a cada bairro ou região fotografada exibe o resultado numa exposição feita para os moradores. “Eles nos presenteiam com o olhar, então é justo que tenham um retorno”.
Foto: Antonello Veneri / Divulgação
Há alguns meses, num fim de tarde em sua casa baiana, foi tomado de susto por barulhos de tiros e pela correria decorrente. Sacou sua câmara e rumou para a praia de Itapuã, onde o corpo de um rapaz jazia em sangue. A foto jamais foi exibida em público. “Respeito à imagem do jovem”, justifica. Não deixa de representar o que há de potente em seu trabalho. Sob a luz da praia, a nossa Babilônia.